terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A Visão de um Adepto: Sustentação no Trabalho Espiritual


Por: Gregorio Lucio 

Gostaria de enfatizar, neste breve texto, uma questão muito importante em qualquer trabalho de ordem espiritual, principalmente naqueles que se utilizam do fenômeno mediúnico, tal como ocorre nos templos de Umbanda e nos centros espíritas. Essa questão se refere a atividade de Apoio e Sustentação. 

Geralmente, encontro muitos textos ou mesmo troco experiências, informações e conhecimentos com pessoas ligadas à Umbanda e ao Kardecismo, e de maneira geral, quando falamos dos trabalhos espirituais, enfocamos muito as expressões mais conhecidas da mediunidade, como a Incorporação (psicofonia, no kardecismo), a Psicografia, a Pictografia, a Vidência/Clarividência, a Clariaudiência, a Intuição, a Inspiração, a Psicometria e também algumas especialidades da mediunidade de efeitos físicos (como a materialização e a ectoplasmia). 

Entretanto, deixamos de lado uma especialidade que, embora não seja propriamente uma expressão mediúnica, é fundamental para os trabalhos espirituais: a atividade de Apoio e Sustentação vibratória do ambiente, no qual estão sendo desenvolvidos os trabalhos. 

Seja numa sessão espírita (de atendimento espiritual, desobsessão, ou mesmo numa palestra pública), seja numa gira em um terreiro de Umbanda, temos a presença de pessoas, colaboradoras da casa, desenvolvendo a atividade de sustentação vibratória, quer elas saibam disso ou não. Aliás, essa função pode ser e é, de fato, realizada até mesmo por aquelas pessoas que estão sentadas na Assistência destes trabalhos, mesmo que também não o percebam. 

Podemos desmembrar a composição de um trabalho espiritual, de uma maneira genérica, em alguns elementos que desenvolvem funções mais ou menos específicas. Primeiramente, temos dois conjuntos de colaboradores que operam em níveis diferentes do ambiente de trabalho, ou seja, temos os trabalhadores Desencarnados (Guias, Mentores, Protetores) e os trabalhadores Encarnados (Médiuns, Dirigentes, Auxiliares). Da mesma maneira, na parte da Assistência, temos a Assistência que é composta por Encarnados e uma Assistência que é composta por Desencarnados. Todos compartilhando do mesmo ambiente, em ambas as dimensões da vida. 

Como nossa intenção é falar da atividade de sustentação, gostaria de tratar especificamente, do conjunto dos trabalhadores encarnados, o qual é constituído por: 

Dirigente dos trabalhos, aquele que exerce a liderança espiritual naquela atividade; 

Médiuns Ostensivos (“médiuns de trabalho”, no dizer popular, pode ser médium de incorporação, vidente, psicógrafo, etc...a depender do tipo de trabalho); 

Sustentadores (também podem ser entendidos como auxiliares, assistente, participante, apoiador, ou “`médiuns” de sustentação, já numa linguagem mais específica do kardecismo); 
Então, qual seria, do ponto de vista da função, a importância daqueles que servem como sustentadores do trabalho espiritual? Bom, sabemos que a função dessas pessoas é a de ajudar a SUSTENTAR os trabalhos...mas, o que seria isso? 

Se recorrermos a um bom dicionário da língua portuguesa, vamos encontrar alguns significados para a palavra Sustentar (como, ter ou segurar por baixo, impedir de cair, apoiar, etc.). Mas, um desses significados é bastante adequado para a ideia de Sustentação no trabalho espiritual. Sustentar seria AMPARAR; FORNECER RECURSOS A. 

Logo, aquele que figura como Sustentador é todo e qualquer pessoa que participe do ambiente do trabalho e que possa contribuir fornecendo vibrações elevadas para a formação e manutenção do campo espiritual e energético da Casa. Esta pessoa pode ser um médium de trabalho ou não, desde que NÃO ESTEJA SENDO ATUADO diretamente por uma entidade espiritual (seja na incorporação, na psicografia, ou qualquer outro fenômeno que exija a participação direta do médium). 

Na Umbanda encontramos esse papel sendo desenvolvido, dentro da corrente mediúnica da casa, especificamente pelos Cambones e Ogãs/Curimbeiros. Também os demais médiuns que não estejam em trabalho em um momento qualquer também serve como um Sustentador. 

No Kardecismo, encontramos os trabalhadores da Sustentação, geralmente sentados ao lado dos médiuns de psicofonia, nos trabalhos de desobsessão e/ou assistência espiritual, auxiliando os médiuns de psicografia e também formando a corrente necessária para os médiuns passistas. 

É importantíssimo que eu ressalte que não basta somente “estar do lado” do médium, ou no ambiente de trabalho para concorrer com a manutenção vibratória e espiritual. É preciso estar numa condição própria para isso. O que na verdade é algo bastante simples e sem demais complicações. Basta, somente, que a pessoa esteja no ambiente do trabalho com o seu pensamento voltado exclusivamente para o que está acontecendo ali (ou seja, não ficar dentro do trabalho pensando no “jogo do Corinthians”, nem no que vai fazer na hora que sair dali, ou demais distrações que não dizem respeito àquele momento). Manter-se em oração, mentalizando imagens positivas, saudáveis, etc. Sem forçar nada. Entregar-se àquele momento com alegria e gratidão por poder estar ali e direcionar sua atenção para o que está ocorrendo no ambiente. 

Vale lembrar também que todos os recursos humanos que estão disponíveis no ambiente de trabalho são utilizados pelos Mentores de Luz, seja a pessoa médium de trabalho ou não. Eles se utilizam das emanações de energia positiva que são geradas por cada pessoa, quando estas se encontram envolvidas em pensamentos saudáveis, em oração, etc. Com o passar do tempo, é até comum que determinadas pessoas que antes só atuavam como Sustentadores passem a ter afloradas em si, expressões mediúnicas belas e ostensivas, direcionando-as para que passem a também tornarem-se médiuns de trabalho. 

Neste ponto, surge mais uma pergunta. Qual a relação de importância entre o médium de trabalho e o sustentador? 

O Sustentador funciona como um gerador e mantenedor do padrão das energias que devem estar disponíveis no ambiente. Quando um médium de trabalho está atuado por um Guia (na Umbanda, por exemplo) desenvolvendo um trabalho, ou mesmo numa sessão de desobsessão (Espírita) em que o médium dá passagem a um irmão sofredor, devemos saber que neste momento há um consumo muito grande da energia de ambos. As energias do Médium, assim como a do Espírito (seja ele um Mentor ou não), vão sendo consumidas (como uma vela que tivesse um pavio aceso em cada extremidade). Esse consumo da energia pode ser mais ou menos intenso a depender da capacidade de doação de energias próprias de cada médium e de cada Entidade (nem todos tem o mesmo potencial). Isso se deve ao fato da necessidade que ambos tem, médium e Entidade Espiritual, de equilibrar as suas vibrações para que o “encaixe” entre as suas irradiações possa ocorrer e assim também provocar a manifestação mediúnica (incorporação, psicofonia, psicografia, etc.). 

Dessa forma, o Sustentador gera um potencial de energias que é distribuído na corrente mediúnica e é assimilado pelo campo mediúnico-vibratório dos médiuns que se encontram em trabalho, de maneira que este campo possa ser revigorado, alimentado, e a sua ligação com a Entidade Espiritual possa ocorrer durante o tempo necessário para o trabalho. 

Lembramos que no caso daqueles que se encontram na Sustentação, embora não estejam em trabalho, os seus Guias e Mentores de Luz também estão atuando, mas de maneira sutil. Ao invés de atuarem envolvendo-os diretamente com a sua irradiação (conforme o caso da incorporação, psicografia, etc), o Mentor atua criando um campo de Inspiração e de Intuição para com o seu médium, permanecendo também ele (o Guia) atuando como um sustentador do ambiente, só que na dimensão espiritual. 

Falando especificamente da Umbanda, conforme já tratamos em outros textos, as vibrações da música por meio do ritmo percussivo (feito pelos atabaques, palmas, etc.) e da voz (as melodias e as mensagens contidas nas letras dos Pontos Cantados), geradas por aqueles que as executam de maneira concentrada e em sintonia com o trabalho, servem como um potencial gerador e sustentador da corrente mediúnica. Da mesma forma, aqueles que não se encontram cantando ou tocando, podem manter-se em prece, mentalizando coisas boas para também alimentar o trabalho dos demais. 

Na sessão Espírita, os sustentadores devem agir também em sintonia com o que se desenvolve no trabalho, sem alienar-se do que está ocorrendo, mantendo-se em oração, mentalizando imagens positivas, etc. 

Já pensou se aquelas pessoas que assistiam ao Chico Xavier ficassem mais interessadas em ver a marca da assinatura da psicografia e o conteúdo da mensagem do que em orar para que ele tivesse sucesso no atendimento daquela multidão que o buscava, sedenta de consolo e esperança? 

Já pensou se estivéssemos no trabalho mais interessados de que o nosso babalorixá ou yalorixá estivesse ali para resolver um problema particular nosso do que o atendimento daqueles que buscam o Templo Sagrado pedindo um lenitivo para as suas dores e aflições? 

Eles teriam muito trabalho para conseguir vencer as resistências vibratórias impostas por aqueles que deveriam estar ao seu lado para ajudá-los (ao médium e principalmente aos Mentores de Luz que confiam em nós), o que colocaria em sério risco as tarefas de atendimento e consolação, com as quais nos vinculamos, seja nas Leis de Umbanda ou nos princípios da Doutrina Espírita. 

Por isso a necessidade de SUSTENTARMOS (olha a palavra aí, de novo) uma postura digna e condizente com o caminho que escolhemos, por vontade própria, trilhar nessa jornada espiritual de evolução e busca de iluminação para nós mesmos e para todos que nos cercam. E devemos fazer isso vigiando constantemente, em nossas vidas, as nossas palavras e atitudes. Tratando especificamente do ambiente de trabalho espiritual, essa atenção precisa ser redobrada, pois necessitamos ter uma conversação digna e uma postura coerente com o local em que nos encontramos, em respeito a todos que compartilham do mesmo ambiente conosco e, principalmente, em respeito àqueles que batem em nossas portas em busca de alívio e socorro. 

Assim, espero ter contribuído, humildemente, com um pouco mais de informações e, quem sabe, esclarecimentos para os que se interessam. 

Saravá a todos! 

A Visão de um Adepto: A Reza, a Prece e a Oração


Por: Gregorio Lucio

Reza, Prece e Oração. 

Embora para muitas pessoas todos estes termos sirvam para se referir a mesma coisa, gostaria de compartilhar algumas reflexões e conhecimentos sucintos para, se possível, ampliarmos nossa visão a respeito do que venha a ser, efetivamente, cada uma destas palavras e práticas tão comuns da experiência religiosa do ser humano.

Primeiramente, lembro que ambas nos ligam, de maneira prática, ao plano do Sagrado, para o qual nos direcionamos em busca de algo que possa nos corresponder interiormente. Rezamos, fazemos Preces e Oramos, seja a benefício de nós mesmos, seja em benefício de outrem. E, de maneira geral, fazemos isso assumindo uma postura (tanto interior quanto exterior) característica, proferimos palavras que nos foram ensinadas ou que decoramos de alguma forma, ou mesmo silenciamos e “conversamos” de maneira aberta e espontânea com Deus. Ou seja, tanto na Reza e na Prece, quanto na Oração temos o mesmo princípio operante: o de nos ligarmos e nos sintonizarmos com a Divindade.

Falando especificamente, a Reza constitui um ato característico, muito comum na prática rito-litúrgica de várias religiões. Trata-se de um modelo, com um “texto” definido, o qual é proferido, em geral, de maneira coletiva, por todos os presentes no templo religioso. Ave-Maria, Salve Rainha, O Credo e até o Pai-Nosso, isso sem nos referirmos a outras tantas existentes também em outras culturas religiosas além do Cristianismo, quando utilizados de maneira coletiva, em um ato rito-litúrgico, caracterizam a Reza. Para ficar claro, basta lembrarmos da origem desta palavra. Reza vem da raiz latina Recitare, que significa “ler em voz alta e clara”. Aliás, a mesma palavra latina (Recitare), também deu origem, na língua portuguesa, a palavra Recitar, que tem o mesmo significado já exposto. Posteriormente, no Brasil, atribui-se o significado da palavra Rezar como sinônimo de Orar, diferenciando-se da palavra Recitar. Mas, como pudemos ver, a origem das palavras tem o mesmo sentido, e é utilizado de maneira lógica na rito-liturgia religiosa, pelo conhecimento teológico de sua origem em latim, como uma expressão coletiva.

Bem, em toda Reza está presente a Prece. 

E o que seria a Prece? 

A Prece significa uma atitude ativa por parte do indivíduo que se lança em direção a Deus. É o desejo da pessoa de se “comunicar”, de diminuir a “distância” entre ela e a Divindade. É a atitude que tomamos na intenção de sentirmos a presença de Deus em nós e entrarmos no fluxo inspirativo que se irradia Dele, trazendo para nós e para os outros (quando nossa intenção é a de interceder por alguém) um sentimento de plenificação, de serenidade, de paz, de estabilidade. A prece é um ato de adoração, no qual deve caber sempre o pedido (súplica), a louvação e o agradecimento. É indispensável a ligação do sentimento de fé e de elevação interior na prece para que possamos nos sintonizar com o “pensamento” Divino. 

Seja por meio das preces lidas, decoradas ou pela ação livre e espontânea do nosso pensamento, com o qual buscamos nos ligar a Deus, temos que compreender o significado das palavras que estamos pensando e/ou proferindo, qual o sentido do que estamos dizendo (principalmente no caso das que são lidas ou decoradas) e sempre ligar o nosso sentimento íntimo de busca e de desejo de entrar em contato com a Fonte Divina do Bem. A prece nunca pode ser algo repetido maquinalmente, com o qual o coração não se comove e nada sente. E, para isso, Jesus, nosso Divino Mestre, nos herdou um modelo exemplar: O Pai-Nosso. 

Quando Jesus responde ao apelo dos discípulos e da multidão que o observava no monte, profere as seguintes palavras:
“Assim, pois, é que vós haveis de orar. Pai nosso, que estás nos Céus, santificado seja o Teu nome!...” (Mateus 6:9, 6:10, 6:11 e seguintes)

Se refletirmos no conteúdo do Pai Nosso, lembrando-o em toda a sua extensão, veremos que lá estão contidas as bases para a efetiva prece, pois ele é o resumo de todas as profundas aspirações humanas (oportunamente, trarei um texto com a reflexão detalhada em torno do sentido do Pai-Nosso). 

A prece é, portanto, um aprofundamento no processo Oracional. 

A possibilidade de experimentar a Oração, esse estado interior (estado oracional), é factível para todo aquele que busca ampliar a consciência de si-mesmo.

A Oração, conforme já o disse, é a condição totalmente interior, subjetiva, é um estado mental ao qual podemos nos conduzir por intermédio da prece e da reza. É possível e comum, em alguns momentos, Rezar e fazer Preces sem entrarmos num estado Oracional, o que certamente demonstrará que não houve uma correspondência entre a nossa prática exterior e a nossa condição interior. Pois não adianta somente pensar em Deus e pronunciar o Seu Nome. É preciso pensar nEle com elevação, com o desejo e a aplicação da vontade em com Ele se conectar. Ou seja, deve ser um ato consciente de busca-Lo.

A oração se concretiza, quando feita de maneira adequada, em um sentimento interno profundo, inexprimível, no qual todas as palavras silenciam. É um estado de quietude. É o atingimento de uma condição mental superior, no qual podemos e devemos nos exercitar, adentrando-o, buscando permanecer neste. Utilizando um termo comum na meditação, que também nos induz a um estado mental superior, o exercício da oração deve resultar, com o passar do tempo, com que possamos atingir um estado de contemplação. A constância no hábito da oração nos leva, com o passar do tempo, a uma gradativa iluminação interior.

Para finalizar, elaborei um singelo resumo gráfico, situando a Reza, a Prece e a Oração como momentos e níveis diferentes, contemplados uns nos outros, conforme segue:



Saravá! 
Bibliografia Consultada:
Miranda, Projeto Manoel Philomeno de (2008) – Consciência e Mediunidade
                                                             (2010) – Qualidade na Prática Mediúnica
Kardec, Allan (1864). O Evangelho Segundo o Espiritismo
A Bíblia Sagrada – Evangelho de Mateus

A Visão de um Adepto: Ancestralidade


Por: Gregorio Lucio


Na Umbanda, há um termo que corresponde diretamente a um referencial ético, norteador, nas relações humanas vividas e experimentadas dentro do terreiro: a ancestralidade.

Muito falamos sobre a ancestralidade no que se refere às origens histórico-culturais que serviram como base, ao longo do desenvolvimento da nossa sociedade, para o surgimento da Umbanda, tornando-a um fenômeno religioso autenticamente brasileiro. Falamos das etnias que serviram de tronco para a nossa identidade cultural, quais sejam os indígenas brasileiros, os negros africanos e os europeus.

Sabemos que a Umbanda herda da miscigenação e do amálgama de determinados aspectos das práticas religiosas de cada uma dessas matrizes formadoras o conteúdo que irá constituir seu imaginário, seus símbolos religiosos, sua cosmovisão e sua maneira de relacionar-se com a sociedade como um todo.

Mas, nossa idéia aqui é a de tratarmos, não do aspecto sócio-cultural da Umbanda, mas sim da inter-relação humana que vige dentro do templo religioso umbandista lastreado pelo princípio da ancestralidade.

Toda Casa de Umbanda tem um iniciador. Alguém, homem ou mulher, escolhido pelos Orixás, Guias e Protetores, que passa a carregar uma "missão" que é a de servir-lhes de intermediário, para que possam ser manifestadas as individualidades do mundo espiritual, a Aruanda, com o objetivo de trazerem esclarecimento e, principalmente, auxílio e conforto aos necessitados e aflitos.

Imaginando-nos há décadas atrás, sem ir muito longe, podíamos ver uma sociedade em que o desconhecimento a respeito dos fenômenos mediúnicos e espirituais era muito grande. A religião dominante, como ainda o é, o catolicismo, não comporta, pelo menos para a massa leiga, uma orientação aberta e de compreensão para com esse tipo de manifestação que é tão presente em nosso meio social. O transe, a manifestação mediúnica, eram sempre vistos como sendo um traço de loucura ou de possessão demoníaca, ou seja, como algo doentio.

Lembremos dos fundadores de nossos templos, nesse passado, em que a maioria deles nascia em meio a uma família humilde e ignorante (no sentido exato da palavra, desconhecedora) a respeito da sua condição de médiuns. Imaginemos o quanto essas manifestações trouxeram de angústia e de sofrimento para eles, por verem-se no meio de uma sociedade que não os compreendia e os via como doentes ou, pior, assediados pelo demônio.

São essas pessoas, em meio a tais adversidades, que vão conduzir as suas vidas aceitando a condição de compromisso para com o mundo espiritual, por meio de seus mentores e demais espíritos trabalhadores que o acompanham,  servindo como pontes entre a realidade da Aruanda Maior e a nossa vida terrena. Tudo isso para que o objetivo de ajuda mútua, envolvendo os habitantes dos dois "lados" da vida, possa se concretizar. Assumem as suas "missões", iniciam-se na prática mediunista de Umbanda, aceitam o seu caminho, cheio de flores e de espinhos, como seareiros das Leis de Umbanda e, com o passar do tempo e apesar de tantas vicissitudes, prosseguem e fundam suas tendas, terreiros, choupanas, centros, templos...

Enfim, são individualidades espirituais que se encarnam neste mundo trazendo compromissos e assumindo responsabilidades profundas, na condução de comunidades inteiras, zelando, junto de seus mentores, pelo andamento e pelo progresso interior de tantos quantos façam parte do grupamento de seguidores e filhos-de-santo de seus templos. Tornam-se referências ético-morais, mesmo sem o perceber, destas comunidades.

Assim, surgem os Templos de Umbanda que se espalham por todo o nosso país. Aqueles que estão estruturados por um trabalho sólido de atendimento e acolhimento das pessoas que o buscam, com o tempo, constróem em torno de si, uma comunidade fiel que o segue e apóia, tornando-se devota dos Orixás que são cultuados nestas Casas, bem como das entidades espirituais que "baixam" nesses terreiros, trazendo esperança, conforto e caridade para todos os filhos-de-fé.

O grupo de médiuns, a corrente mediúnica, que vai constituindo a força de trabalho destas casas, é formado por indivíduos com histórias e momentos diversos, conforme a realidade vivenciada por cada um. O processo de inter-relação entre as pessoas é enriquecido pelo diálogo, uma vez que a característica fundamental da Umbanda é a chamada "oralitura", ou seja, a transmissão oral do conhecimento e da história espiritual pertinente a cada casa de Umbanda é feita primordialmente pelo diálogo, pela palavra "falada", pela conversa com os mais velhos, pelo ensino que vem da preleção ditada pelo dirigente de cada templo.

Ao longo da história do terreiro, são construídas memórias, conforme as pessoas vivenciam as mais diversas formas da vida espiritual dentro do templo umbandista, seja no dia-a-dia das giras, nas ocasiões de festa e comemorações, nos ritos de iniciação, nos mutirões de limpeza e organização em prol da casa.

Dessa forma, antes de entrarmos no templo de Umbanda em que hoje nos encontramos, devemos lembrar que muitos outros já passaram por lá antes de nós, carregando esperanças, memórias, histórias, conhecimentos, aprendizados, felicidades, frustrações, alegrias, tristezas, realizações...vivências profundas, enfim, tornando-as ligadas àquele ambiente espiritual. Não são só os nossos Guias e Protetores que estão ligados às correntes espirituais de nosso terreiro. Também nós, aos poucos, vamos nos integrando naquela realidade espiritual e, conforme avançamos na história do templo, nosso sentimento de fé, de respeito e de carinho, também nos tornam parte daquele mundo de luz. Não à toa, nossos irmãos de terreiro, mais velhos, quando desencarnam, passam também a fazer parte das correntes espirituais da casa. E, em alguns casos, ao passar dos anos, chegam inclusive a integrar-se como espíritos trabalhadores da casa. Isso é possível,  embora dependa muito da condição espiritual de cada um, afinal, como disse Jesus: "Porque, onde estiver o teu coração, ali estará o teu tesouro".

Embora não seja possível fazermos uma relação direta e proporcional entre tempo e conhecimento, pois nem sempre o fato de realizarmos durante muito tempo alguma coisa, signifique que o estejamos fazendo da maneira correta ou com a qualidade devida, cabe-nos lembrar aqui que, na religião de Umbanda, o papel do mais velho, no caminho da iniciação espiritual da Umbanda é muito importante. 

Os exemplos do mais velho, a sua conduta, são diretamente observados e tendem a ser repetidos pelo médium mais novo. São os mais velhos que lastreiam e detém as memórias que podem ser transmitidas aos mais novos, fazendo com que, tal qual o Mestre Nazareno o fez, partilhando os pães e os peixes, o coração de cada seguidor também se preencha dessas recordações felizes, assim como dos conhecimentos fundamentais para o crescimento espiritual dos neófitos dentro do templo. Quando isso não ocorre, chega-se ao risco de fazer com que se esmoreça a fé, com que a responsabilidade dos papéis se dissolva, com que se perca o referencial e os valores que devem ser cultivados e ensinados, pelo exemplo, insistimos, dentro do ambiente religioso. Isso tudo por que o fortalecimento da fé e do significado espiritual precisa da experiência com o outro, por meio da partilha. Esse é o princípio da Comunhão, a qual deve existir entre os membros da corrente mediúnica, entre os filhos-de-santo, entre os filhos-de-fé.

Portanto, segundo a nossa humilde e limitada visão, devemos sempre lembrar que, antes de olharmos para as coisas e as pessoas que estão inseridas no templo de Umbanda ao qual nos vinculamos, estabelecendo críticas e exigindo mudanças, devemos sempre nos lembrar de que ali há uma história viva, na qual cada um de nós se insere, na medida do papel e das responsabilidades atribuídas a cada qual. Pessoas existem e existiram ali que construíram seu espaço e sua história espiritual naquele templo, e nós devemos respeitar tudo isso, mesmo que diante de dúvidas ou da impossibilidade de compreendermos totalmente determinadas questões, justamente devido à nossa inexperiência...são os passos que ainda não demos pelo caminho que outros, à nossa frente, já caminharam.

Lembremos da Ancestralidade que originou e sustenta a tradição de Umbanda que seguimos em nosso templo e não nos esqueçamos, em nossas orações, dentro e fora do nosso terreiro, de pedirmos a benção e a cobertura desses irmãos mais velhos que nos antecederam, junto de seus Guias e Mentores de Luz, nesta etapa da jornada espiritual.

Assim, peço a benção aos mais velhos e dirijo meu  preito de respeito aos mais novos, como eu.

Saravá a todos!

A Visão de um Adepto: Comportamento Mediúnico


Por: Gregorio Lucio

A base do comportamento do médium na Umbanda, implica na sua capacidade de sintonia com as energias que são evocadas e dinamizadas nas giras.

Conforme já sabemos (vide: As Egrégoras), estas energias ou irradiações ligam-se ao conjunto de ritos e trabalhos espirituais que são realizados por cada comunidade de santo, e acabam por caracterizar a identidade vibratória de cada terreiro, assim como a sua amplitude espiritual.

Assim, é imprescindível que cada médium, integrante de uma corrente mediúnica, seja capaz de perceber, entender e sintonizar-se com o que está sendo produzido no momento dos trabalhos espirituais. 

Concentração, Atenção, Receptividade, Sensibilidade, Tranquilidade (sim, porque se o indivíduo está agitado, ele não é capaz de se concentrar, de prestar atenção e muito menos de manifestar sensibilidade alguma). Toda estes são atributos fundamentais para todos os presentes nos ritos, em especial, para os médiuns, conforme já temos dito.

Sintonizar com o Bem está relacionado aos mecanismos que regem nossos pensamentos, os quais desdobram-se em atitudes e comportamentos correspondentes. Logo, agimos de acordo com o que pensamos. Bem e Mal, queiramos ou não, essa é a realidade que está em nós. Portanto, as atitudes e os hábitos que mantemos em nosso dia-a-dia, dão a tônica de como movimentam-se os nossos pensamentos no campo comum da nossa existência.

Com isso, quero dizer que se alimentamos repetidamente pensamentos de raiva, de revolta, de tristeza, de maledicência, de ódio, de inveja, etc, criamos um ciclo negativo, que é reforçado continuamente, que vai se fixando, num mecanismo doentio, dentro de nós, e nos fechando numa corrente de energias de caráter perturbador, podendo inclusive desencadear processos de doenças ao nível do nosso próprio organismo físico (desde uma gripe, uma alergia, até processos cancerígenos). Aquilo que a psicologia chamaria de somatização.

Entretanto, não quero aprofundar a questão no que diz respeito à produção de doenças causadas pela ação do pensamento. Quero, tão somente, enfatizar que pensamos de maneira cíclica e que, em geral, nossos pensamentos giram em torno de assuntos mais ou menos limitados, a depender dos níveis de experiências de cada um ( experiências estas, que não tem a ver com a idade da pessoa, pois existem indivíduos jovens com mais experiências vivenciadas do que um idoso que tenha tido uma vida limitada a uma determinada rotina, com poucos recursos e variações).

Dito isso, podemos entender que se alimentamos sentimentos e pensamentos perturbadores ou limitados (em torno da satisfação de nossas necessidades básicas, como fome, sede, sexo, descanso), fechamos nossas capacidades mentais num limite muito estreito e não damos margem para que desejos e aspirações maiores possam surgir em nossa consciência, nos incentivando a modificações mais profundas em nosso modo de ser, pensar e agir. E, quando digo "modificações mais profundas", não estou referindo-me a conquistas sublimes, santidade, conversões totais da nossa forma de comportamento.

Estou falando mesmo é de pequenas coisas, as quais surgem, aos poucos, dentro de nossa consciência, e vão tornando-se centro de nossas aspirações. A busca por um emprego melhor,  por deixar um determinado vício, iniciar um novo curso, começar um programa esportivo, uma dieta ou tratamento médico de que necessitamos...Coisas saudáveis que possam modificar nossa vida para melhor. Por trás destas novas motivações que surgirão, podemos notar a mudança da qualidade dos pensamentos, a sua ampliação em termos de visão de mundo e campo de interesses. De igual forma, nosso campo emocional se reforça positivamente e passa a alimentar esses pensamentos. Dentro dessa condição de saúde e transformação, analisando-nos, poderemos perceber sutis modificações, como sejam um estado de maior serenidade, estabilidade, satisfação e alegria de viver.

Mas, voltando ao momento do trabalho espiritual, quero evidenciar que nossa vida no dia-a-dia é determinante para os resultados que colheremos, em termos de experiências espirituais, na gira da qual participamos semanalmente (quinzenalmente, mensalmente...). 

Não conseguimos sair do círculo de interesses que criamos para nós mesmos, de um dia para outro. Não adianta eu ter pensado mal de mim mesmo e do meu próximo, reclamado da minha vida, da minha família e do meu trabalho, de segunda a sexta-feira e achar que no "sábado" (domingo, segunda, terça, quarta...) basta colocar uma roupa branca, tomar um banho de erva e acender uma vela que serei capaz de me libertar da corrente repetitiva de pensamentos que eu mesmo elaborei e reforcei. Minha sintonia com as irradiações espirituais, portanto, não ocorrerão ou serão limitadas e quase imperceptíveis, enquanto me demore nessa consciência de sono a respeito de minha realidade interior.

Evidente que o trabalho coletivo, com as orações, cânticos e demais características rituais, colabora, no momento enquanto dure tais práticas, com a "quebra" desses padrões de pensamento, oferecendo a oportunidade para que voltemos o olhar, brevemente, para as nossas necessidades de mudança, e sejamos nesse momento, inspirados pelos Guias Espirituais... Mas, enquanto não houver uma "luz" que surja de dentro de mim, fazendo-me compreender o mal que provoco, no meu cotidiano, a mim mesmo, mesmo sem querer, e colocando minha vontade e desejo sincero de mudança em favor desta modificação, sempre estarei fechado no círculo estreito dos meus interesses negativos e das minhas limitações.

Embora todas sejam válidas e merecedoras de nosso respeito, penso que não adianta ao médium, no que se refere a sua sintonia espiritual, somente obedecer a regras de postura e expressões corporais pertinentes ao rito, preditas na maioria dos templos umbandistas (como usar roupas brancas, não manter as mãos cruzadas durante os trabalhos, por exemplo), e conduzir-se de maneira a demonstrar falta de respeito em relação ao seu irmão de fé, rindo-se de seus erros (que são naturais em qualquer jornada de aprendizado); "cutucando" amigos e mantendo conversas paralelas e risos demasiados, no momento de uma preleção saudável realizada por um outro irmão, palestrante convidado, ou pelo próprio dirigente do templo, ou mesmo quando este está conduzindo uma orientação para algum assistido ou irmão necessitado; nutrindo falatórios envolvendo a vida alheia, de maneira menos digna; tratando de assuntos inadequados e de teor reprovável no ambiente religioso do templo (e mesmo fora dele)... 

Aprendamos que nossas condutas interiores, manifestadas de maneira doentia, embora de forma sutil e socialmente aceitas, implicam muito mais na nossa falta de sintonia com as irradiações espirituais dos nossos trabalhos do que, propriamente, as posturas corporais e as roupas que vestimos.

Enfim...melhor seria que estivéssemos de preto (azul, lilás, laranja, rosa, amarelo, etc) e com as mãos cruzadas, mas com o pensamento e a atitude digna diante da casa que frequentamos, dos irmãos que dizemos respeitar e da Umbanda que dizemos amar. 

Dessa forma é que manteremos ligação profunda com a Luz Divina que fazemos brilhar dentro de nosso Congá, sobre nossas cabeças, e da qual, em geral, tiramos tão pouco proveito.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O Transe de Caboclo e sua Magia


Por: Gregorio Lucio


Caboclo que vem da mata, 
Da mata traz seu poder.
Arreia, Caboclo, arreia
Arreia que eu quero ver


Escrevemos este texto tratando especificamente da experiência espiritual de caráter mediunista, presentificada no transe de caboclo, associando-a aos seus respectivos significantes psico-sociais na vivência religiosa.

As entidades que se manifestam nos terreiros de Umbanda sob a forma simbólica de Caboclos, carregam consigo, concomitantemente, uma mensagem espiritual e um conteúdo psicológico de caráter profundo, os quais são depositados nas "zonas de registro" da individualidade do médium.

Muitas obras e conteúdos disponíveis na internet tratam das características destas entidades espirituais, seu tipo de trabalho, e toda uma variedade possível de linhas e falanges sob as quais se congregam esta coletividade astralizada. Nosso enfoque, como já é de conhecimento de nossos leitores mais assíduos, não será o de discutir essas questões, pois estas cabem aos fundamentos e a tradição seguida em cada templo de Umbanda, mas sim o de oferecer uma óptica compreensiva em torno da figura do Caboclo de Umbanda, de cunho psicológico e social e, ainda mais especificamente, qual a sua relação com a estrutura psíquica do médium quando da estruturação do seu tipo de transe.

Dizemos isso, pois sabemos que na Umbanda cada entidade astralizada desenvolve a sua manifestação, a qual se consolida por meio de um transe construído em conjunto com seu respectivo cavalo-de-santo (médium), tendo este, o transe, uma variação de acordo com o tipo de entidade espiritual (se caboclo, preto-velho, criança, baiano, etc.). Dessa forma, nos ateremos a esta grandiosa manifestação mediunista na Umbanda.

A figura do Caboclo (que na Umbanda simboliza não só o mestiço do branco com o indígena, mas também toda a memória ancestral dos nativos brasileiros) constela em torno de si uma variedade simbólica de cunho espiritual, psicológico e social, conforme afirmamos anteriormente. 

A palavra "caboclo" tem como origem o termo em Tupi "caá-boc", que significaria "aquele que vem da mata".

O Caboclo representa o ancestral primeiro na formação de nossa sociedade. Suas práticas culturais estão gravadas em nosso inconsciente coletivo, zona estratificada de nosso inconsciente profundo. Sua relação com a terra e a Natureza, por intermédio da magia e da sua mitologia (expressa nas diversas culturas indígenas) estão fixadas em nosso cosmo interior, e também no astral da América do Sul, dominando uma extensa faixa de vibração, segundo a ótica espiritual, na qual congrega-se uma incalculável egrégora de seres espirituais que afinizam-se com essa terra e com o povo desta região. Sabemos que cada nação possui uma faixa espiritual que a envolve, reunindo a coletividade de espíritos compromissados em ter ali uma ou mais encarnações, construindo sua mundivivência.

Muito mais do que a imagem do silvícola ignorante e brutalizado, estigmatizada pela visão eurocêntrica cristalizada em nossa cultura, estes seres possuem uma ampla consciência em termos de vivência coletiva, instrumentalizada por uma mitopoese que regia a sua produção mítica e, consequentemente, seus arranjos na composição social pertinentes a cada tribo.

A pajelança, prática xamânica de caráter mágico-terapêutico, expressava uma cosmovisão peculiar acerca do ambiente espiritual e natural. Compreendia a ancestralidade e o mundo mítico, etérico e, em determinadas culturas nativas, incluia a própria noção da reencarnação.

O transe anímico e mediunista também estavam presentes. Por meio de recursos utilizados, como danças rituais e beberagens específicas, havia um contínuo trânsito, nesta cultura, entre os planos físico e espiritual.

Como entidades espirituais, os Caboclos representam a condição dos Espíritos que integram uma condição de vida, no plano espiritual, com a qual ainda sonhamos. Estes vivem em uma comunidade harmônica, repleta de ideais concretizados na ação altruísta e coletiva, tanto quanto na postura altiva, serena e madura, como características significantes que enxergamos nos indivíduos e sociedades emancipadas espiritualmente.

Por desfrutarem de uma vivência, na condição de Espírito, que confirma as expectativas elaboradas pela nossa busca em torno do homem integral e da sociedade emancipada espiritualmente, essas individualidades que habitam os planos extrafísicos vem comungar, por reconhecerem-se num sistema cósmico de interdependência com todos os seres, com aquelas consciências imersas no ciclo da reencarnação.

Assim, "[...]nos cultos afro-brasileiros a consciência se desenvolve no sentido de reconhecer que o ego é constantemente interpelado por outras figuras que com ele convivem constantemente, e que atuam e se expressam por meio dele, colocando-o sob seu influxo (Segato, 2005, apud Silva).

Pelo contato advindo da comunhão mental estabelecida por estes Numes espirituais com a individualidade mediúnica, deixam impressos, ao longo do tempo, no campo de consciência do medianeiro (Campo Intuitivo), as marcas dessa experiência, depositando ali seus conteúdos salutares os quais servem para "despertar" aqueles de natureza similar, presentes no inconsciente profundo do médium, dotados de uma energia psíquica capaz de motivá-lo e movimentá-lo para a aquisição daqueles valores de plenitude e maturidade, tão necessários não só para a vida em Espírito mas, também, para lidar com os desafios da vida cotidiana, notadamente, na fase adulta e na aproximação da desencarnação, advinda pela velhice.

As interpretações em torno da forma pela qual os Caboclos apropriam-se do aparelho psíquico (psiquismo) e fisiológico (corpo) do médium, projetando e fixando seus fluidos (irradiação espiritual) em determinadas áreas do corpo do médium, dão-nos a possibilidade de verificarmos que a "comunicação" realizada pelas entidades espirituais para com seus cavalos-de-santo, ocorre com a ligação do Guia não só ao campo psíquico do médium, mas também com o assujeitamento do corpo deste ao seu comando.

Mais uma vez notamos a importância do corpo, o qual não deve ser entendido como estando somente numa condição estática e indiferente ao estado psíquico do sujeito-médium, mas, ao contrário, como um mapa no qual gravam-se as impressões das experiências do Estado Superior de Consciência, advindos na ocorrência do Transe Mediunista. Relatos de médiuns de Caboclos, dão conta de que a sensação da experiência de contato com entidades femininas desta categoria (Caboclas), é de leveza e suavidade, enquanto que a influenciação daqueles de gênero masculino (Caboclos) evoca uma sensação de peso e rigidez experimentadas no próprio corpo. É importante para o médium tornar consciente essa experiência; perceber como sente e o que sente durante seus estados de transe para melhor extrair o significado deste momento e poder ampliar o conhecimento a respeito de sua própria sensibilidade mediúnica.

As imagens simbólicas que são evocadas à consciência do médium, traduzem um sentido psicológico que é trazido à tona e fixado no campo limiar - próximo-consciente - da personalidade mediúnica.

Podemos observar como os médiuns, em estados de transe de Caboclo, mais ou menos acentuados, assumem posturas de grande segurança, altivez, destreza, e mobilidade- principalmente quando observamos as danças rituais performadas por estas entidades, algumas de grande beleza, em que os médiuns giram em torno de seu próprio eixo, com mãos e braços efetuando a expressão de simbologias específicas-, denunciando um estado psíquico que exterioriza a busca interior do próprio indivíduo-médium na aquisição desta segurança, equilíbrio, firmeza e serenidade tão bem manifestadas por estas entidades.

De tal sorte que, como efeito desta experiência espiritual, da comunhão mental médium-Guia, são postos em movimento, a pouco e pouco, os conteúdos positivos profundos da natureza psíquica do médium, possibilitando que assuma-os para si, integrando-o no seu consciente e permitindo-se aprofundar-se na autodescoberta, trilhando um caminho de amadurecimento, de auto-realização, auto-plenificação, autogratificação. Segundo a terminologia junguiana, permitindo a entrada consciente no processo de individuação.

Isso faz-nos crer que, o grande símbolo psicológico-espiritual que circunda o imaginário dos Caboclos na Umbanda, a Natureza, diz respeito, valendo-nos das expressões de Spinoza, ao que vai além da substancialidade da natureza, vista como algo exterior, tal como a conhecemos (composta por matas, águas, ventos, fauna, etc)- a "natura naturata" -. Para além disso, a Natureza que nos é evocada interiormente pela atuação espiritual do Caboclo refere-se ao caminho que a comunhão com estas entidades espirituais abre para reconhecermos e compreendermos a nossa Natureza interior, a essencialidade da nossa existência - a "natura, naturans"-; o sentido psicológico e final que advém do autoconhecimento e a vinculação integral ao Deus interno, o qual está em nós, embora ainda desconhecido.

A priori, na gira de caboclo, há um trabalho com o nível de consciência coletivo, em que todos os presentes são tocados e convidados a participar do ambiente espiritual formado. As mensagens trazidas em seus pontos cantados evocam memórias coletivas e congregam em si faces do próprio imaginário que as revestem e lhes dá profundidade.

Podemos, num exercício de reflexão, lembrarmos de alguns símbolos psicológicos que permeiam a manifestação do transe de Caboclo (importante frisar que englobamos no significante Caboclo, tanto a representação das entidades masculinas quanto as femininas), os quais também estão presentes no imaginário que evoca a memória destes Guias espirituais. Natureza, terra, matas, sol, lua, águas, pássaros, cobra, raiz, flecha, luz, equilíbrio, força, pé no chão, movimento, serenidade, segurança, firmeza, energia, seriedade, simplicidade, sabedoria, conquista, destreza, inteligência...

Assim, da mesma maneira como vínhamos tratando, nos parágrafos anteriores, acerca do que a experiência do transe de Caboclo insculpe no psiquismo do médium e aditando a isso a lembrança de que o culto religioso na Umbanda é realizado por meio de um Rito coletivo, no qual há a comunhão da manifestação espiritual não somente entre o médium e seu Guia, mas também entre todos os participantes do trabalho, podemos dizer que faz parte do trabalho dessas entidades espirituais, proporcionar aos demais esse mesmo processo de autodescoberta e movimentação psíquica para o amadurecimento da individualidade.

Dessa forma, em termos de trabalho coletivo, os Caboclos criam e vinculam em torno de si um campo de irradiação espiritual, enquanto dure a sua "gira", que afeta e influencia a comunidade presente no Rito, abrindo campo para a inspiração destes conteúdos salutares no campo subjetivo.

Finalmente, outra questão a se destacar refere-se ao trabalho mágico-terapêutico, realizado pelos Caboclos. O passe, o aconselhamento, o conhecimento das ervas e da fitoterapia, cumpre um caráter profilático, pois aproxima-se da necessidade dos que buscam auxílio e consolação nas tendas, terreiros, templos e choupanas de Umbanda, cumprindo a função espiritual-social de acolhimento e alívio das tensões de várias ordens que afligem e comprometem o bem-estar do ser humano.

Quando o Caboclo digna-se em comungar da experiência do Transe com os seus "filhos-da-Terra" e arria na coroa mediúnica de seu cavalo-de-santo, ele traz o mundo mágico, encantado e espiritual da Aruanda Infinita, da Jurema, sacralizando o corpo de seu médium, o ambiente no qual se encontra e servindo de elo entre o plano espiritual, o Sagrado, e o plano terreno para que possamos ter possibilitado acesso às dimensões mais profundas da nossa própria existência, facultando-nos, enquanto dure nossa jornada de aprendizado nas Leis de Umbanda, adquirir justamente os valores e as conquistas interiores que estes Numes Espirituais nos vêm simbolizar: Simplicidade, Maturidade, Segurança e Serenidade.

Saravá a todos os Caboclos!

Okê Caboclo!

Bibliografia Consultada:

Pagliuso, Ligia; Bairrão, José Francisco Miguel H. (2010). Luz no Caminho: Corpo, Gesto e Ato na Umbanda (artigo científico)
Pradi, Reginaldo (2002) ). A Dança dos Caboclos (artigo científico)
Silva, Rosevel G. (2007). Entre memórias e demandas sociais: As teias de reciprocidade dos Espíritos Caboclos (tese de mestrado)
Rotta, Raquel R. (2010). Espíritos da Mata: sentido e alcance psicológico do uso ritual de Caboclos na Umbanda (tese de mestrado)
Ramos, Rafaela M. (2004). Okê, Caboclo! Um estudo etnográfico sobre a dança do caboclo na Umbanda
Silva, W.W.da Matta (2009). Umbanda de Todos Nós
Lima, Tereza M. de O.; Fonseca, Denise P. R. da (2007). Caminhos de Luz Apostolados Afro-descendentes no Brasil
Zimmermann, Elisabeth (2009). Corpo e Individuação