terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Processos Mentais e o Transe Mediunista (Parte I)


Por: Gregorio Lucio

Introduziremos, neste novo post, o tema Processos Mentais e o Transe Mediunista, como um conteúdo referencial e iniciador de uma sequência de estudos que estabeleceremos posteriormente, tratando do Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda.

Na elaboração deste material, acabamos por desenvolver um texto bastante amplo, dessa forma dividiremo-lo em 3 partes com o mesmo título, sendo essa a sua primeira parte, na qual contemplaremos os estágios iniciais estruturantes do transe, além de estabelecer uma idéia sucinta em torno deste. Suas partes complementares serão publicadas em data futura.

Devemos encarar a questão em torno dos Processos Mentais envolvidos na construção do Transe Mediunista, observados na prática do intercâmbio com a realidade transcendente, como importante e necessário ponto de estudos, merecedor de maior desenvolvimento, capaz de produzir um Saber suficientemente estruturado, a respeito de como tais processos relacionam-se e se integram para a culminância do Transe.

Nossa intenção é a de contribuir, humildemente, com a colocação de alguns pontos extraídos de nossos estudos, reflexões e observações em torno de nossos próprios estados de transe, na expectativa de sermos úteis ou motivadores de mais aprofundadas perquirições a respeito.


Desejamos, conforme o já dissemos, estabelecer algumas relações referentes aos processos mentais que estão presentes, segundo nosso parecer, na construção do estado de transe, os quais verificam-se sendo processados em ambas as instâncias psíquicas do ser, quais sejam o consciente e o inconsciente.

Seguindo nossas reflexões, depreendemos que a prática mediunista obedece a um mecanismo de construção dinâmica dos processos mentais que elaborarão outros, os quais deverão sucedê-los no contato com a dimensão psíquica do indivíduo, de maneira que este transitará por diversos estágios de processamento de sensações e estímulos de variada ordem, emoções, pensamentos e imagens psíquicas, até o momento no qual efetuar-se-á a conjugação de um estado psíquico e mental totalizador, por cujo seu continuum ocorrerá o transe (entendido por nós como o ponto integrador de uma rede complexa de processamento mental, de cunho psicofisiológico) e seu consequente intercâmbio com a dimensão espiritual (interna e transcendente ao indivíduo).

Os processos mentais são elementos constitutivos da consciência, sendo suas estruturas funcionais, e atuam como atividades instrumentais no homem, incluindo em si um caráter de nível social, realizados coletivamente. Assim, tais processos mentais definem o funcionamento da mente humana de uma maneira ampla. Estão englobados como processos mentais: funções sensório-motoras, emoção, pensamento, linguagem, memória, imaginação, percepção, atenção, concentração, vontade, intuição, criatividade, transe, entre outros.

Observamos serem estes os processos mentais presentes e configurados como a estrutura de base criativo-construtiva da experiência espiritual tida como Transe Mediunista.

Na base desta composição estruturante, identificamos o par Memória-Emoção como processos mentais propulsionadores (primeiro estágio) das demais ocorrências psíquicas. Primeiramente, devemos compreender a memória como uma função situada tanto no psíquico quanto no somático, emotivo-cognitiva -vinculada a uma ampla rede de associações de caráter sensório e emocional -, sugerindo o  "retorno da experiência (e do sujeito, enquanto formado pela experiência) ao passado, até o desligamento completo do real" permeado pela reelaboração da experiência vivida, no entanto, acrescida de novos elementos vivenciais atuais do indivíduo, implicando em uma "[...] idéia de atualização do vivido pelo presente [...]". (Leonardelli, 2008). Assim, memória implica na transposição contínua para o presente das vivências contidas no complexo psíquico do ser, avançando sobre as barreiras do tempo e do espaço.

Os arquivos registrados pela Individualidade Espiritual ao longo de sua jornada pelo ciclo das reencarnações, experiências anteriores e a própria reminiscência de sua origem primordial estão contidas nos processos mnemônicos, sedimentados nas profundezas do inconsciente.

Nossos registros mnemônicos ligam-se ao nosso psiquismo por intermédio da experiência afetiva vivenciada na interação com o meio. Benntto de Lima (1997), ao referir-se as experiências de ordem espiritual (ou mística) e sua relação com a emoção, diz-nos que "o que caracteriza esse processo mental [...] é precisamente a emoção concentrada nos conceitos de: próximo, grupo e espécie. A variação da intensidade emocional das vivências determina os diferentes tipos de experiência", e ainda que "[...] estas [experiências místicas ou espirituais] se inserem, por conseguinte, num processo histórico ao mesmo tempo individual e social. E não apenas no processo histórico social de determinada época, mas ao longo da existência da espécie. Depois de passar por uma experiência psíquica radical, quase sempre também mística, o indivíduo busca sua identidade na realização com o grupo, no encontro com o próximo".

A emoção surge, então, como o elemento capaz de gerar a vinculação do ser ao seu próprio mundo psíquico e ao mundo de relação, cuja experiência com o outro (no início com a mãe e depois, em diversos níveis, com o meio social), sedimenta seu enraizamento na realidade experimentada em-si e ao mesmo tempo fora-de-si, dimensão afeta à alteridade, ao outro, as chamadas relações interindividuais (Camargo, 1999).

A integração da paridade memória-emoção revelar-se-á a consciência por intermédio de um segundo par estruturante (segundo estágio), seu sucessor: Pensamento - Imagem (Imaginação).

Em continuidade ao ato mnemônico-emotivo (de processamento inconsciente) evidenciam-se à consciência, pelo fluxo do pensamento, a conjunção de imagens (portadoras de elementos de memória e emoção) que preenchem os espaços da rede psíquica, formando a "tela mental" que passa a ser populada pelas ideações pertinentes a condição interior do indivíduo.

Vejamos que a sucessão de estágios entre processos mentais não anula aqueles que servem aos primeiros níveis. Ao contrário, o mecanismo visa uma manutenção energética dos conteúdos da consciência, pela soma de vários níveis de processamento psíquico, integrando-os em um processo de sinergia. Portanto, o estado mnemônico-emocional, além de servir de base para o surgimento do estágio seguinte (pensamento-imagem) também determinará a sua intensidade e configuração.

Ao ponto em que estão integrados os dois primeiros pares estruturantes (memória-emoção; pensamento-imagem), o correspondente estágio sucedâneo formará-se, ocupando a consciência com novas informações e conteúdos a serem experienciados e integrados. Este terceiro par estruturante se formará pela junção da paridade Linguagem-Funções Sensório/Motoras.

A partir daí, o psiquismo passa a comunicar-se diretamente ao corpo, por intermédio de sensações e impulsos (ou relaxamento) de ordem motora, assim como pela intrusividade de elementos dotados de significado e qualidade semântica, portanto, inteligíveis. Salientamos que a ideação, iniciada na irrupção do par pensamento-imagem, assume caráter mais amplo e intenso neste novo estágio, comunicando-se por meio de idéias inteligíveis e expressões significantes (linguagem), observadas na postura corporal, gestualidade e, até, em alterações facias (funções sensório-motoras), como personificação e presentificação do estado alterado de consciência (transe) que já se faz pronunciado.

O transe, de uma maneira geral e introdutória, pode dar-se por diferentes motivos e necessitamos conhecer as suas possíveis naturezas para que possamos entendê-lo como um processo mental amplo e quando este está ligado a experiências transcendentes (não necessariamente mediúnica ou mediunista) ou, quando deriva de outra ordem de fatores.

Entre os estados de transe originados por causas diferentes das experiências místicas ou espirituais, podemos identificar aqueles ocasionados por substâncias químicas ou farmacológicas; por bebidas alcoólicas; drogas diversas (como a cocaína, a maconha, LCD, etc); ausência de oxigênio no sangue (anóxia); doses oscilantes de glicose no sangue (como no caso de diabéticos); distúrbios metabólicos; hipnose; epilepsia; etc.

De igual maneira, o transe de ordem espiritual também pode processar-se como sendo de caráter perturbador (no caso de uma obsessão espiritual) ou, pelo menos, como um mecanismo desordenado que assoma à realidade do indivíduo seu portador, carecendo de aprendizado e comando de seus mecanismos para que possa lograr um estado de normalidade e adaptação a esta nova experiência psíquica, propiciando inclusive possibilidades maiores no campo da conquista e plenificação interior. Ressaltamos que até este terceiro estágio, as ocorrências psíquicas podem dar-se (como efetivamente ocorre, sendo mais comum do que se imagina) passando por um processamento totalmente inconsciente no indivíduo, culminando num transe, e por isso mesmo até este nível, não há uma distinção entre a experiência saudável do estado alterado de consciência (mediúnica ou não) e a de caráter perturbador.

Assim, "a passagem à consciência é o início de uma etapa superior ao desenvolvimento psíquico. O reflexo consciente, diferentemente do reflexo psíquico próprio do animal, é o reflexo da realidade concreta [...] que distingue as propriedades objetivas estáveis da realidade". (Leontiev, 1978).

Embora A.N. Leontiev fundamente seu pensamento com base no paradigma do realismo materialista, entendemos ser a sua assertiva de valor inestimável para chegarmos a um entendimento de que somente a partir do momento em que os conteúdos psíquicos passam a ser percebidos de maneira consciente pelo ser humano, é que poderão ocorrer os próximos níveis de desenvolvimento do psiquismo humano. Tratando especificamente dos processos mentais e o transe, podemos dizer que somente a partir do instante em que o ser coloca sob o seu comando seus processos mentais é que poderá lograr atingir níveis mais profundos de suas experiências espirituais, conservando sua integridade psíquica e, inclusive, utilizando-se de tais experiências como recursos para o seu amadurecimento como ser humano e Espirito que É.

Portanto, a partir do terceiro estágio, deverão estabelecer-se uma nova ordem de processos mentais estruturantes do transe, uma vez que estamos referindo-nos àquele que se caracteriza como constituído de higidez psicofisiológica, ou seja, possuidor de características saudáveis, não-patológicas.

O transe, que passará a ocorrer sob o domínio de seu experimentador, deverá, além dos 3 pares estruturantes já citados, lastrear-se em 3 próximos níveis de construção (Quarto, Quinto e Sexto estágios estruturantes), sobre os quais falaremos nos dois próximos artigos, quais sejam:

4º Estágio: Percepção - Atenção;
5º Estágio: Concentração - Vontade;
6º Estágio: Intuição - Criatividade;

Finalizaremos falando do próprio Transe Mediunista: 7º e último estágio, ponte para a Consciência Mediúnica.

Saravá a todos!


Bibliografia Consultada:
Camargo, Denise (1999). Emoção, Primeira forma de comunicação (artigo científico)
Leonardelli, Patricia (2008). A Memória como recriação do vivido (tese de doutorado)
Lima, Benntto de (1997). Malungo - Decodificação da Umbanda
Leontiev, A. N. (1978). O  desenvolvimento do psiquismo





terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Psíquico e o Imaginário: Relação entre Mundo Espiritual e Materialidade


Por: Gregorio Lucio

"Eu escutei
 E olhei
 Com olhos tão abertos.
 Verti minha alma
 No mundo
 Procurando o desconhecido
 No conhecido
E canto em altos brados
Em meu assombro!"
(Rabindranath Tagore)

Compreender a realidade espiritual sem a presença da materialidade é uma tarefa imaginativa, um processo psíquico difícil (em particular para o homem ocidental), uma vez que nossas expressões culturais e paradigmas filosóficos estão intrinsecamente ligados à interpretação dual da realidade, expressa na relação interacionista sujeito-objeto.

Elaborar uma visão em torno da realidade espiritual, na qual não haja a presença de objetos, paisagens, paragens, cidades espirituais parece uma questão um tanto complicada e dotada de um vazio de significação no que diz respeito a compreensão da dimensão transcendente, porquanto nossas vivências e experimentações estão repletas nas impressões que adquirimos por meio dos sentidos (mesmo na relação com o mundo psíquico) e na interação com uma "realidade exterior".


As experiências dentro do universo religioso dão-nos conta da existência de "localidade" e "individualidade" no mundo espiritual, definindo-as das mais diversas formas, variando conforme o meio cultural e as referências pessoais daqueles que se vêem sujeitos de tais "revelações", obtidas por via mediúnica ou do êxtase.


Devemos reflexionar a respeito da efetiva existência de tais paragens e personalidades do mundo espiritual, tendo como base o contributo ministrado por tais experiências da ordem do transcendente, verificadas de maneira tão ampla no mundo religioso. Todavia, o entendimento de como uma mesma realidade (a espiritual) pode apresentar-se de maneira tão diversa e ao mesmo tempo verdadeira para cada cultura religiosa, necessitará apoiar-se no conhecimento da dinâmica da psique como a chave para a sua compreensão, respeitada a notável diversidade cultural.

"As únicas coisas do mundo que podemos experimentar diretamente são os conteúdos da consciência". (Jung, 1971). Mediante tal assertiva de Carl Jung compreendemos que toda a nossa experimentação em torno da "realidade que nos cerca" está centrada em projeções que fazemos de objetos e sensações, permeadas pelo nosso complexo psíquico. Dessa forma, lidamos com o mundo e estabelecemos com ele relações, na medida em que podemos percebê-lo fora de nós, embora sua origem e complementaridade esteja imersa no todo psíquico de cada indivíduo.

"[...] pode-se entender que é da natureza humana se relacionar e construir o mundo por intermédio das imagens psíquicas, o que tem como consequencia a apreensão e relação do homem com o universo a partir de subjetividades que se de fato condizem com algo que se possa chamar de essência das coisas ou realidade, pouco importa. Sua importância reside na constatação de que esta subjetividade existe e quando partilhada se torna objetiva na vida daqueles que assim o fazem". (Leme, 2006)


Dentro do circulo religioso umbandista (tanto quanto de outras religiões ou doutrinas), temos as descrições, informadas diretamente por alguns sensitivos ou, por seu intermédio, pelas entidades espirituais manifestadas, de regiões do mundo espiritual, onde "vivem" e "transitam" um sem número de seres afastados da experiência carnal,  no entanto dotados de corporeidade. A Aruanda, a Cidade da Jurema, os Reinos das Águas, o Reino dos Astros, bem como os seus habitantes Caboclos, Pretos-Velhos, Crianças, etc, são alguns simbolos que aparecem dentro do imaginário religioso umbandista, servindo como comunicadores da existência de localidades e personalidades "Luminosas" na dimensão extra-física.


Conforme encontramo-nos relacionados com esses significados das experiências místicas oriundas da práxis umbandista, populamos, ao longo da vida religiosa, o nosso universo psíquico e contribuímos ao sistema de crenças pertinentes a nossa religião. Construímos, dessa forma, as bases para a transmissão e o compartilhar dos sentidos presentes nas experiências espirituais, associando-os ao imaginário existente e constantemente reelaborado pela coletividade umbandista. Dessa forma "[...] os símbolos religiosos têm um pronunciado 'caráter de revelação' e, em geral, são produtos espontâneos da atividade inconsciente da psique". (Jung, 1971).

"O imaginário, visto do prisma da pluralidade das imagens, é a própria vivência psíquica e constitui-se como campo onde se situam e guardam o patrimônio de linguagens, símbolos e artefatos culturais que se consubstanciam em imagens e suas significações, produzidos pela humanidade, e que se concretizam, se expressam, se toram 'visíveis' em memórias, fantasias, doutrinas, teorias, modos de comportamento, sentimentos, afetos, na arte, etc, habitualmente associados aos produtos da imaginação". (Leme, 2006)

Os aspectos encobertos pelas comunicações simbólicas dentro do campo místico da Umbanda, guardam em si a apreensão de um senso de totalidade, comunicado pelas entidades espirituais - e por seus cavalos, quando estes o conseguem captar -, o qual leva a compreensão essencial de uma profunda conexão entre tudo o que existe e a não-separação original entre sujeito e objeto dentro do mundo fenomenológico, embora suas relações assim o pareçam. Portanto:

"Os dois mundos, o divino e o humano só podem ser descritos como distintos entre si [...] os dois reinos são, na realidade, um só e único reino. O reino dos deuses é uma dimensão esquecida do mundo que conhecemos" (Joseph Campbell, 1997)

No entanto, configura-se uma dúvida em torno das revelações trazidas pelas entidades espirituais e comunicadas a nós. Como pode haver uma realidade na qual não há cisão entre sujeito-objeto se a própria descrição de locais na dimensão espiritual e da própria presença de seres com corpos espirituais levam a crer nisso? Uma vez que se existe espaço e materialidade no mundo espiritual, haverá também a interação dualista entre sujeito e objeto?


"A antítese do realismo materialista é o idealismo monista. Segundo esta filosofia, a consciência, e não a matéria, é fundamental. Tanto o mundo da matéria quanto o dos fenômenos mentais, como, por exemplo, o pensamento, são criados pela consciência. Além das esferas material e mental (que, juntas, formam a realidade imanente, o mundo da manifestação), o idealismo postula um reino transcendente, arquetípico, de idéias, como origem dos fenômenos materiais e mentais. Importa reconhecer que o idealismo monista é, como o nome implica, uma filosofia unitária. Quaisquer subdivisões, como o imanente e o transcendente, situam-se na consciência. A consciência, portanto, é a realidade única e final". (Goswami, 2002).


Entenderemos, por conseguinte, que segundo a visão espiritualista, a qual também parte do princípio monista em torno da realidade existencial, é a consciência como princípio e essencia que fundamenta a experiência do ser, e gera os contextos que podem ser entendidos como objetos e sujeito sendo coisas distintas. Essa consciência, podemos entendê-la como sendo a alma, ou espírito em sua dimensão mais profunda:"[...] a alma é o único fenômeno imediato deste mundo percebido por nós e por isto mesmo a condição indispensável de toda experiência em relação ao mundo". (Jung,1971)

Por meio do universo psíquico, o qual entenderemos como uma instância da consciência, surgem os símbolos que significamos como pertencentes ao universo de relação. Entendemos que o mesmo fenômeno dá-se também na dimensão espiritual, por conta dos próprios relatos das entidades espirituais que dão conta de situações nas quais objetos ou construções são erigidos, desmanchados ou modificados; espíritos que em estado de sofrimento e estagiando em um local sombrio, após sofrerem uma avassaladora modificação no padrão mental, por intermédio do arrependimento e da oração, vêem-se em local completamente diverso, onde podem ser tratados e orientados; entre outras.


Interessante observarmos, a partir de tais relatos, que a percepção do mundo espiritual, originada na consciência, "[...] pode se estender além dos limites humanos e incluir vários animais, plantas e até materiais inorgânicos e acontecimentos. Parece que tudo o que possa ser vivenciado no dia-a-dia como um objeto tem, nos estados incomuns de consciência, um complemento correspondente numa experiência subjetiva. O que comumente percebemos como elementos separados de nós - como pessoas, animais, árvores e pedras preciosas - podemos, na verdade, transformar e identificar num estado transpessoal".(Grof,1990).


Embora Grof estivesse referindo-se àqueles estados experimentados por indivíduos encarnados, no contato com a realidade espiritual, podemos também relacioná-los as percepções dos próprios espíritos."Os estados transpessoais, então, não diferenciam entre o mundo da realidade consensual e o mundo mitológico das formas arquetípicas".(Grof, 1990)

Essas correlações entre o mundo material e o mundo espiritual, desencadeadas por um princípio em comum - a consciência, espírito ou alma - conforme aprendemos, também são comunicados por intermédio dos símbolos religiosos contidos nas mais diversas culturas.

Na Cultura Vedanta, Nama representa os arquétipos transcendentes e Rupa as suas formas imanentes. Brahman situa-se como a consciência universal, a qual abarca ambas (Nama e Rupa).

Na Filosofia Budista temos Nirmanakaya como reino material e Sambhogakaya, o reino das idéias. Dharmakaya, como consciência única contemplando ambos os reinos.

No Kardecismo temos Matéria (realidade imanente) e Espírito (realidade transcendente) e Deus como sendo a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas (implicando na idéia de que a Divindade contempla em seus domínios tanto a manifestação - matéria -, quanto a ideação - espírito).


Na cultura Cristã, de maneira geral, temos os símbolos Deus, Terra e Céu, da mesma forma identificando o princípio de que na Divindade estão abarcados os domínios da imanência e transcendência.


 A Umbanda contempla em seu bojo de conhecimentos e experiências espirituais uma variedade de significados passíveis de aprofundamentos, pela dialética que encerra entre a vivência do Sagrado e a apreensão dos conteúdos psíquicos oriundos da prática mediunista, formando uma rede de sentidos ampla, a qual pode conduzir à compreensão de uma origem essencial e a conexão com o todo, com o Orixá, com o Divino.

"[...] Não obstante seja imediato o impacto estético e sensorial do seus ritos, a intencionalidade subjacente às ações, entretanto, quando se alcança percebê-la, manifesta-se pela encadeamento do seus símbolos, que se revelam inteligíveis à medida que o interlocutor progressivamente se afina com a sua linguagem e sistema simbólico e passa a ser capaz de 'senti-los'". (Pagliuso; Bairrão, 2010).

O sentir, processo psíquico primordial para a apreensão das vivências transcendentes experimentadas na Umbanda, é o recurso interior a ser desenvolvido pelo seu adepto. O sentir permite que retiremos das camadas mais profundas da psique os conteúdos mais próximos da nossa totalidade como espírito, integrando-os às nossas vivencias emocionais e produzindo mudanças em nossas percepções da realidade com a qual nos relacionamos, passando, gradativamente, a agir de maneira mais íntegra e menos fragmentária em torno de nossa existência, ampliando nossa consciência  e compreendendo que somos Seres rumando para a reintegração com a Essencialidade Divina, na qual as dualidades se dissolvem no Todo, no Um.

Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:
Pagliuso, Ligia; Bairrão, J.F.M.H. (2010). Luz no Caminho: Corpo, Gesto e Ato na Umbanda (artigo científico)
Leme, Fabio Leme (2006). O uso do imaginário nos estudos afro-brasileiros e no culto umbandista (tese de mestrado).
Goswami, Amit (2005). A Física da Alma
                         (2002). O Universo Auto-Consciente
Grof, S. (1999) O Jogo Cósmico
              (1990) A Tempestuosa Busca do Ser 
Campbell, Joseph (1997). O Herói de Mil Faces
Jung, Carl (1971). A Natureza da Psique

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A Realidade Espiritual do Terreiro de Umbanda



Por: Gregorio Lucio

Vimos expondo, conforme publicações anteriores, as relações existentes entre o médium e seus guias espirituais - no campo da prática mediunista - e estabelecendo considerações, embora sumarias, em torno de determinadas características semânticas observadas nos ritos umbandistas, quais sejam a dança, a curimba, o ponto riscadoas ervas, as oferendas, a magia, as roupas litúrgicas, o transe, entre outras.

Cremos agora ser o momento de estabelecermos algumas considerações em torno dos aspectos que relacionam-se com as percepções de natureza espiritual, seus desdobramentos dentro da experiência mística, identificando-as com as movimentações que dão-se no plano espiritual, ao longo da gira, as quais implicam na elaboração de um discurso e interpretação de natureza interior e particular de nossas experiências nos ritos de Umbanda, as quais intentaremos, por ora, transmitir aos amigos leitores e irmãos de fé.

Entendemos ser o rito umbandista uma prática religiosa de caráter coletivo, no qual cada participante comunga com o outro a experiencia espiritual.

Desta forma, compreenderemos que cada indivíduo que se integra aos trabalhos da casa (mesmo aqueles sentados na assistência, bem se diga), trazem para o interior do terreiro todo o conjunto de suas possibilidades psíquicas e anímicas, assim como todo o complexo de suas relações espirituais, identificadas diretamente com sua existência. Assim, cada participante do rito traz ao terreiro os seus protetores espirituais e depositam ao longo do rito, na irradiação (egrégora) formada ao longo dos trabalhos, a sua contribuição em benefício de si mesmo e de todos quantos estejam compartilhando do momento da gira.

É de conhecimento, "senso comum", no meio umbandista que os espíritos Guias iniciam um processo de maior estreitamento de suas energias com as de seu médium (cavalo), num período de 24
horas antes do inicío dos trabalhos espirituais. Isso implica no conhecimento de que há, adrede programado, um relacionamento estabelecido entre as estruturas psíquicas do medianeiro com as de seus Guias, os quais irão penetrar em seu campo consciencial de maneira ostensiva nos momentos de transe, culminando na realização de sua função mediúnica e aplicando-a na experiência religiosa.

De tal sorte que o cavalo de Umbanda deve preparar-se ritualisticamente para o seu mister como medianeiro. O recolhimento, a oração, os banhos de defesa e a iluminação de suas correntes, conforme recomendação de cada templo, deverão ser práticas presentes em sua vida religiosa.

Isso porque serão trazidos ao campo de influência de sua aura (irradiação) não somente aqueles espíritos que irão comungar com o médium no momento do transe, mas também aqueles espíritos que encontram-se "adormecidos" no plano espiritual ou que estejam influenciando negativamente determinada pessoa ou local. Compreendamos tal fato ao considerarmos que o indivíduo-médium, ao propôr-se a realizar a sua iniciação espiritual, passa a ampliar as suas relações com o mundo espiritual, levando-o a um maior estado de sensibilidade das influências espirtuais (positivas e negativas) verificadas em determinados ambientes e pessoas.

Porque ilumina a sua consciência com a Luz espiritual que adquire na senda mediúnica, passa a servir como farol àqueles que ainda encontram-se na escuridão e necessitam do "choque" com as suas irradiações para recuperarem a lucidez espiritual. Encontrando-se preparado, disciplinado, e consciente de sua responsabilidade como médium, poderá servir como instrumento útil aos Mentores de Luz no socorro aos necessitados do mundo espiritual, sem sofrer com isso nenhum prejuízo ou desgaste.


Voltando à questão coletiva da prática umbandista, gostaríamos de enfocar algumas percepções a respeito de particularidades do rito umbandista e seu campo de influência espiritual sobre os participantes e também sobre toda a região física e extra-física que pode ser alcançada pelas irradiações do templo, a depender de seus propósitos de trabalho e compromisso diante das Leis de Umbanda.

Movimentando as consciências de todos, no momento irmanados no sentimento religioso, para um estado de equilíbrio psíquico, o rito Umbandista efetiva desvincular os presentes (encarnados e desencarnados, sempre vale lembrar) de mecanismos emocionais perturbadores, afastando influências espirituais negativas e dissipando acúmulos de energias nocivas. 

Lembremos que a proporção de seres habitantes do mundo espiritual é cerca de 8 vezes maior do que a população da Terra, portanto, o número de assistidos na dimensão astral é significativamente maior do que a quantidade de pessoas encarnadas presentes ao Rito.


Assim, a Corrente Espiritual da casa reúne em torno de si todos aqueles espíritos que serão atendidos e encaminhados para as paragens de refazimento e orientação, na Aruanda Maior.


Fazem isso, com a participação muitas vezes inconsciente da corrente mediúnica da casa, proporcionando quadros de profunda beleza, quando unem-se as irradiações espirituais produzidas pelas mentalizações coletivas (expressas ritualisticamente por meio dos pontos cantados e das orações), com aquelas provindas de instâncias superiores de Aruanda, evocadas pelos Guias no momento do trabalho, manifestando simbolos universais e plasmando-os no plano astral, sub cujo impacto abrem-se portais de luz (que geralmente podem ser vistos pela clarividência cintilando no centro do congá ou no "centro ritual" do terreiro), para onde são atraídos os espíritos recem-desencarnados ou aqueles tantos ainda doentes e inconscientes de sua condição espiritual.

Os Mentores de Luz também reordenam no mundo astral as forças que se tornarão vinculadas aos sustentáculos vibratórios do templo de Umbanda (o congá, suas firmezas, seus pontos, etc), integrando-as ao seu campo de influência e expandindo, consequentemente, as dimensões do templo no plano astral. Daí, imaginemos, uma casa com um tradição sólida, vivenciada durante anos e anos na prática do bem e da caridade, e poderemos vislumbrar o quão extensa pode ser a "amplitude espiritual" de um terreiro de Umbanda.

Quando presentes à gira de Umbanda, todos aqueles que nela encontram-se (médiuns ou não) são envolvidos pelo campo de atuação espiritual do terreiro, ao qual entregam, mesmo que de maneira inconsciente, todo o complexo próprio de seu mundo interior (estado emocional, memórias, conflitos, rogativas, etc), sendo este prontamente assimilado por essa "alma coletiva" formada e movimentada dentro do templo.

Esse campo "psíquico-coletivo" é acessado pelos Guias da casa e invariavelmente observado por
aqueles (espíritos) que incumbem-se de trazer ao plano existencial os meios de influenciar o campo de consciência de todo filho-de-fé que pede, que ora, que agradece, plantando em seu mundo íntimo, por meio da inspiração, as disposições e possibilidades criativas de encontrar novos rumos para a sua vida, mediante a realidade de cada um.


Vemos, portanto, que a atuação espiritual realizada pelos Guias de Umbanda realiza-se, não de maneira fantástica e repleta de episódios sobrenaturais (como quer a fantasia de muitos), mas de maneira sutil e contínua sobre todos, buscando inspirar idéias e comportamentos novos ao filho-de-fé, facultando que este possa libertar-se do julgo dos conflitos existenciais e abrir-se a novas possibilidades em sua vida, contribuindo primordialmente para que este aprenda e desenvolva a gratidão, a paciência, a humildade, a caridade e a compaixão, que são atributos psicológicos dos indivíduos maduros e seguros diante da Vida.

A prática da oração (feita de coração, com atenção, e não somente repetindo palavras decoradas, de maneira compulsiva) é o elo que possibilita ligar-nos aos Guias de Luz de nossa Umbanda, e será ela (a oração) o fio condutor de nossos pensamentos com os planos superiores da Vida, capaz de integrar-nos à própria Divindade, em cujo contato poderemos aurir, das fontes inesgotáveis de Amor e Paz, a Serenidade e o Equilíbrio necessários para podermos aliviar nossos sofrimentos e superarmos nossos desafios íntimos.

Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:
Chiesa, Gustavo Ruiz (2011). A Umbanda e as Coisas: Cosmologia e Materialidade na experiência religiosa (artigo científico).
Rivas Neto, Francisco (1996). Fundamentos Herméticos de Umbanda
Radin, Dean (2008). Mentes Interligadas



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A Demanda (Continuação)


Por: Gregorio Lucio

Temos aprendido, a respeito das ligações estabelecidas entre mentes situadas em níveis dimensionais diversos, que as afinidades de sentimentos e intenções são a chave para entendermos como os seres podem construir verdadeiras obras de beleza, alegria e sensibilidade, se vinculados aos ideais enobrecedores, tanto quanto, construir cadeias de sofrimento e paisagens horrendas, demonstrando seu estado íntimo de desolação e loucura. 

Conforme já dissemos alhures, o mundo astral é totalmente sensível às projeções mentais dos seres (encarnados ou desencarnados), cujas suas criações fixam-se em torno do campo de energia de seu criador  (ser pensante), a determinar-lhe o padrão de sua vibração astral, energia vital, condição psíquica e o campo de irradiação de sua aura, os quais costumam ser mui reduzidos quando o seu é um estado de degradação espiritual.


Entretanto, a junção de vários seres situados em uma mesma faixa de condições espirituais de caráter negativo, espalha no mundo astral as suas criações perturbadas, exteriorizando o morbo que exala de seus "hálitos mentais", plasmando regiões de intensa escuridão e desolação, onde milhões de espíritos encontram-se presos a dolorosos processos expiatórios, no campo da culpa e da revolta, expurgando por via do sofrimento todo o veneno psíquico do qual alimentaram-se durante sua última encarnação. 

Descrevemos brevemente algumas paragens do plano astral para chegarmos ao ponto de sequência do assunto tratado no post anterior, enfocando a Demanda, dentro da interpretação do universo simbólico e religioso da Umbanda.

Dissemos que as construções das egrégoras criadas no processo de elaboração da Demanda, são estabelecidas, como em qualquer rito mágico-espiritual, por meio da utilização de símbolos.

Os símbolos funcionam como expressão de aspectos duais da consciência (racionais e não-racionais), tornando-se catalizadores da energia psíquica irradiada do centro mental do operador do rito, assim como de todos quantos estejam participando do evento.

As entidades espirituais, atraídas ao meio no qual encontram-se os evocadores, possuem grande identificação com os propósitos daqueles que unem-se no ato petitório maléfico, e satisfazem sua ânsia pela reconstrução de um elo com as energias de um corpo vital, que não mais possuem, por meio da vampirização pelo contato psíquico que poderão usufruir daqueles que, inadvertidamente, solicitam-lhes o concurso para a "resolução de seus problemas", os quais estes entendem como existindo por conta da ação de outro que se lhes tenha ficado entre seu desejo mesquinho e o objeto ou realização almejada.

Interessante ponderarmos que, no campo processual da Demanda, quando esta verifica-se entre indivíduos, ocasiona-se, no mais das vezes, de conflitos existentes entre pessoas de relacionamento próximo, como sejam familiares em comum, sócios de empreitada profissional, ex-amantes, etc. Tal fato deve-se aos laços emocionais que ligam os seres de maneira muito estreita e que podem ser facilmente desvirtuados - e não destruídos - pela fragilidade psicológica de que muitos de nossa sociedade se vêem hoje afligidos.

A busca atormentada pela ascensão social, pela realização hedonista de aventuras amorosas, pela herança familiar (com a qual pensa-se poder lucrar, sem os maiores esforços próprios do trabalho digno), pela idéia infantil e egocêntrica de querer ver-se livre de outrem que possa afigurar-se como a projeção de uma ameaça ou um fardo existencial, leva indivíduos descuidados e inconsequentes a buscar ajuda em mãos de outros que também fazem-se inescrupulosos e irresponsáveis lidadores das forças espirituais, ocasionando compromissos graves mediante as Leis Divinas.

Como sabemos, na base das Demandas existem profundos estágios obsessivos (sendo estas uma variação complexa da obsessão) envolvendo os personagens/atores destes conflitos de ordem espiritual. De tal sorte que, não raro, muitos obsessores de hoje foram aqueles mesmos que um dia comungaram de uma vida conosco, na condição de parceria conjugal, ou de filhos, pais, amigos, os quais foram vitimados pelos nossos atos de violência, abandono, ingratidão, traição...

Vejamos então, serem as profundas vinculações emocionais os elementos de ligação entre as mentes em estado de perturbação (obsessor-obsediado). O amor de um passado, subvertido em ódio e revolta por parte da vitima, liga-se ao sentimento de culpa do então algoz, unindo-os pela Lei Kármica com vistas ao reajuste e ao perdão, que mais tarde logrará suceder-se.

"A demanda assume formas de desequilíbrio/obstáculos na vida das pessoas, que podem ser causadas por uma outra pessoa. Exemplo: 'Trabalho feito' (na quimbanda) para prejudicar a vida de alguém. Dentro de um discurso religioso, esse conflito se transfere para uma atuação espiritual. Quando a parte prejudicada procura ajuda, as entidades irão atuar através de uma prática ritual para que o equilíbrio retorne. Nesse sentido, as práticas umbandistas assumem um caráter de luta, de desafio nas resoluções desses obstáculos". (Sillos, 2001).

Assim, quando em conflito emocional por conta de dissenções ou desentendimentos de variadas naturezas, determinado indivíduo entrega-se aos pensamentos de ódio, revolta, culpa, entre outros, neste instante abre campo para que as cargas de energia negativa, manipuladas pelo criador do feitiço em conjunto com as entidades sombrias, estreitem-se com as irradiações de sua própria aura, baixando sua cintilação, afetando seu corpo de energia vital, e finalizando por descarregar-se em seu corpo físico, podendo até ocasionar somatizações, manifestando-as por processos de conversão psíquica (mudez, cegueira, surdez, imobilidade motora) ou infecciosos, alérgicos e até mesmo, em casos muito complexos, tumorais.

Atormentado pelos campos de energia negativa que o envolvem, o indivíduo busca auxílio em um terreiro de Umbanda, este levará consigo todo o conjunto de energias e entidades espirituais a envolverem-no, carecedores de uma intervenção externa para que possam, gradualmente, serem desvinculados.

As orações, os banhos, os passes, as defumações, as práticas ofertórias, criam a abertura mental e trazem o indivíduo para um campo de neutralidade daquelas energias que o estão envolvendo, para que sua mente possa desvincular-se do caráter de sofrimento assumido, ressignificando a realidade de si mesmo e do mundo que o cerca.

Isso porque as entidades manipuladoras do feitiço negativo operam à distância, criando contrapartes nas quais possam ser descarregados os entrechoques que enfrentam no contato com as egrégoras luminíferas do terreiro bem dirigido e firmado pelos Guias de Aruanda Maior, dificultando que sejam atraídas para o campo de energia do cazuá, para que possam ser interrompidas e reencaminhadas.

Agem dessa forma utilizando-se de espíritos sofredores, os quais jazem em profundo estágio de inconsciência nas zonas de escuridão, servindo como anteparos para a prática encantatória nefasta. Sabem, estes seres que atuam no mal,  interferir nos processos mentais de suas vitimas, quando as vejam em estado de perturbação ou desespero, para isso vinculando-as aos milhares de sofredores inconscientes do mundo espiritual, num mecanismo de reverberação mental, o qual torna-se cada vez mais intenso e repetitivo no campo perceptivo do indivíduo, verificando-se como recurso altamente desgastante a exaurir suas forças mentais e vitais.

Por isso é comum, observando relatos de pessoas que já viram-se atingidas por verdadeiras Demandas, que o envolvimento negativo no qual encontravam-se era de tal maneira extenuante e perturbador que não viam-se com  a mínima condição de emitir sequer uma palavra, um pensamento em direção a Deus, realizando uma prece que as poderia colocar a salvo do contato hipnotizante das criações mentais de caráter deletério.

Dessa forma, tal situação deverá interromper-se pela ação externa, de forças que estejam em condições de se chocarem com as egrégoras malsãs, dissipando-as no mundo astral.

Aí iniciam-se os embates entre as correntes espirituais do templo e as hostes negativas que buscam ampliar sua ação sobre a vítima, estabelecendo-se uma disputa em vários níveis dimensionais, incluindo aí o próprio embate entre o "médium curador" e o "feiticeiro negro" (permita-nos o leitor a utilização desta analogia simbólica para facilitar-lhe o entendimento), no qual medir-se-ão as forças mentais e espirituais de ambos, envolvidos que estejam por aqueles seres espirituais identificados como seus Protetores.

Os domínios do mundo psíquico passam a manifestar-se por meio de um conjunto de ritos e trabalhos de ordem espiritual que passarão a desenrolar-se, sejam aqueles envolvendo o "paciente", como aqueles realizados em secreto, por médium graduado na prática Umbandista.

Seu estado espiritual deverá estar em total sintonia com o de seus Mestres Espirituais para que possa suportar os níveis de influenciação que passará a experimentar, uma vez que as cargas de energia anteriormente direcionadas à vitima, serão transferidas para a sua coroa, para seu corpo, para o seu congá, para as suas firmezas, para as suas vestes até, de maneira que possam ser absorvidas e desintegradas.

Quando finalizam-se os períodos, mais ou menos longos, de assimilação e desintegração dos miasmas astrais, culmina-se na assimilação psíquica do médium do campo vibratório da entidade manipuladora que será inserida em sua faixa mediúnica, na qual passará a transitar com o propósito de receber um "choque" pelo contato que experimentará com a irradiação espiritual do medianeiro e sua energia vital: o chamado "choque anímico", conforme é descrito pelos irmãos kardecistas.

A intenção é a de restabelecer a este espírito a sua lucidez espiritual, devolvendo-lhe as feições de um ser humano, que um dia já foi, e integrando-o às correntes espirituais que passarão a deter-lhe a guarda, rumando para um novo caminho de cura e regeneração, cujo maior prêmio dá-se quando, no futuro, este mesmo ser, antes opositor, passará ao grau de trabalhador nas correntes espirituais do templo.

Por conta de tal cometimento ser de alta gravidade e exigir grande experiência e tarimba do médium nas lides das Leis de Umbanda, tais ocorrências, quando verdadeiras, dão-se, felizmente, com pouquíssima frequência, sendo seu atendimento e resolução destinados àqueles que detenham alto grau de iniciação, mormente os Pais ou Mães-de-Santo de nossa Umbanda de Luz.

Salientamos tal fato pois é necessária a compreensão de que são inúmeras as variações de condições espirituais, nas quais as pessoas de modo geral encontram-se, e somente um médium de Umbanda, com uma sintonia fina muito alinhada com os Guias regentes de sua coroa, pode ter acesso a tais níveis de contato com a realidade espiritual do outro.

Conforme já dissertamos em artigos anteriores, gostaríamos novamente de ressaltar que não é finalidade última da Umbanda combater magias negativas, sendo antes de tudo a de cultuar o Sagrado, entretanto, suas tradições e sistema de crenças, dotam-na de amplos recursos e elementos que possibilitam-na tratar de tais questões, valendo-se de suas representações simbólicas para restabelecer a ordem e o equilíbrio na existência do ser humano, quando as forças caóticas assomam fazendo-se parecer assustadoras.

Finalmente, esperamos ter contribuído um pouco mais na ampliação do conhecimento de nossos irmãos umbandistas em torno da questão da Demanda,  desejando neste momento que mãe Iemanjá, juntamente com todo o Povo do Mar, possa envolver-nos a todos com suas irradiações luminosas, limpando-nos e aos nossos lares, atraindo para si aqueles seres ainda inconscientes e desesperados que vagam no mundo espiritual, dando-lhes alívio e orientação.

Que nossa Mãe Iemanjá nos envolva com sua Luz e suas Bençãos!

Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:
Chiesa, Gustavo Ruiz (2011). A Magia na Umbanda (artigo científico)
Sillos, Silvanira Lima (2001). A Demanda na Umbanda (artigo científico)
Mauss, Marcel (2003). Ensaio sobre a dádiva (artigo científico)
Mauss, Marcel; Hubert, Henri (2005). Sobre o sacrifício (artigo científico)
Lima, Bentto de (1997). Malungo - Decodificação da Umbanda
Malandrino, Brígida Carla (2006). Umbanda, mudanças e permanências: uma análise simbólica
Rivas Neto, Francisco (1996). Fundamentos Herméticos de Umbanda
(2002). Umbanda A Proto-Síntese Cósmica
Matta e Silva, W.W. da (2010). Umbanda de Todos Nós
___________________ (2009). Umbanda e o Poder da Mediunidade
___________________ (2009). Segredos da Magia de Umbanda
___________________ (2009). Doutrina Secreta de Umbanda
Levi, Eliphas (1995). Dogma e Ritual de Alta Magia
Jung, C.G (1975). Psicologia e Religião