sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda: Educação e Consciência Mediúnica


Por: Gregorio Lucio

Como adendo aos artigos já publicados na temática O Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda, porém não menos importante, finalizaremos, por ora, nossa série de estudos tratando dos conceitos e relações que envolvem Educação e Consciência Mediúnica.

Lembremos São Paulo (ou apóstolo Paulo, como queiram), quando este escreve, em sua primeira epístola aos Coríntios (12:1): "Ora, a respeito dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes".

Sendo assim, o Estudo a respeito da Mediunidade e demais questões pertinentes às experiências espirituais, aliadas ao Estudo e entendimento das lições do Evangelho de Jesus aplicadas às nossas vidas, permitem que sejamos capazes de Educar as expressões dos nossos pensamentos, sentimentos e de nossas irradiações mentais.

Permita-nos o leitor o esclarecimento de que, na Umbanda em que praticamos, seguimos os princípios cristãos como norteadores Ético-Morais de nossa conduta humana e mediúnica, no que pese nosso respeito por todos aqueles que, em suas tradições umbandistas, valem-se de outros referenciais.

Pois bem, pelo Estudo - tanto de obras já escritas, quanto das experiências que vivenciamos em nós mesmos ao longo da prática mediunista -, passamos a entender as leis e os mecanismos que nos colocam dentro de todo um oceano de forças sutis que agitam-se em nós mesmos e que estas mesmas forças também irradiam-se de todos os seres existentes no planeta, ligando-nos, pela sintonia e afinidade, às idéias, pensamentos e motivações dos mais diversos tipos. Esta afinidade se estabelece tanto positivamente, quanto negativamente, a depender daquilo que guardamos dentro de nosso mundo íntimo e daquilo que escolhemos pensar, sentir e expressar, tanto pelas palavras quanto pelas nossas atitudes.

Se, em conjunto com o Estudo dos Processos Mediúnicos, também associamos o Estudo do Evangelho do Cristo, poderemos encontrar nele (no Evangelho) o norteador da nossa conduta, pois passaremos a discernir melhor o bem e o mal, e quais os comportamentos que devemos adotar para que possamos amadurecer perante a vida, deixando determinadas condutas, nas quais nos prendemos ao longo do tempo, abrindo-nos para a renovação e a libertação de estados de sofrimento.

Pior do que sofrer, é sofrer sem saber o porquê se está sofrendo...

O Estudo equipa de recursos o indivíduo para que possa compreender a sua própria realidade (psicológica, social, financeira, religiosa, profissional,etc), também como a do mundo no qual vive e, assim, poder ter possibilidades mais amplas de estabelecer programas educativos, saudáveis e felicitadores para a sua existência.

Melhor do que fazer algo, é ter conhecimento suficiente para poder fazer bem aquilo que se proponha a fazer.

Educação Espiritual, portanto, obedece ao mesmo mecanismo da Educação na Terra (que não deixa de ser espiritual, bem se diga).

Pensando assim, se nos lembramos do significado da palavra Educação, veremos que esta origina-se de dois termos latinos, "Educare e Educere". Educare significa orientar, nutrir, decidir externamente, direcionando o indivíduo a se transferir, de um determinado ponto em que se encontra até outro ponto onde se deseja chegar. Educere, por sua vez, implica num movimento interior, fazendo surgir do intimo do indivíduo as potencialidades que estão dentro de si e que até então permaneciam desconhecidas.

Por isso, a conquista da Educação Espiritual, segundo nosso ponto de vista, só pode ocorrer quando entramos em contato com o meio em que vivemos, trocamos experiências com o outro e somos, por isso, levados a mudar nossas concepções e comportamentos diante da vida. Ao mesmo tempo, ao adquirirmos elementos para avaliar nossa própria realidade interior, por meio da leitura e do diálogo, saberemos situar melhor nossos pensamentos, nossas emoções e assim, voltando à questão mediúnica, saberemos com certeza onde situamos nossa sintonia e nossas irradiações espirituais.

Assim é que, dentro dessa perspectiva de Educação, os Centros Espíritas e os Terreiros tem modificado a nomenclatura e a conceituação a respeito dos trabalhos de Desenvolvimento Mediúnico, passando a tratá-lo como Educação Mediúnica.

Tratamos muito as relações diretas entre a vivência espiritual-mediunista e a vivência no dia-a-dia, porque entendemos que não pode haver uma cisão entre o que experienciamos na lide religiosa e o que experimentamos na vida cotidiana. A busca pela Espiritualidade e a sua correspondente introjeção em nossa vida particular, deve servir justamente para provocar efeitos benéficos na maneira de lidarmos com a realidade cotidiana que se nos apresenta na jornada humana. Encontrar os meios mais razoáveis de dar-lhe significados existenciais profundos, utilizando-se para isso do que a religiosidade pode nos oferecer, é a atitude positiva e madura de entendermos o sentido e a importância da religião em nossas vidas.

Ao adentrarmos o campo da Educação Mediúnica, o seu desenvolvimento operar-se-á sob a abertura da compreensão em torno dos Níveis de Consciência em que cada um de nós estagiamos e, consequentemente, como eles estão relacionados à nossa prática mediunista.

Consciência deriva do latim scire (conhecer) e cum (com). Consciência, portanto, significa "conhecer com".

O conceito de Níveis de Consciência foi exarado pelo bioquímico Robert De Ropp, o qual inspirou-se nas experiências e idéias de G. I. Gurdjieff, a respeito dos Estados Alterados de Consciência, buscando estudá-los e compreendê-los em sua relação com a subjetividade humana. Didaticamente, De Ropp classificou-os como:
  1. Consciência de Sono sem Sonhos: fenômenos orgânicos automáticos se exteriorizam - digestão, respiração, reprodução, circulação sanguinea, etc - sem o conhecimento da consciência, que permanece como que anestesiada, sem ação lúcida sobre os acontecimentos em torno da própria existência e a ausência de vontade do indivíduo contribuindo para o trânsito lento do instinto para os pródromos da razão;
  2. Consciência de Sono com Sonhos: liberação de clichês e sujeição lenta à realidade, passando pelas fases dramáticas - os pesadelos, os pavores - para os da libido - ação dos estímulos sexuais - e os reveladores - que dizem respeito à parcial libertação do Espírito quando o corpo está em repouso
  3. Consciência de Sono Acordado (Desperto): há a determinação pessoal aliada à vontade, conduzindo o ser aos ideais de enobrecimento, à descoberta da finalidade da sua existência, às aspirações do que lhe é essencial, ao auto-encontro, à realização total.
  4. Consciência de Transcendência do Eu: ocorre a identificação consigo mesmo, com a consequente liberação do Eu Profundo, realizando a harmonia íntima com os ideais superiores, seu real objetivo psicológico existencial. Superação de todos os conflitos, angústias, desidentificação de todo e qualquer conteúdo psicológico afligente, atingindo a iluminação. 
  5. Consciência Cósmica: Dissolução de toda contradição e a vinculação integral ao Logos (Pensamento) Divino.



Ao realizarmos uma interface dos conceitos em torno dos Níveis de Consciência na subjetividade humana, com a maneira como estes podem delinear o alcance do nosso universo espiritual e as relações afins com a dimensão extra-física que estabelecemos por conta da maior ou menor amplitude mental de que somos portadores, verificaremos que:
  1. Consciência de Sono (sem sonhos e com sonhos): a relação mediúnica aparecerá marcada pela obsessão (comunhão mental doentia com a realidade espiritual), ao mesmo tempo em que recebe uma compensação pela inspiração dos Espíritos Protetores e o "Anjo de Guarda" particular.
  2. Consciência de Sono Acordado (Desperto): a mediunidade é preponderantemente de provas, momento no qual a amplitude mental já faculta ao ser libertar-se do contato rudimentar com o mundo espiritual e desvincular-se dos mecanismos obsessivos. A mediunidade passa a ser acessada como uma faculdade, um recurso mental  que deve estar sob comando do Espírito e não somente um canal de abertura para a realidade transcendente.
  3. Consciência de Transcendência do Eu: com a consciência de Si, a transcendência do ego, a mediunidade torna-se lúcida, saudável. O seu detentor, naturalmente, direciona-a para objetivos relevantes da existência, sob indução e orientação dos Guias e Protetores.
  4. Consciência Cósmica: a mediunidade expressa-se livremente, sem as amarras corporais, num êxtase. Possui uma característica que transcende ao cognoscível, a qual podemos identificar na frase do apóstolo Paulo: "Já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim".
Uma vez que o exercício de intercâmbio com o mundo espiritual, em sua qualidade, dependerá do nível de consciência em que o médium estagia, a prática regular e equilibrada poderá fazer com que a faculdade mediúnica sirva, como já vimos dizendo, como impulsionadora da Ascensão Consciencial do médium, uma vez que este pode, e deve, integrar-se aos conteúdos psíquicos novos e superiores que são trazidos pelos Guias Espirituais, introjetando-os em seu pensamento e comportamento, para que tornem-se, por sua vez, cargas despertadoras de seus próprios conteúdos, contribuindo para a sua maturidade e individuação.

Dessa forma, o processo Educativo envolvido no Desenvolvimento Mediúnico, objetiva não somente adestrar o médium para comandar o fenômeno do transe e a relação transitória do contato mediunista. A atividade de Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda, estabelece a abertura para a expansão da consciência do ser diante da realidade e das suas próprias condições como Espírito, permitindo-o inteirar-se e perceber os valores transcendentes da vida, os espirituais.

Tudo isso, vincula-o a um estado de serenidade, compaixão e discernimento que o faz compreender a finalidade do existir, percebendo-se de maneira intensa e tendo claramente a idéia e a vontade a seu dispor, optando pelo que quer e onde objetiva chegar em sua jornada.

Esperamos que tenhamos contribuído, humildemente, ao decorrer destes 05 artigos, com uma compreensão mais abrangente do que podemos entender como o Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda.

Saravá a todos!




Bibliografia Consultada:
Lima, Bennto de (1997). Malungo Decodificação da Umbanda
Jung, C.G. (1970). A Natureza da Psique
Zangari, W. (2009). Psicologia da Mediunidade: do Intrapsíquico ao Psicosocial (artigo científico)
Miranda, Projeto Manoel Philomeno (2003). Consciência e Mediunidade

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda: A Identificação do Supraconsciente e a Expressão Criativa



Por: Gregorio Lucio

"Podemos nos beneficiar e utilizar qualquer função ou elemento da psique, sempre que compreendamos sua natureza e propósito, e o coloquemos em sua justa relação com o Todo" (Assagioli, 2009).

O exercício regular e consciente do intercâmbio espiritual, no campo da prática religiosa mediunista de Umbanda, o qual agora passa a ser entendido por nós como um processo de comunhão mental, e portanto, dentro de um aspecto de vivência das nossas possibilidades subjetivas, em um contexto de compreensão mais abrangente daquilo que se entende e se discursa em torno do mediunismo - no que se refere ao contato com a espiritualidade e a ampliação das nossas condições emocionais saudáveis -.


Passamos, dessa forma, a discernir a faculdade mediúnica como sendo uma Ascese, por meio da qual nos é possível adentrarmos nos níveis mais amplos de nossa individualidade, atingindo uma vivência mental e, consequentemente, expandindo os recursos de nosso mundo interior, descobrindo-nos e identificando nossos potenciais e possibilidades de conquistas íntimas, bem como os meios mais saudáveis de lidarmos com nossas limitações pelas vias corretas, sem deixarmos nosso clima mental de paz e serenidade.


Pela experimentação, estudo e meditação em torno das experiências na relação de contato com o Sagrado, manifesto no universo simbólico-religioso das Leis de Umbanda, temos compreendido que, da mesma forma que os Hindus, Iogues, possuem a meditação como recurso para acessar e descobrir a mente e a dimensão profunda do ser humano, a Umbanda oferece-nos o Transe Mediunista como passagem para essa realidade espiritual que emana e se potencializa em nosso interior.

Dentro desse cadinho de experiências, o médium de Umbanda, conforme já tratamos em A Mística Mistérica de Umbanda, vai criando um Espaço Sagrado dentro de si, sendo a memória de seus contatos espirituais experimentados no suceder dos transes a que se fez sujeito, durante o tempo de prática religiosa.

Este Espaço Sagrado contido nos domínios de sua subjetividade, comporta em si parte de uma instância intrapsíquica denominada Supraconsciente (ou Superconsciente). Conforme nos diz Roberto Assagioli,"[...] o Superconsciente é a região na qual recebemos nossas intuições e aspirações superiores - artísticas, filosóficas ou científicas -, "imperativos" éticos e impulsos para a ação humanitária e heróica. É a fonte dos sentimentos superiores, tais como o amor altruísta, a genialidade e os estados de contemplação, iluminação e êxtase" (Tabone, 1988).

Segundo Pietro Ubaldi "se esta zona não-consciente [o Supraconsciente] é aquela que nos põe em comunicação com a realidade, na intuição, e com a Divindade, nos estadas místicos, é para horrorizar-se quando se ouve dizer que a graça de Deus se manifesta no homem através do subconsciente ou que o homem, para alcançá-la, se transfira ao subconsciente. Mas, a graça é fenômeno evolutivo, não involutivo, de superconsciência e não de subconsciência. A graça é uma elevação ao superconsciente; é através deste que ela se dirige ao homem, e a esse plano que o convida a transferir-se. Por aí se vê como quem não sabe superar a dimensão racional permanecerá impotente em face de tais concepções e tateará constantemente na treva".

Não devemos confundir o Supraconsciente com o Subconsciente (zona inconsciente que carrega os conteúdos próximos da consciência). Explica-nos Pietro Ubaldi: "[...]a psique humana é um organismo em contínuo crescimento (expansão) por descida na profundidade, mediante estratificações, das sínteses das experiências da vida, as quais gravitam para o interior. Essa assimilação contínua, operada em zona de livre arbítrio, se fixa no determinismo dos equilíbrios estabilizados na trajetória do destino. O subconsciente é precisamente a zona dos instintos formados, das idéias inatas, dos automatismos criados pela repetição habitual da vida"..."Se quiséssemos ser mais precisos, intentando reduzir a termos de espaço o que não é espacial, deveríamos dizer que das duas não-consciências, consideradas em relação com a consciência lúcida de superfície, a superconsciência se estende em profundidade, nas zonas interiores, avança para Deus e tende para a unificação com o todo, a que se chega pois, por introspecção. A subconsciência, ao contrário, estende-se em direção oposta, não sob, mas para o exterior da superfície, é filha das experiências do mundo exterior e nele é abandonada. O eu avança entre duas zonas igualmente não lúcidas, mas sua progressão é para o interior, sua evolução o afasta do subconsciente e o leva para o superconsciente. Valores opostos: o primeiro é um resíduo, o segundo, uma conquista; o primeiro é uma zona inferior, de que nos distanciamos, e uma escória que abandonamos; o segundo é uma zona superior, de que nos aproximamos, não contém os remanescentes da vida, ainda que no momento sejam necessários, mas o futuro da vida. A passagem do subconsciente ao superconsciente é uma expansão para o interior, se assim podemos expressar-nos, uma expansão em profundidade, em que o ser, aprofundando-se para o centro, se eleva aos planos mais altos que lhe são a aproximação. Nesse caminho, o eu é como um núcleo que se enriquece, dilatando por estratificações suas potencialidades, através das experiências da vida, que são exatamente o agente revelador daquele mistério íntimo em cuja profundeza está Deus (manifestação). Assim, esse mistério é continuamente exteriorizado naquele plano de consciência lúcida que, como se vê, e uma consciência de trabalho e de transição, em marcha do subconsciente ao superconsciente, cuja posição é portanto relativa, assaz diversa de indivíduo para indivíduo, segundo sua história e sua maturidade evolutiva" (Ubaldi, 1983).

Esquema Didático da Constituição do Self

1. O Inconsciente Inferior
2. O Inconsciente Médio
3. O Inconsciente Superior ou Supraconsciente (Superconsciente)
4. O Campo da Consciência
5. O Self Consciente ou "Eu"
6. O Self Superior
7. O Inconsciente Coletivo

Diagrama do Ovo (na Psicossíntese)
O Supraconsciente é manifestação própria do vir-a-ser, dentro do organismo psíquico, em cujo bojo estão contidos os receptáculos das irradiações e pensamentos provindos das esferas de Mais Alto e sobre cuja indução o homem desenvolve suas capacidades de transformação para melhor, introjetando e ampliando os princípios (ética, moral, intelecto, cognição, linguagem e afeto) que norteiam sua Ascensão Consciencial.

A prática mediunista consciente e a vivência do Sagrado, tem como objetivo, no que diz respeito aos efeitos  da vida religiosa e espiritual do médium de Umbanda, permitir que haja o acesso a este campo de construção interior , para que a produção medianímica  possa ganhar força emocional suficientemente capaz de impulsionar o seu experimentador ao caminho da libertação do seu próprio sofrimento e da auto-cura espiritual.

Com isso, queremos enfatizar que estamos tratando a questão do Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda como um processo que vai para além de um período mais ou menos definido em que o neófito vai aprender, pelo menos, a maneira como deverá se portar durante as giras (como dominar seu transe, o discurso ritual característico do terreiro, etc), assim como perante os irmãos de terreiro, a hierarquia da casa e os demais frequentadores.

Mais que isso, referimo-nos ao Desenvolvimento Mediúnico como um processo continuado e que implica, obrigatoriamente, na aquisição  de autoconsciência por parte do médium, de maneira que sua trajetória pelos caminhos da Umbanda seja coroada por conquistas plenificadoras e surtam efeitos saudáveis de mudança, melhoria e, principalmente, no desabrochar da maturidade deste, não só como médium, mas como ser humano.

"Há uma troca contínua, uma "osmose" entre a consciência e o inconsciente. Em um ponto que era superconsciente se torna consciente, permanece lá por um período mais longo ou mais curto, e depois retorna para o superconsciente. Eu gostaria de recordar a este respeito que "superconsciente", "inconsciente" e "consciente" são adjetivos, ou seja, condições temporárias do fato psíquico" (Assagioli, 2009).

"A entrada de consciência superconsciente pode ocorrer de duas formas: a primeira e mais comum que pode ser chamada "descendente", e consiste no surgimento de elementos supraconscientes dentro do campo da consciência na forma de intuições, inspirações súbitas ou iluminações. Muitas vezes, espontânea e inesperada, mas às vezes também pode atender a uma chamada ou invocação, tanto consciente e inconsciente. A segunda maneira poderia ser chamado de "ascendente" e acontece quando nosso centro da consciência é elevada a partir do Eu auto-consciente em níveis acima do normal, para chegar à área do supraconsciente." (Assagioli, 2009).

A região Supraconsciente (Superconsciente) é o campo de registros mediúnicos que carregam memórias  marcantes no contato com a Espiritualidade. Visões (clarividências), intuições (comprovadamente acertadas), comunicações (escritas ou faladas) com informações comprobatórias da autenticidade mediúnica. Todas estas ocorrências patentes ligam-se a esse canal por onde fluem os conteúdos recebidos pela Espiritualidade, Guias e Protetores, portadoras da energia emocional que promove alterações benéficas na maneira de entender a vida, pela convicção que produzem e, consequentemente, afetando o comportamento do médium.

"[...] o valor destas experiências [...], portanto, efetivamente ajudam a solucionar todos os problemas humanos, individuais ou sociais. Fazem-no enquadrando-os em uma realidade mais ampla, reduzindo-os a sua justa proporção, permitindo valorizá-los de forma distinta e muito mais justa. De tal modo que os problemas, ou já não nos preocupam mais e se evaporam, ou aparecem em uma luz superior, de modo que a solução é apresentada com clareza e concisão" (Assagioli, 2009).

A vivência dos conteúdos carreados ao Supraconsciente abre campo para que o médium de Umbanda, desenvolva Expressões Criativas para o seu existir.

Dentro da vida ritual, a manifestação simbólica pertinente à Expressão Criativa refere-se aos quadros e intuições que são interpretados e expressos nos pontos (riscados e cantados), captados pelo médium, tanto quanto  na confecção de guias, patuás, banhos, firmezas ou demais objetos rito-simbólicos manufaturados.

Indo além, trazendo a Expressão Criativa para as questões do existir, esta incorreria na estimulação de comportamentos emocionais salutares perante os desafios da existência, conservando sempre um clima de otimismo e confiança na vida, construído e alimentado por um sentimento de esperança, norteando o prosseguimento ante os embates do cotidiano e o cumprimento dos deveres a que todos somos chamados.

A manutenção de um clima psíquico de alegria e descontração, aliado a uma atitude de perseverança e resiliência, é fundamental para a superação das limitações a que todos estamos sujeitos, sem perder o sentido existencial. Encontrar formas criativas para a resolução ou, ao menos, o minimizar das agruras e problemas é a chave para a conservação da saúde e a garantia de encontrar-se sempre em sintonia com a Aruanda Maior, a benefício de si-mesmo e de todos aqueles que, mais que nós próprios, sofrem e necessitam de solidariedade e compaixão. Estas virtudes, nada mais são do que as bases da Caridade.

Por fim, a relação desse comportamento virtuoso e a Expressão Criativa se deve ao fato de que, o Desenvolvimento Mediúnico, consciente e bem estruturado, não prescinde do cultivo de valores ético-morais mais profundos, direcionando o médium para o aprendizado do Altruísmo, traduzindo-se como uma conquista vertical, ao mesmo tempo horizontal, pois ao aprofundar-se nas vivências interiores, amplia o seu campo de ligação com os Guias e Protetores (verticalmente), também adentrando na necessidade de compreender-se como elemento útil na sociedade e na família, devendo servir, dentro de suas possibilidades, com discernimento e sensatez, para a promoção e a edificação daqueles que lhe seguem os passos (horizontalmente), espalhando a luz do Orixá e colaborando para a construção de um mundo melhor.

Afinal, conforme Jesus Cristo já houvera dito "Porque não é boa a árvore a que dá maus frutos, nem má árvore a que dá bons frutos. Porquanto cada árvore é conhecida pelo seu fruto. Porque nem os homens colhem figos dos espinheiros, nem dos abrolhos vindimam uvas. O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, do mau tesouro tira o mal. Porque, do que está cheio o coração, disso é que fala a boca". (Lucas, VI: 43-45)

Eis o princípio evangélico pelo qual podemos avaliar e mensurar os efeitos e a utilidade da vivência religiosa em nossas vidas. Que cada um avalie por si mesmo esta questão, no silêncio interior, e reflita quais tem sido os frutos que tem colhido, ou não, do seu Desenvolvimento Mediúnico.


Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:
Assagioli, Roberto (2009). O Supraconsciente
Tabone, Marcia (1988). A Psicologia Transpessoal
Ubaldi, Pietro (1983). Ascese Mística




sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda: O Comando da Função Mediúnica


Por: Gregorio Lucio

A base para a conquista do comando da função mediúnica é a estabilidade psicológica. O medianeiro - "cavalo-de-santo" - deve estar em condições de experienciar, de maneira saudável, o transe medianímico, passando por todo o seu processo de estruturação (vide Processos Mentais e o Transe Mediunista) até o seu encerramento, sem guardar em si perturbações emocionais ou fisiológicas.

Saber "entrar e sair" do transe, de maneira calma e tranquila, evitando estertores e obedecendo aos comandos de "chegada" ou "subida", determinados pela curimba, ou pelo pai (mãe)-de-santo é o ponto ótimo de comando da função mediúnica, ao nível da manifestação produzida ao longo da gira no terreiro de Umbanda.


Por outro lado, reflexionando sob o ponto de vista emocional, o comando da função mediúnica deve ser a consequência e, ao mesmo tempo, a função psíquica alimentadora de uma potencial individuação por parte de seu experimentador, fazendo com que este estruture e desenvolva-se sob um Sentido único de Si-Mesmo. 


Estar consciente de suas questões emocionais (positivas ou negativas) de forma madura, meditando nelas e agindo para que suas qualidades sejam ampliadas, bem como as deficiências sejam, por sua vez, sanadas aos poucos, fará com que o medianeiro produza uma forte percepção de sua individualidade, ampliando sua capacidade de identificar e interferir em seus estados emocionais, sem com isso, deixar-se derrapar para as crenças inconscientes, de que é vítima de demandas, espíritos obsessores, etc, tombando em estados perturbadores e aflitivos.

Perceber-se como um partícipe da Vida Maior, veículo para a manifestação do Sagrado, filho e filha do Orixá, que por intermédio de seu organismo psíquico-biológico efetiva a união espaço-temporal do Divino com o humano, é aprofundar-se na compreensão da finalidade última, subjetiva, do transe mediunista de Umbanda, por meio do qual abrimos verdadeiras janelas para entendermos nossa relação com os intrincados mecanismos das Leis do Universo, sintonizando-nos com o Cosmos Dei.

Temos que as Personas manifestas a partir da estrutura do Self, organizador essencial do organismo psíquico, são fundamentais para a construção dos elos que irão unir a estrutura psicológica, cognitivo-emocional do médium, com aquelas próprias da entidade comunicante (Espírito Guia ou Protetor). É necessário que haja a edificação da forma, da máscara de cera sobre a qual a inteligência extra-física irá imprimir sua essencialidade, seus conteúdos, dando vazão ao seu potencial energético, para ação sobre o organismo do médium durante o trabalho espiritual e suas consequentes necessidades de expressão pelo psiquismo de intermediação.


Entretanto, para que haja a consolidação do Comando da Função Mediúnica, importa que reconheçamos e compreendamos que o tônus movimentador desta relação intermúndio advém de um Estado Mental propiciador. Mediunidade, dessa forma, refere-se a uma faculdade que encontra-se ao nível mental nos seres humanos, e para que seja vivenciada de maneira consciente, com o comando dessa função, devemos aprender a acessar e fixarmos nosso ambiente interior neste nível mais profundo de nossa subjetividade.




Reconhecendo a Mente como o pólo originador das ocorrências mediúnicas, pois que é o recurso principal do Espírito, vamos compreendê-la como sendo uma instância mais ampla, em cujo domínio, encontram-se os organismos psíquico e biológico do ser humano, bem como seu mundo de relação.


Quando o indivíduo, médium, não compreende essa questão, suas comunicações e seus estados de transe ocorrem da mesma forma, entretanto, como não há o Comando da Função Mediúnica, este fica à mercê do que os seus Guias e Protetores - ou entidades outras, caso esteja em estado de perturbação espiritual - poderão realizar pelo seu intermédio, apesar de sua ignorância.

Assim, quando há o Comando da Função Mediúnica, abre-se o caminho para que o fluxo da energia mediúnica percorra trajeto natural, passando da Mente para o Psiquismo, pelo Superconsciente (falaremos dessa instância psíquica em mais detalhes, posteriormente), de maneira que ocorra a presentificação patente das Entidades Espirituais, num sentimento inconfundível, para o seu experimentador, de que está sendo "possuído" por uma outra inteligência, com a qual comunga dessa experiência espiritual.

Toda manifestação espiritual, no contexto umbandista, retrata uma Experiência Simbólica do Transe, por meio da qual são representados os estados subjetivos experimentados pelo médium, denunciados,em sua postura corporal, expressão facial e gestual. A Experiência Simbólica é a tradução psíquica da comunhão mental com os Espíritos Guias, os quais trazem consigo a essência do Orixá e que preenchem o médium com a sua vitalidade e transcendência.

Dessa Vitalização Interior é que o médium pode identificar as sensações prazerosas e de enlevo que experimenta ao final das giras. Como se as tensões interiores diluíssem e as contradições dissolvessem.

O Estado de Completude que ressuma dessa condição de tranquilidade e vitalidade interior resulta da liberação das energias emocionais represadas nas estruturas próximas da funcionalidade psíquicas ordinárias e que necessitam, então, serem escoadas por um  mecanismo que seja suficientemente detentor de uma força propulsora capaz de alavancá-las, uma vez que pulsam sob as camadas estratificadas no psiquismo do medianeiro. Somente que essa completude deve ser atingida pelo processo consciente de construção da Experiência Simbólica, pois que, ao contrário disso, o que vemos é somente o extravasamento catártico de tensões emocionais.

Por fim, podemos dizer que, além do sentir a Vitalidade Interior e um Estado de Completude, o Comando da Faculdade Mediúnica, deve produzir um sentido de utilidade prática para a vida do seu experienciador. E, o que podemos esperar do "retorno" dessa viagem interior, ao longo das práticas nos trabalhos espirituais de Umbanda, é a Experiência saudável com o Real.

O médium capaz de comandar sua faculdade mental, possui os recursos dos quais se utiliza para viver o cotidiano de maneira saudável. Meditando em torno de suas condições interiores e conservando sempre um comportamento positivo e maduro para com as necessidades diárias. Sabe instrumentalizar-se para cumprir com seus deveres de cidadão, familiar e profissional, sem negligenciar quaisquer das partes que lhe digam respeito em sua vida íntima e social, conservando um comportamento de exemplo e respeito a si-mesmo e ao próximo, onde quer que se encontre e, principalmente, fazendo com que sua vida espelhe todo o Bem que colhe da Umbanda, demonstrando, pelos seus atos, o quão enriquecedor e libertador pode ser o caminho de um filho-de-fé dentro das Leis de Umbanda

Saravá a todos!




Bibliografia Consultada:
Lima, Bennto de (1997). Malungo Decodificação da Umbanda
Zangari, W. (2009). Psicologia da Mediunidade: do Intrapsíquico ao Psicosocial (artigo científico)
Jung, C.G. (1970). A Natureza da Psique
Byington, C.A.B (2008). Psicologia Simbólica Junguiana

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda: A Construção dos Papéis Estruturantes



Por: Gregorio Lucio

Em seu caminho por dentro do tempo de iniciação nas Leis de Umbanda, o médium, cavalo de santo, irá construindo, ao longo das experiências que elabora no transe, uma relação de maior estreitamento com as entidades espirituais que acercam-se de seu campo mediúnico-sensitivo.

As entidades espirituais que comporão sua coroa mediúnica, funcionam como reguladoras de seu psiquismo, no que se refira às sensações e memórias que deixarão impressas em seu íntimo durante e após o transe, estabelecendo a possibilidade de sua identificação por parte do médium, conforme este amadurece na prática mediunista e habitua-se a refletir sobre seus estados mediúnicos e seu mundo íntimo como um todo, construindo assim o seu Campo Intuitivo.

Em conta do que relatamos, entendemos que há, por parte do médium e do templo no qual irá iniciar-se na Umbanda, uma construção de papéis estruturantes, os quais são erigidos segundo o processo de assujeitamento do neófito ao complexo de ritos, simbologias e expressões variadas que passarão a determinar as suas noções de pessoa e alteridade.

Isso porque, ao adentrar no universo imaginário próprio da mística de Umbanda, sua percepção a respeito de si-mesmo (pessoa) passará a identificar-se como sendo a de um ser transpessoal, essencial, cuja sua origem está atrelada a um Todo mais amplo, abstrato e integrador, o Espírito Imortal, o qual, justamente por estar imerso em um universo mais amplo do que este apreendido no sentir e no observar da experiência psíquica imediata de objetos e sensações da realidade física, tem em si a possibilidade de interagir em diversas dimensões da vida, pois é sujeito da experiência de sua própria individualidade, conquanto também propagador de consciências outras que por seu intermédio manifestam-se e fazem presentificar-se.

Sua noção de alteridade também encaminha-se para uma ampliação, uma vez que este deve o significado de seu universo íntimo, não somente a si mesmo, mas também a outras Individualidades, de origem Espiritual (Guias e Mentores), as quais mostram-se como atribuídas de duas funções de sentido psicológico distintas, sendo tanto a de servir como estruturadoras da experiência do transe de seu médium, quanto a de estruturantes do rito de Umbanda que se processa ao nível religioso-social. O rito de Umbanda forma-se em torno das características próprias aos grupos de entidades que manifestam-se dentro do templo, situando, pelo contexto de suas atuações e performances rituais, a fluência sob a qual a gira irá desenvolver-se. Sendo assim, o médium não existe somente por si, mas também em função do papel que lhe cabe na relação com seus Guias, bem como na relação de "suas" entidades com o meio religioso no qual estas desenvolvem seu mister.

O médium em desenvolvimento deve, portanto, constituir-se por um mecanismo de aprendizado, no qual este recebe, por parte dos médiuns mais experientes e, também, do babalorixá ou yalorixá da casa, uma atenção destinada a adequar suas manifestações dentro destas estruturas fundamentais do culto. Por isso, a conversa alternada realizada pelos "orientadores" do médium em seu processo de educação mediúnica, ora falando com a entidade incorporada, ora com o próprio médium, de maneira que se definam os papéis e se desperte no medianeiro a fluência na expressão de seus estados de transe.

"Símbolos e funções psíquicas são considerados estruturantes porque o resultado da ação das funções sobre os símbolos é a produção de significados, que formam a Consciência" (Byington, 2006).


Dizemos então que os processos mentais presentes no funcionamento psíquico do indivíduo, os quais permitem-no acomodar em seu complexo íntimo a manifestação de identidades outras, perpassam por seu inconsciente e, ao se ligarem ao complexo simbólico expresso pelo conjunto de ritos praticados na casa e presentes em sua memória, formam o campo da consciência mediúnica. A experiência simbólica das entidades passa aí a ser vivenciada, de pouco a pouco, de maneira ordenada e integrada ao campo da vida cotidiana do medianeiro.

Dessa forma, as percepções mediúnicas podem variar de médium a médium por conta da atuação dos papéis estruturantes construídos em seu psiquismo.

Para ratificarmos nossas colocações expostas acima (referentes à conjunção de processos psíquicos com elementos sócio-culturais para a formação da experiência religiosa-mediunista na Umbanda), em nossa intenção de abordar a questão mediunista na Umbanda pelo viés psicológico-cultural-espiritual, transcrevemos um trecho do artigo científico de Zangari (2003):

“[...]não é possível compreender a mediunidade por um enfoque que exclua os elementos culturais, uma visão descontextualizada. A mediunidade passa a ser vista como uma construção psicossocial, como fenômeno individual e coletivo ao mesmo tempo. Uma importante teorização nesse sentido foi proposta por Zangari (2003). Seu trabalho se notabiliza pelo desenvolvimento de uma teoria da mediunidade de incorporação, na Umbanda, que engloba tanto a dimensão social mais ampla, quanto a dimensão social dos grupos e a dimensão individual dos fenômenos mediúnicos. Sua teoria parte da noção básica da mediunidade como fenômeno psicossocial, enfatizando o papel da linguagem na construção grupal das experiências anômalas / paranormais[...] o fenômeno mediúnico num contexto religioso em que ele se dá de maneira bastante natural, onde a experiência direta das “entidades espirituais” é extremamente valorizada - visto que toda a tradição umbandista é transmitida de forma oral, pois são poucos os livros existentes a respeito, ao contrário do Espiritismo dito kardecista.

[...] o desenvolvimento da função mediúnica [...]atravessaria seis estágios ou processos específicos, que atuariam de forma concomitante e independente:

a) Assimilação = processo pelo qual o indivíduo passa a conhecer melhor a doutrina religiosa e o papel que cabe ao médium nesse contexto. Caracteriza-se pela “constituição de uma imagem interna ou representação das crenças do grupo” (Zangari, 2003, p. 174), e que envolve não apenas uma compreensão consciente, mas informações não-verbais e subliminares presentes em qualquer forma de interação humana;

b) Entrega = consiste na aceitação dos fenômenos, na disponibilidade para adentrar o estado de transe e permitir a “incorporação”;

c) Treino = afirma que a mediunidade é uma alteração de consciência disciplinada culturalmente, a qual segue determinados passos e comportamentos previstos pelas crenças do grupo. Esses passos devem ser seguidos caso se queira executar a função mediúnica adequadamente. O indivíduo se envolve cada vez mais com as crenças grupais, interiorizando-as e acomodando-as frente às diferentes situações da vida e ao contexto religioso em si. Esse processo envolve não só uma adaptação psicológica, como corporal:[...] uma vez que a entrega se realize, o organismo (compreendido aqui como o conjunto corpo-mente) se acomodará conforme o esperado. Uma vez vencida a resistência inicial, a estranheza de ter seu corpo ocupado por um outro ser, a médium exercitará seu sistema nervoso de modo a que funcione de acordo com as crenças do grupo, agora também crenças da médium, uma vez que ela também é parte do grupo. (Zangari, 2003, p. 176)

d) Criação = período de “incubação criativa” (Zangari, 2003, p. 178) em que as[os] médiuns constroem inconscientemente as entidades que se “comunicarão” por seu intermédio. Esse processo está limitado pelos conteúdos próprios da doutrina religiosa;

e) Manifestação = atuação das criações num contexto ritual;

f) Comprovação = busca por evidências que comprovem a origem espiritual do fenômeno, em prol da manutenção da identidade mediúnica e da identidade grupal.

Para Zangari (2003) deve-se considerar o papel do médium como unificado, e não como a simples soma dos “espíritos” ou facetas de sua identidade manifestadas no estado de transe. O médium é, na verdade, aquele que tem “a capacidade de assumir múltiplos papéis” (p. 185). Os espíritos são expressões de papéis sociais, mas cujo automatismo não permite às médiuns exercer qualquer controle sobre eles. As médiuns [estudadas pelo pesquisador] seriam ao mesmo tempo intérpretes e coautoras de suas entidades

A elaboração dos papéis estruturantes da experiência mediúnica dá-se, portanto, sob a inter-relação de seu mundo psíquico-espiritual com o meio religioso-cultural, no qual encontra-se. Há um sistema de estímulo-resposta e de elaboração simbólico-ritual que alimenta a esfera não-racional do psiquismo do médium, de maneira que seu inconsciente torne-se preenchido e criativamente ressignificado, na medida em que este vai se assenhoreando da vivência dos ritos, das giras, das preparações, dos trabalhos...

"Dessa forma, um símbolo e sua linguagem simbólica somente passam a serem compreendidos, a partir do momento em que o ser se transporta para a esfera ou egrégora em que ele se instala. Adentrando no universo místico da Umbanda, penetra-se em sua simbologia, distanciando-se o adepto lentamente do aspecto simplório de cada coisa e se projetando em sua essência.

O aspecto simbólico então reveste-se de realidade, uma vez que ao interno do núcleo central a artificialidade ou o irreal passa a não mais existir enquanto estrutura variável e sim, agrega em seu contexto sua própria realidade. Desperta-se então para a mística, aprendendo a observar e enxergar em um símbolo a imagem tangível do plano invisível impresso em toda a sua significação" (Nunes, 2009).

Ao enfatizarmos a função do inconsciente como instância psíquica plenipotente na elaboração dos papéis estruturantes da experiência mediunista, no decorrer do desenvolvimento mediúnico, não queremos com isso corroborar com a idéia de que a fenomenologia e a expressão espiritual originam-se no inconsciente. Entretanto, elas fluem por este, pois é no inconsciente onde estão os sedimentos simbólicos, as arquetipias, e o substrato da mundivivência realizada por cada um, como Ser Espiritual, que comporão a expressão profunda do intercâmbio com o mundo espiritual, pois "[...] o inconsciente resume no psiquismo uma modalidade múltipla da realidade, ao passo que o ego corresponde a uma modalidade fixa e parcial do real".(Lima, 1997)

Finalmente, não podemos deixar de mencionar a importância da relação com o corpo e sua correspondente imagem corporal elaborada pelo médium, em conjunto com cada entidade manifesta, como papel estruturante no processo de desenvolvimento mediúnico. Cada Espírito carregará para a mente do médium, os elementos que sejam possíveis de expressar, por meio da gestualidade e do simbolismo corporal, a essencialidade do trabalho e a energia espiritual a que cada Guia está vinculado.

Conforme o médium vai tomando consciência dessa imagem corporal e seu correspondente espaço psicológico criado dentro e fora de si, poderá sentir o fluir das irradiações carreadas por cada Guia de Luz que por sua coroa presentifica-se, permitindo reencontrar, na experiência subjetiva com o seu próprio corpo, os significados mais profundos a respeito de sua individualidade, por permitir a integração de suas funções sensoriais e psíquicas, ampliando a sua percepção mediúnica.

Essa integração da imagem corporal, construída pelos transes específicos de cada entidade, na personalidade mediúnica, faculta a percepção profunda da sacralização da mente, pela qual o adepto aos poucos vai adentrando ao entendimento de que ao ser acessado pelas Entidades Astralizadas (Guias e Mentores de Luz), este estabelece contato direto com a Divindade que por ele flui e irradia-se, espalhando as bençãos dos Orixás para o mundo físico, onde por ora nos encontramos.

Cabe ao médium, neste processo, ir tornando-se cada vez mais consciente a respeito de sua realidade interior, bem como deste complexo de manifestações que ocorrem em si-mesmo para que seja capaz de plenificar-se e gratificar-se psicologicamente, traduzindo modificações profundas em sua conduta e sutilizando seus pensamentos, ampliando assim suas possibilidades de viver com paz e amor em seu coração.

Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:
Byington, C.A.B. (2006). O Desenvolvimento da Personalidade - As Sete Etapas da Vida (artigo científico)
Zangari, W. (2009). Psicologia da Mediunidade: do Intrapsíquico ao Psicosocial (artigo científico)
Lima, Bennto de (1997). Malungo Decodificação da Umbanda
Nunes, M.C.; Alves R. (2009). Oyé Orixá 
Zimmermann, E. (2009).  Corpo e Individuação
Jung, C.G. (1970). A Natureza da Psique



sexta-feira, 13 de abril de 2012

Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda: Função Anímica e Mecanismos Adaptativos



Por:  Gregorio Lucio

Desdobrando a temática anteriormente iniciada, quando da publicação a respeito do Desenvolvimento Mediúnico na Umbanda, prosseguiremos nossas reflexões em torno de uma questão fundamental na estruturação da experiência espiritual envolvida na prática umbandista, a qual identificamos como sendo relativa à questão anímica e aos mecanismos adaptativos inerentes ao processo psíquico de construção da experiência medianímica.

Devemos entender o princípio do aprendizado mediunista como sendo um caminho repleto de novas experiências de ordem sensorial, emotiva e experimental, uma vez que o adepto, logo após ser admitido ao circulo de médiuns da casa, deverá iniciar-se na prática do transe, sob as regras e normas vigentes no templo de Umbanda.


Interessa-nos, neste momento, enfocarmos as características de ordem psíquica que se irão aflorar ao longo do processo do chamado "desenvolvimento", ao qual o candidato a médium será submetido.Variando de acordo com as características de cada um, observamos que se somam às fileiras de trabalhadores dos templos de Umbanda, indivíduos portadores das mais diversas gradações entre sua sensibilidade psíquica e o tônus característico dos estados de transe que cada um passa a vivenciar.


Dessa forma, em alguns irrompem os estados de transe, em verdadeiro estupor, sob o qual o neófito agita-se bruscamente, girando de maneira desordenada, muitas vezes chegando a desequilibrar-se, arriscando-se em causar um acidente para si-mesmo e para aqueles que lhe estejam próximos. Noutros, o transe dá-se de uma maneira muito sutil, quase imperceptível, não logrando, em alguns casos, tornar-se mais intenso mesmo com o passar dos anos e da vivência nas giras.

Características de ambos, entretanto, as funções psicológicas de caráter anímico sucedem-se no início das experimentações mediunistas, comunicando-se por meio da expressão corporal, da gestualidade, da dança e dos trejeitos específicos da entidade que ensaia manifestar-se, aos poucos, por intermédio de seu medianeiro.

Buscando compreender o animismo como sendo a expressão da "alma do médium" dando seu colorido às manifestações espirituais que ocorrem por seu intermédio, entendemos que a manifestação particular do médium no ato da experiência mediunista ocorre sempre e invariavelmente, pois que é justamente pela função anímica que estruturam-se os campos de registros próprios para os contatos com a dimensão espiritual, neles sendo impressos e decodificadas as informações obtidas e comunicadas pelo "cavalo".

Entendamos a alma como sendo não identificada diretamente com a consciência, a qual é composta por duas partes, a saber, o consciente e o inconsciente; tão pouco a alma identifica-se com as nossas emoções, sentimentos ou processos psicofisiológicos que dão-se em nosso organismo, em nosso cérebro; a alma é um campo que vai para além do tempo e do espaço e une todas estas partes (consciência, emoções, sentimentos, sensações, corpo físico), em um todo maior e dotado de identidade.

Assim é que a alma corresponde ao próprio Espírito, no caso, o médium. A personalidade que ora se encontra na condição de médium, é a elaboração de um processo complexo de mecanismos psicológicos, cujos seus conteúdos foram elaborados tanto interiormente quanto introjetados por força da influência com o meio social. Não há como, portanto, deixar-se de lado a influência direta do médium nas manifestações mediunistas, sob pena de incorrermos num "pensamento mágico" ao acreditar que os fenômenos de ordem espiritual dão-se por razões extemporâneas ou fora daquilo que se configura como sendo os mecanismos já dados e estabelecidos pela nossa condição de seres humanos. A fenomenologia, por isso, não ocorre fora do campo psíquico e orgânico do médium, embora sua origem remonte a uma outra condição dentro da subjetividade humana (não originando-se exclusivamente do psiquismo ou do organismo biológico).

As emoções e sensações que passa a experimentar ao longo do processo de desenvolvimento mediúnico, servem como comunicadoras da função anímica do médium, denunciando seus estados de transe, independente da intensidade na qual este ocorra. Imagens psíquicas de caráter simbólico e pensamentos fugidios também assomam ao consciente como sendo os primeiros movimentos da alma do médium na tentativa do intercâmbio espiritual.

O animismo, por intermédio da função anímica, serve como mecanismo saudável da expressão inconsciente do médium, inclusive por força de uma irrupção catártica que pode provocar, trazendo à tona emoções e conflitos reprimidos. Médiuns que adentram, mesmo durante a manifestação do transe nas giras, em crises de choro, de paralisia, de esgares, etc, geralmente estão sob influência do processo catártico, anímico, funcionando como válvula de escape das tensões psíquicas de que se vêem tomados. Obviamente, essas primeiras expressões do animismo devem ser superadas pelo adepto, ao longo do tempo, que a elas não deve fixar-se, para que não constituam entrave à passagem das irradiações e pensamentos das entidades espirituais, de maneira que estas sejam plenamente integradas ao seu campo psíquico e emocional, promovendo o comando da função mediúnica.

Em conjunto a estas impressões intensas que são vivenciadas, o médium vai aos poucos elaborando um constructo psicológico, do qual emergirá as personalidades-simbólicas que servirão como refletoras das entidades espirituais que adentrarão a sua faixa mediúnica, personificando-as segundo a mística e a simbologia dada ao imaginário umbandista, variando de acordo com a tradição e a ritualística de cada terreiro.

Percebemos, por conseguinte, que a alma do médium modela personas simbólicas que servem como veículos para o mergulho ao inconsciente coletivo, do qual retira seus substratos e arquetipias, de onde podem emergir as forças contidas no si-mesmo, cuja sua realidade se faz presente quando, por ocorrência do transe assumido pelo médium, este sente-se tomado de grande força interior, de serenidade e paz autênticas.

Podemos conceber, por conta deste mecanismo adaptativo que se desenvolve, a psique do médium como sendo dotada de plasticidade e dinâmica criativa, promovendo a manutenção do eixo e do centro de sua individualidade, em torno das quais, as personalidades-símbolos irão constelar-se. Essa plasticidade e dinamização das estruturas psíquicas possibilitam que a subjetividade do invíduo-médium permaneça sempre no centro da experiência mediunista, não derrapando para um mecanismo patológico esquizofrenógeno, o qual ocorreria caso houvesse a fixação do "eu" do médium a uma destas personalidades-símbolos.

Ao longo do tempo o "cavalo" deve passar a organizar e comandar interiormente este processo psíquico, o qual não irá desaparecer, conforme o já dissemos, mas sedimentar-se-á cada vez mais, com vistas a possibilitar que num dado futuro, haja a ocorrência da comunicação medianímica, de forma segura e saudável para o médium, deixando em si marcas indeléveis de plenitude e amadurecimento emocional, por conta de uma construção salutar e segura que realizou em seu processo de "desenvolvimento mediúnico".

Salientamos sempre a necessidade da boa orientação e da paciência àqueles que buscam a realização espiritual dentro dos círculos umbandistas, pois trata-se de uma conquista que ficará gravada nas estruturas mais íntimas de nosso ser. Por isso, deixar de lado a pressa em querer dar comunicações e consultas, lembrando sempre de que a comunhão espiritual com o Guia é o elo mais poderoso de aprendizado espiritual, por conta da formação do campo intuitivo que passa a se desenvolver no íntimo do filho-de-santo.

Nossa preocupação deve-se ao fato de que observamos, cada vez mais, pessoas com mediunidades ou potenciais mediúnicos sendo desperdiçados e tornando-se totalmente atormentadas e atormentadoras por não cumprirem os processos de construção e amadurecimento que só o tempo e a vivência podem dar, causando sempre um desserviço à nossa Corrente Astral e à Umbanda como um todo.

Por isso, ponderação, paciência, dedicação e estudo, nos campos das experiências espirituais, dentro das lides umbandistas, serão sempre os recursos valiosos que todos deveremos nos valer, para que nossa religiosidade seja vivida de maneira plena e repleta de realizações felicitadoras, desmistificando tabús e ampliando o entendimento de conceitos e simbologias pertinentes ao nosso imaginário religioso, à nossa espiritualidade, na busca de conhecimentos sólidos em torno de nossa religião de Umbanda, retirando-nos da condição de marginalidade a que nos vemos colocados, muitas vezes por falta de preparo e esclarecimento de nossos próprios adeptos.

Saravá a todos!



Bibliografia Consultada:
Lima, Bennto de (1997). Malungo Decodificação da Umbanda
Jung, C.G. (1970). A Natureza da Psique