sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Simbolismo, Magia e Subjetividade na Prática Umbandista (Parte I)


Por: Gregorio Lucio

Neste artigo, trataremos do processo pelo qual, segundo nossos estudos e experiências, entendemos como a magística umbandista influencia tanto a dimensão material quanto espiritual.

Como homens (no sentido de humanidade) carregamos em nós uma percepção intuitiva a respeito de uma Realidade composta por aspectos que vão além do que percebemos e experienciamos no mundo corpóreo. Através dos tempos elaboramos sistemas práticos para estabelecer, seja em que nível for, um contato com estes aspectos que escapam à nossa percepção objetiva, de maneira que possamos integrá-los no campo de nossa consciência individual e em nossa memória coletiva, compreendendo assim, a pouco e pouco, como estas práticas podem interferir nos nossos desequilíbrios, buscando promover, a nós mesmos e a nossa comunidade, o bem-estar, a saúde e a prosperidade.


No ínterim deste processo, surge a Magia, como sendo a ciência que estuda e vela os segredos da natureza, não somente nas condições de experimentos da mistura ou desagregação de elementos corpóreos (materiais), como também, e principalmente, nos seus aspectos profundos, sua dimensão sutil equivalente no plano astral.

Dessa forma, a Magia é utilizada para movimentar as estruturas sutis de tudo o que existe ou tem vida dentro do espaço cósmico.


A prática magística irá consolidar-se nas culturas humanas e imiscuir-se mesmo naquelas religiões cujos seus dogmas e conceitos a respeito do campo do Divino e do Sagrado aparentem ser de caráter contrário a esta. Isso por que surgiram, mesmo dentro das religiões, homens cientes desta condição transcendente da Realidade, os quais desenvolveram práticas e métodos para estabelecermos condições de comungar, contemplar e experienciar o Sagrado, o mundo espiritual.


Pelo contato com a Natureza e a compreensão de nós mesmos como seres eternos e transcendentes ao mundo, guardamos, em nosso inconsciente profundo/coletivo, arquétipos que constituíram "forças" impulsionantes para o nosso desenvolvimento e adaptação ao meio (social, natural e espiritual)  com o(s) qual(is) nos relacionamos a todo o instante.

Nosso imaginário preencheu-se pelas múltiplas vivências ao longo de nossa trajetória no planeta, cujos registros tomaram forma de símbolos de grande "força" emocional inconsciente, os quais atuam como "propulsores" das "dramatizações míticas", as quais vivenciamos hoje em forma de ritos litúrgicos dentro das Leis de Umbanda.

Os ritos de Umbanda são as formas esquematizadas e elaboradas dentro da tradição religiosa para que os seus adeptos possam estabelecer contato e contemplação da Realidade espiritual.

Ora, sendo o símbolo o desencadeador do rito (entenda-se rito como "prática-religiosa"), percebemos como a idéia (advinda do campo mental) movimenta-nos em direção a um objetivo específico (exterior e ao mesmo tempo interior), impulsionando-nos a elaborar meios de consecução daquilo que intencionamos.

Surge aqui, o primeiro princípio da prática magística: a ideação.

Toda a movimentação magística é gerada e iniciada, conditio sine qua non, pela Mente. 

A partir da ideação, desencadeiam-se as correntes de pensamentos, as quais irão entrelaçar-se com outras correntes similares, atraindo entidades espirituais afins às idéias contidas neste "pensar", dinamizando-o, e provocando uma ampliação (por conta do efeito mediúnico) na intenção daquele que pensa, o qual passa a não mais "pensar sozinho", mas sob a influência de tantos quantos outros seres (desencarnados e encarnados) que estejam comungando naquele momento da mesma irradiação de pensamentos e objetivos.

Concretizadas essas junções mentais, as quais efetuam-se fora do tempo e do espaço (não-localmente, segundo o conceito da física quântica), temos a passagem dos pensamentos para o ato de realização do ritual magístico, o qual é veiculado pela Vontade.

O médium-magista, ou operador, deve estar preparado no exercício da Vontade, pois é por este recurso psíquico que poderá dominar a si mesmo e às correntes de pensamento que assomam-se, em escala cada vez maior, enquanto dure o tempo de realização do trabalho espiritual. É ainda pela Vontade daquele que produz o ato mágico, que serão sustentadas as movimentações de energias sutis desencadeadas neste processo.

Por fim, mas não menos importante, temos a concretização do trabalho mágico realizado na preparação dos elementos corpóreos (materiais) utilizados. É imprescindível que as movimentações de energias sutis sejam projetadas e acumuladas sobre um equivalente material. Estes elementos possuem a função de "espelhar" o ato petitório realizado, produzindo um impacto no campo etérico, ao mesmo tempo em que recebe de retorno as irradiações provindas das dimensões extra-físicas. Como uma energia que se expande, indo "para fora" do tempo e do espaço, retornando acrescida e dinamizada pela ação das irradiações emitidas pelos seres habitantes do plano espiritual.

Explicados estes mecanismos, cumpre agora lembrarmo-nos quanto a Destinação e Responsabilidade daquele que realiza um trabalho de Alta Magia na Umbanda.

O mecanismo descrito acima é o mesmo tanto para aquele que intenciona o Bem quanto para aqueloutro que pretende o Mal.


O que irá determinar se o o ato mágico torna-se uma "Magia Branca" ou uma "Magia Negra" (para nos valermos de termos populares), é a Destinação que cada um dê aos seus pensamentos e emoções, conforme nossa consciência de Responsabilidade diante da Vida e de nossos Guias e Protetores da Corrente Astral de Umbanda.


Lembraremos, por último, no tocante à Destinação e Responsabilidade daquele que realiza o ato mágico, a respeito das Leis de Retorno e Filiação Astral, as quais estão implícitas e prontamente acionadas desde o princípio dos mecanismos citados acima.

Estejamos conscientes do fato de que nós seremos os veiculadores das energias que serão atraídas e irradiadas na prática magística. Toda essa confluência de energias incidirá, imediatamente, sobre a Mente que inicia o processo mágico, portanto, todo o Bem que peça será automaticamente integrado à sua consciência, produzindo bem-estar, saúde e elevação, conquanto todo o Mal que intencione, desencadeará acréscimo de infortúnio, perturbação e infelicidades. Essa a Lei de Retorno - o Choque de Retorno.

Ademais, na realização do Rito mágico, infundimos e dinamizamos valores e símbolos vivos de nossa tradição, integrando-os em nosso mundo interior e na memória daqueles pertencentes ao templo religioso. Tal relação, perpetuada na prática coletiva do mediunismo e na vinculação "filho-de-santo" - "babalorixá/yalorixá", ocasiona compromissos de Filiação, os quais exigem grande quota de consciência lúcida por parte daqueles que encontram-se nesta condição, uma vez que estarão sob as irradiações das correntes espirituais pertencentes ao seu templo, e sob seus influxos receberão as contrapartes e consequências do Bem ou do Mal que venham a intencionar e/ou praticar.

Que nossos Orixás nos iluminem e guardem-nos no Bem e na Luz!

Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:

Rivas Neto, Francisco (2002). Umbanda A Proto-Síntese Cósmica
__________________ (1996). Fundamentos Herméticos de Umbanda
Matta e Silva, W.W. da (2010). Umbanda de Todos Nós
___________________ (2009). Umbanda e o Poder da Mediunidade
___________________ (2009). Segredos da Magia de Umbanda
___________________ (2009). Doutrina Secreta de Umbanda
Saraceni, Rubens (2006). O Código de Umbanda
______________ (2007). O Código da Escrita Mágica Simbólica
______________ (2008). Tratado Geral de Umbanda
d'Ávila, Rogério; Omena, Maurício (2006). Umbanda e seus graus iniciáticos
Malandrino, Brígida Carla (2006). Umbanda, mudanças e permanências: uma análise simbólica
Silva, Vagner Gonçalves da (2005). Candomblé e Umbanda: caminhos da devoção brasileira
Levi, Eliphas (1995). Dogma e Ritual de Alta Magia
Jung, C.G (1975). Psicologia e Religião
________ (1977). O Homem e seus Símbolos
Durkeim, Émile (1968). As Formas Elementares da Vida Religiosa
Chiesa, Gustavo Ruiz (2011). A Magia na Umbanda (artigo científico)
Sillos, Silvanira Lima (2001). A Demanda na Umbanda (artigo científico)
Carvalho, José Jorge de (1998). A Tradição Mística Afro-Brasileira (artigo científico)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Médium de Umbanda


Por: Gregorio Lucio

A mediunidade é uma potência humana, conquista e patrimônio de todos os homens, sem distinção, encarnados no planeta Terra. Eis que esta sublime faculdade reside no interior de cada um, necessitando ser observada, estudada e vivenciada para que seu detentor tome consciência de sua realidade e possa identificar quais os rumos deverá dar-lhe para que forneça experiências de enriquecimento pessoal, por meio do contato salutar que poderá fruir dos Guias e Protetores, com os quais estreitará relações e ampliará seu círculo de afinidades espirituais, coroando-lhe o ministério desenvolvido.

Temos lido, em obras umbandistas, a respeito das características especificas dos médiuns de Umbanda, numa tentativa de diferenciá-los, em termos de atuação com o mundo espiritual, daqueles médiuns ditos "kardecistas".

Gostaríamos, neste post, de colaborar com algumas colocações, compartilhando nosso ponto de vista a respeito deste tema, servindo-nos, para isso, de nossa experiência particular como médium e estudioso da Doutrina Espírita.

Reportando-nos ao que tratam os autores umbandistas (e outros que embora não sendo umbandistas, pretendem falar sobre), em seu enfoque destinado a qualificar e especificar a atuação do médium de Umbanda, temos que este seria destinado, desde antes de sua encarnação atual, ao compromisso com os Guias e Protetores da Corrente Astral de Umbanda, e suas atribuições seriam, pontualmente, a de atuar principal e diretamente no "combate" ao sub-mundo astral, no desmanche de magias e feitiços de caráter negativo e, ainda segundo o ponto de vista de alguns, como "enfermeiro" para resolução de problemas graves (geralmente na área da saúde física) desacreditados por outros setores da assistência humana, ou ainda na resolução de processos avançados e complicados de obsessão espiritual para os quais outros setores religiosos não lograram sucesso.


Enquanto isso, os médiuns "kardecistas" estariam destinados ao trabalho da orientação moral àqueles que buscam seus núcleos espiritistas e do esclarecimento espiritual aos espíritos menos esclarecidos, doentes e perturbadores. 

Ainda segundo a visão destes autores, os médiuns de nossas correntes seriam preparados no Astral de maneira especial, com "acréscimos de energias" sobre seus corpos espirituais, de maneira que possam fornecer os elementos necessários para que os Guias e Protetores efetuem seus trabalhos e manipulem as energias do médium com vistas a cumprir os atos magísticos, os quais constituem as principais ferramentas e recursos para a prática mediunista na Umbanda.

Cremos, de nossa parte, haver uma certa tendência por parte destes escritores de valorizar e diferenciar o trabalho do médium umbandista, para isso buscando atribuir-lhe significados e funções que, embora não sejam equivocadas, não refletem uma realidade total a respeito de suas possibilidades de trabalho espiritual e campo de atuação religiosa.

Entendemos a tentativa nobre de preservar as práticas umbandistas, no entanto reconhecemos que estas especificações tendem a esvaziar o significado profundo da vivência mediúnica e subjetiva dentro das Leis de Umbanda, por parte daquele que busca integrar-se às suas fileiras com o objetivo de vivenciar sua religiosidade de uma maneira mais ampla. 

Primeiramente devemos colocar que os médiuns umbandistas lidam com as mais diversas faixas e graduações de energias, bem como de inteligências do mundo espiritual, e não somente com aquelas de caráter "denso" com predominância da materialidade, etc. Sendo assim, estamos abertos, primordialmente, ao contato mediúnico com os Numes da espiritualidade, bem como lidamos com energias as mais sutís, embora muitas vezes nossas práticas não sejam entendidas, num todo, por parte daqueles pertencentes a outras vertentes religiosas.

Estamos enfocando essa questão, pois vemos a necessidade de reforçar que os médiuns umbandistas estão também a serviço da Espiritualidade Maior, assistidos por Espíritos dotados de esclarecimento e elevação. Notamos muitas vezes uma "cultura de marginalidade", pela qual ficou estigmatizado o conceito de que a Umbanda serviria-se, em suas práticas, de Espíritos de categorias "inferiores", ignorantes e primitivos, os quais, caso a orientação da casa fosse para a prática do Bem, estariam sujeitos à supervisão de outros Espíritos "superiores" e "esclarecidos".

No que pesem, logicamente, as relações de afinidades no círculo mediúnico, em que cada médium estará em contato com os Espíritos com os quais guarde similitudes de objetivos, pensamentos, sentimentos e conduta moral, compreendemos o valor da Umbanda e de seus Guias e Protetores como estando no mesmo nível de quaisquer outras denominações religiosas.

Se existem médiuns, dentro de nossos círculos, que estreitam relações mediúnicas com Espíritos cujas características são negativas ou perturbadoras, isso é uma questão de particularidade de conduta, e não uma regra geral, na qual possa incluir-se todo aquele praticante de nossa religião. 

Bem, voltando à caracterização dos médiuns umbandistas, entendemos que estes têm suas atribuições voltadas ao trabalho espiritual refletidas no contexto cultural-religioso, no qual encontram-se. Desta forma, o praticante da Umbanda prima por louvar a Divindade dando culto aos Orixás, numa experiência de encontro com o seu universo interior, com a sua religiosidade, por meio da qual este se servirá do fenômeno mediunista para acessar a realidade espiritual e comungar desta experiência com os Guias e Protetores.

Na vivência desta experiência religiosa, este poderá, ou não, atuar em casos de "desmanche", de "desobsessões complexas", de "curas", de "demandas", etc, o que é natural, uma vez que a práxis umbandista dota-o de conhecimentos e elementos que o capacitam a isso, mas não que estas sejam o objetivo final de suas práticas.

Entendemos então, particularmente, que o objetivo do adepto umbandista é o de cultuar o Sagrado e utilizar-se do transe para comungar sua experiência interior com os Espíritos habitantes dos planos de Luz do mundo espiritual, cujo contato torna-se de plenificação, de enriquecimento e fortalecimento interiores para o entendimento da Vida e seu aprimoramento Moral e Ético.

Numa relação com os médiuns "kardecistas", não obstante toda a comparação entre duas culturas religiosas distintas seja sempre difícil e muitas vezes equivocada, a consagração de sua experiência religiosa está na comprovação da realidade "post mortem", sendo estes capacitados a colocarem suas mediunidades a serviço dos espíritos sofredores, de maneira que possam ser esclarecidos ou "doutrinados" (por intermédio da incorporação/psicofonia) a respeito de sua condição espiritual momentânea, pois muitos dos que aqui encontram-se encarnados atravessam os umbrais do mundo espiritual sem darem-se conta, muitas vezes padecendo de terríveis sofrimentos e angústias, acabando por vagar, inconscientes, nas regiões espirituais.


Em suas práticas, a mediunidade "kardecista" também destina-se a trazer mensagens consoladoras, por intermédio da psicografia, para aqueles que "perderam" seus entes queridos de formas as mais diversas. Outrossim, a mediunidade espiritista também é colocada a disposição de Guias e Protetores afins a essa denominação religiosa, os quais trazem suas mensagens de orientação e esclarecimento àqueles que lhes são simpáticos às idéias. Fora isso, o socorro por intermédio do passe reconfortante e curativo, também constitui prática corrente dentro do círculo kardequiano.

Outra questão importante ainda a ser tratada diz respeito a preparação espiritual destinada ao médium umbandista, a qual seria diferente daqueles médiuns das correntes kardecistas.

Não cremos, em absoluto, seja isso real, pois que nunca sentimos a menor diferença entre a prática da mediunidade de incorporação, tanto nos trabalhos umbandistas quanto nos kardecistas, sendo seu estado "pós-transe" sempre plenificador e gratificante, embora obviamente a destinação de cada trabalho fosse diversa.

Compreendemos, conforme fomos ampliando nossos estudos, ser a mediunidade uma capacidade de colocar-nos em ligação com o mundo espiritual, manifestando-o por meio de nosso psiquismo e organismo.

Assim, não há uma preparação especial ou condição específica que destine um médium a ser trabalhador exclusivamente da Umbanda ou do Espiritismo, a não ser aquelas de ordem psicológica (sua herança familiar, seu contexto cultural, sua dinâmica emocional, seu patrimônio espiritual trazido de outras vidas, etc), as quais influirão na escolha do indivíduo a respeito de qual denominação religiosa este irá seguir.

Ambos não constituem correntes de trabalhos estáticas perante o mundo espiritual, uma vez que a faculdade mediúnica é uma só, segundo cremos, e sua destinação estará vinculada ao rumo que seu detentor lhe entregue, considerados os fatores citados acima.

Óbvio que não pretendemos esgotar todo o assunto aqui, neste breve texto, no entanto, entendemos ser necessário tal esclarecimento para que possamos compreender que tanto os médiuns umbandistas quanto os "kardecistas" são trabalhadores de uma Causa Maior, conquanto estejam em caminhos diversos da experiência religiosa.

Não existe, portanto, um sistema hierárquico que coloque tanto uma quanto outra denominação como estando acima, sendo mais importante ou mais nobre.


Finalizando nossa reflexão de hoje, voltando ao médium umbandista, gostaríamos de reforçar a respeito da conduta interior, a qual deverá espelhar um comportamento (atitude exterior) que reflita serenidade, ética, responsabilidade e compromisso.

Os Guias e Protetores não esperam que ascendamos, como Anjos aos Céus, para que possamos estar em condições de auxiliá-los no mister mediúnico ou para que possamos travar contato com eles. No entanto, a contínua reflexão em torno de nossa conduta, a abstenção de vícios e comportamentos inconsequentes servem-nos para disciplinarmos nossos pensamentos, libertando-nos das "distrações" que tanto nos atam às atitudes infelizes, favorecendo que fortaleçamos a nossa Vontade, pois somente por este mecanismo psíquico é que podemos ampliar nossa condição de Espírito e possamos cada vez mais identificarmo-nos com as Esferas de Luz dos Mensageiros de Aruanda, sendo melhores médiuns e melhores Homens.

Que o Homem,  nosso Cristo-Oxalá, neste momento, abraçe-nos a todos, traduzindo nossos votos de Paz, Amor e Felicidade!


Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:
Rivas Neto, Francisco (2002). Umbanda a A Proto-Sintese Cósmica
Matta e Silva, W.W. da (2010). Umbanda de Todos Nós
___________________ (2010). Umbanda e o Poder da Mediunidade
___________________ (2010). Lições de Umbanda (e quimbanda) na palavra de um preto-velho
Saraceni, Rubens (2006). O Código de Umbanda
Rotta, Raquel Redondo (2010). Mulheres Médiuns, Caboclas Espirituais (artigo científico).

sábado, 27 de agosto de 2011

As votividades e oferendas na Umbanda


Por: Gregorio Lucio

A Umbanda é uma religião essencialmente mágica, pois em suas práticas lida não somente com as potencialidades e faculdades humanas (sensorias e extra-sensoriais), mas também com energias de diversos tipos vinculadas a sistemas de forças fora da esfera humana, os quais encontram-se situados na natureza, seja em sua dimensão material ou astral.

"A oferenda possui, portanto, dois propósitos claros que não podem ser entendidos separadamente. O primeiro consiste no próprio ato de dar, de "oferendar" algo que deve necessariamente fazer parte do seu cotidiano, ou seja, o orixá deve ser presenteado por alguma coisa que faça parte da vida daquele que oferece o "presente", como se fosse ele mesmo quem tivesse se doando através da oferenda. Trata-se de um ato de entrega onde apresentar alguma coisa a alguém é apresentar algo de si mesmo (MAUSS, 2003: 183-314).

A contrapartida ou o segundo propósito, já descrito acima, é a transmutação de energia em benefício daquele que oferta. A transmutação aparece aqui como expressão de um "equivalente imaterial" da prática material que lhe confere poder (MILLER, 2005)".(apud Chiesa, 2011)
 

As práticas votivas e ofertórias visam, segundo cremos, propiciar que o adepto atinja a experiência do numinoso.

O termo numinoso foi criado pelo teólogo protestante Rudolf Otto, e posteriormente adotado pelo insigne Carl Gustav Jung, como um dos termos de sua Psicologia Analítica. Segundo estes, o numinoso seria um efeito dinâmico que apodera-se da consciência do indivíduo, não causado por um ato arbitrário, sendo assim independente de sua vontade. No entanto, ainda segundo estes, a religião mostra que existem causas externas ao indivíduo para que tal ocorrência se dê. Essas causas externas poderiam ser propriedades de um determinado objeto visível (elementos litúrgicos, totens, ou oferendas rituais, como é o caso em questão), ou pela ação de uma "presença invisível" (divindades, espíritos, anjos, etc), ambos produzindo uma modificação na consciência.

A consequência das experiências numinosas implicaria numa modificação positiva e ao mesmo tempo arrebatadora na conduta do indivíduo, produzindo verdadeiros marcos na história de vida de quem as tenha vivenciado.


As práticas rituais religiosas são, portanto, tentativas de provocar o efeito do numinoso na experiência do adepto. E isso pode ocorrer, pois no ato de ofertar já está implícita a condição do Sagrado, manifestado pelos elementos constitutivos da oferenda, abrindo campo para a possibilidade de contato com o divino no momento em que o adepto abre-se ao acesso a diferentes níveis de consciência.

Ao ofertar e ao cumprir votos, o adepto atua com práticas que visam sua vinculação com seu Orixá e com seus Guias e Protetores. Essa vinculação dar-se-á pela movimentação de energias sutis (irradiações) que serão atraídas e integradas no indivíduo, sempre por intermédio de elementos corpóreos e pelo próprio corpo do médium (entenda-se aqui a condição em que este realiza o trabalho de feitura da oferenda, ritualiza seus atos, cumpre resguardos, etc).

Essa prática deverá contemplar uma relação de harmonia entre a postura interior e exterior daquele que oferenda.

Mauss & Hubert (2005: 34-35), "trata-se de efetuar um ato religioso com um pensamento religioso: a atitude interna deve corresponder à atitude externa. (...) o sacrifício exige o credo, o ato implica a fé". A junção desses três elementos produzirá a magia (Chiesa, 2011).

No ato votivo ou no trabalho ofertório, vislumbramos a possibilidade de ampliar nossa ligação com aspectos transcendentes de nossas vidas, embora muitas vezes este ato também seja realizado com vistas a consecução de favores por parte das Entidades Espirituais, as quais, na Umbanda, funcionam como intermediárias das graças e bençãos dos Orixás.


A adoração na Umbanda, portanto, efetiva-se especialmente com a elaboração de oferendas, cujos seus símbolos são detentores de significados profundos, mesmo passando despercebidos ou entendidos como adereços.

Os elementos que compõem, de maneira geral, uma oferenda, são flores, frutos, legumes, velas, água, bebidas específicas, fitas, panos, imagens, tabaco, alguidares ou gamelas, entre outros.

Isso deve-se ao fato de que, tanto os negros quanto os indígenas brasileiros, eram pertencentes à culturas notadamente agrícolas e realizavam suas ofertas às suas divindades e aos seus ancestrais desencarnados, dando-lhes o resultado de seu trabalho, de suas colheitas, com a intenção de gozar do auxílio dos Deuses e dos espíritos familiares, trazendo-lhes prosperidade e saúde.

Remontando-nos ao fato de que estes personagens representam simbolicamente duas, das três principais correntes que constituem a base do corpo de trabalhadores espirituais da Umbanda, compreendemos o porquê da utilização de tais "ingredientes". Uma vez que estes Espíritos trouxeram seus signos e significados culturais para a execução de seus trabalhos, eles só poderiam operar sobre aquilo que lhes fosse pertencente ao patrimônio de experiência próprio assim como daqueles que se tornariam seus médiuns e adeptos de uma maneira geral.

Em outras palavras, os Guias e Protetores irão utilizar-se de elementos que estejam vinculados à cultura e ao inconsciente da coletividade que tutelam para poderem estabelecer seus trabalhos no campo da fé e da orientação espiritual.


Conforme havíamos dito no início deste post, a Umbanda é uma religião mágica, pois que trata não somente dos fenômenos e significados pertinentes à subjetividade humana, mas também lida diretamente com elementos da natureza que veiculam a manifestação de forças sutis diferentes daquelas próprias aos seres humanos.

Isso não quer dizer que estas energias sejam inferiores, ou "densas", como querem alguns de nossos amigos de outras correntes espiritualistas. Dentre as forças naturais, estão aquelas que caracterizam-se pelo fato de serem extremamente sutís e, num grau de comparação, embora impróprio, com as energias do espírito humano, muitas encontram-se inclusive acima destas.

Para a compreensão efetiva das práticas votivas e ofertórias dentro dos templos de Umbanda, bem como de maneira particular, realizada por seus adeptos, buscaremos desmembrar três mecanismos principais que envolvem o "início e o fim" de tais práticas, consolidando o ato de adoração e de estreitamento do humano com o plano divino.

Nesta relação, temos o encadeamento das imagens simbólicas que chegam à nossa consciência, provocando o sentimento religioso e despertando a necessidade de contato com o divino, no ato de recolhimento pela prece, reflexão e adoração.

Pela prece asserenamos nossos pensamentos, liberando-nos da agitação e do excesso de estímulos sensoriais para sintonizarmos com nosso mundo interior e projetando-nos para o mundo espiritual.

Pela reflexão adentramos as portas do mundo interior, revisando sentimentos e comportamentos, auto-avaliando-nos e estabelecendo novas condições para o nosso proceder diante de nós mesmos e do outro.

Pela adoração consumamos o nosso contato com a Divindade, encaminhando, pela projeção simbólica, os pensamentos de harmonia, agradecimentos, pedidos e louvores, efetuando a entrega à natureza, seja num ponto de força do Orixá, seja no congá do terreiro ou particular, daquilo que retiramos de nós com o objetivo de dar-nos em homenagem à Vida, possibilitando-nos desafogar os sentimentos, abrir a percepção da mente para vislumbrar novas oportunidades que se abrem e, harmonizando-nos com o nosso eixo interior, centrando-nos.

Finalizamos dizendo que o ato de ofertar e cumprir votos é a maneira pela qual o adepto reforça e dá dinâmica à sua tradição, seguida dentro das Leis de Umbanda.


Quando repetimos atos ritualísticos aprendidos no ambiente do terreiro, estamos sintonizando-nos com as correntes abertas e movimentadas nos trabalhos espirituais próprios da casa, e nossos atos de ofertas particulares serão assimilados por essa corrente de energias superiores que já estão em movimento, agregando-se àquela irradiação e, portanto, sendo encaminhados aos planos celestes e retornando-nos, de acordo com nossas necessidades.


Estejamos certos de que tudo na Umbanda tem fundamento, a ser aberto e entendido por cada um de acordo com suas condições próprias, e que não estamos à margem da vida em momento algum, pois que estamos rodeados de forças as mais diversas que nos sustentam, nos guiam e nos amparam sempre.

Que as Iabás e seu Povo das Águas irradiem sua Luz a cada um neste instante, cobrindo-nos de Paz, de Amor e Felicidades!

Saravá a todos!

Referências:

Prandi, Reginaldo (2005). Segredos Guardados: Orixás na alma brasileira
Chiesa, Gustavo Ruiz (2011). A magia na Umbanda (artigo científico)
d'Ávila, Rogério; Omena, Maurício (2006). Umbanda e seus graus iniciáticos
Rivas Neto, Francisco (2002). Umbanda A Proto-Síntese Cósmica
Levi, Eliphas (1995). Dogma e Ritual da Alta Magia
Lévi-Straus, Claude (1997). O Pensamento Selvagem
Mauss, Marcel (2003). Ensaio sobre a dádiva (artigo científico)
Mauss, Marcel; Hubert, Henri (2005). Sobre o sacrifício (artigo científico)
Miller, Daniel. (2005). Materiality: an introduction
Jung, C.G (1975). Psicologia e Religião


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A prática oracular na Umbanda


Por: Gregorio Lucio

Oráculo define a prática divinatória (de adivinhação) concebida por vários povos ao longo do tempo, como meio de comunicação com  a Divindade. Pelo Oráculo podia-se compreender a vontade dos deuses, predizer as alegrias e tristezas reservadas a uma pessoa, bem como fatos importantes para todo um povo. Nas culturas egípcia, persa, judaica, chinesa, grega, nórdica, iorubá, etc, encontramos sistemas oraculares com a finalidade de consolidar essa ligação do homem com o divino.

Assim, oráculo passou a ser o termo que designa:

a) A pessoa capaz de fazer predições;
b) O local onde tais predições ocorrem (um templo religioso, por exemplo);
c) Os métodos utilizados para a obtenção da predição (jogos e sistemas divinatórios).

No meio umbandista iremos encontrar determinadas formas de práticas oraculares. Embora estas não sejam de propriedade da Umbanda, uma vez que não as criou, tais práticas encontram-se inseridas em vários templos umbandistas e acabaram por incorporar-se aos sistemas de crença de seus adeptos.

Jogo de Búzios
Cremos que os sistemas oraculares mais comuns à Umbanda são:  Jogo dos Búzios, Jogo de Otás, Opelê Ifá, Cartomancia, Vidência na Água (Copo de Vidência) e as consultas espirituais com os Guias e Protetores. 

Não iremos aqui entrar em detalhes a respeito de como processam-se os ritos e a esquematização destas práticas, tão pouco por quais signos representativos dão-se as interpretações e suas consequentes predições.

Nossa intenção é a de refletir a respeito dos sentidos psicológicos e espirituais que envolvem estes sistemas oraculares e como estes compõem recursos de auxílio para o entendimento da subjetividade humana e suas perspectivas diante de questões existenciais fundamentais, como sejam as relações dialéticas entre Livre-Arbítrio e  Destino.
  
Até que ponto os caminhos da vida de uma pessoa estão sujeitas a estas duas Leis Espirituais, tão intrigantes e tão debatidas ao longo dos séculos pelas mais diversas filosofias e religiões?

Será que os rumos da vida do homem encontram-se totalmente estabelecidos antes de seu nascimento e vinculados à Suprema Vontade Divina?

Ou, ao contrário, seria a capacidade de discernir e optar (Livre-Arbítrio), próprias a cada ser humano, os atributos preponderantes para que cada homem, a seu turno, atinja sua condição de felicidade ou desdita?

Jogo Opelê Ifá

Bem, primeiramente, para que possamos adentrar à questão de como os sistemas oraculares relacionam-se com pontos de crença aparentemente divergentes, precisamos entender como a prática divinatória contempla, em seus métodos diversos, uma visão profunda e abrangente a respeito.

Em decorrência da influência cultural africana - neste caso, a iorubá - o imaginário umbandista preencheu-se, embora tenha adaptado e resignificado seus elementos, da cosmovisão destes povos a respeito da realidade espiritual e como esta estrutura-se perante à Divindade.

Assim, temos a figura de Orunmilá, tido na cultura iorubá como sendo o representante da mais alta sabedoria e o depositário de todo o conhecimento da humanidade e dos próprios Orixás. Fora isso, também eram atribuídos a Orunmilá a sustentação do ciclo da vida, a fertilidade das terras e da juventude do planeta.

Outra característica fundamental a respeito deste Orixá refere-se à sua abrangência tempo-espacial. Uma vez que as divindades naturais iorubás estavam totalmente vinculadas ao espaço territorial de seu povo, estas não transitavam junto a seus "filhos" no caso de um processo de migração. Aliás, este foi um dos grandes dilemas dos Iorubás quando chegaram, cativos, ao Brasil, pois viram-se distantes das suas terras e, consequentemente, distantes de suas divindades. No entanto, com Orunmilá essa regra não perpetuava-se, porquanto um de seus atributos é justamente o de transitar pelos quatro cantos do mundo e entre a terra e o céu.

Jogo OponIfá
Orunmilá tem  justamente neste fundamento, portanto, a explicação do porquê ele sabe e conhece a respeito da vida de todos os homens, bem como quais são ou deverão ser seus atos perante à vontade Divina.

Na cultura iorubá, estão sob a regência de Orunmilá as várias práticas oraculares destes povos. Orunmilá também é conhecido como Ifá, sistema de jogo divinatório empregado por esse mesmo Orixá, segundo contam suas lendas.

Entendemos que o homem é o ser deste planeta que possui a capacidade de raciocinar a respeito de sua própria existência e estabelecer consciência de si-mesmo. Desta condição própria ao ser humano, advém o fato de que temos contato com nosso passado, presente e futuro. O homem sabe que irá envelhecer. O homem sabe que irá morrer e pode até contemplar aspectos dessa realidade.

Por conta disso, o homem possui a necessidade de tomar resoluções e efetuar escolhas vislumbrando o seu futuro. Seus empreendimentos de ordem material (econômico, financeiro, social), afetivos (relacionamentos, casamentos, pater/maternidade), espirituais (a prática religiosa, a busca por significados existenciais, etc) carecem de ser contemplados com o sucesso, de maneira que possa fruir de saúde, prosperidade e felicidade.

Otás
À incapacidade circunstancial que o homem tem de compreender as forças e os fatores existenciais que influenciam diretamente a sua vida, tornando-se motivos de dúvidas e receios, criou-se a concepção do Destino.

Muitas vezes, essa incompreensível dinâmica da vida, atuante sobre o homem, faz com que a vida de muitos tomem rumos os mais diversos e inusitados, causando verdadeira perplexidade e espanto. 

Acreditamos, como homens religiosos, na realidade da vida como sendo regulada e diretamente influenciada por forças de natureza espiritual, as quais se sobrepõem à capacidade de apreensão humana, no seu atual estágio consciencial. Em decorrência disso, criamos métodos e estabelecemos práticas para termos acesso a determinados níveis da Realidade Universal, cujos mecanismos afetam diretamente nossas vidas.

Baralho Cigano
Dessa forma, os sistemas oraculares irão trazer à tona determinados fatores preponderantes na vida daquele que os consulte. Serão abertos e colocados em questão ângulos que dirão respeito do passado, do presente e de seu futuro, estabelecendo quais seus vínculos kármicos (anteriores ao nascimento), predisposições psicológicas, situações momentâneas de vida, e finalmente, quais suas vocações para a concretização de seu futuro.

Lembramos que somos possuidores de estruturas sutis que estabelecem a nossa Individualidade como seres humanos (encarnados) e como Espíritos. Nestas estruturas, estão impressas as marcas e os registros acumulados ao longo de nossa jornada como seres imortais.

No que pese não sermos senhores, neste atual estágio, da totalidade de nossa realidade espiritual, estamos vinculados e dirigidos por Consciências Superiores (os Orixás), as quais direcionam nossos Destinos, no ciclo reencarnatório.

Copo de Vidência
No entanto, essa condução impulsiva por parte destas forças invisíveis que imanam por meio de nosso vasto inconsciente, vai aos poucos transformando-se na medida em que o homem, por intermédio de sua capacidade de intuir, logicar e escolher, apropria-se da sua condição como Espírito, assenhoreando-se de suas possibilidades de engrandecimento e plenificação.

O oráculo irá auxiliar o indivíduo a considerar os fatos e circunstâncias de sua própria vida, identificando quais os fatores que correspondem ao seu destino (fatores kármicos) e como este, pela execução de seu livre- arbítrio, poderá conciliar-se com as Leis da Vida, promovendo harmonia.

Justifica-se, portanto, a busca e a validade destes métodos de orientação espiritual, os quais processam-se desde a consulta ao jogo de búzios até a conversa direta com os Guias e Protetores, costumes tão presentes nas nossas práticas.
  
Consulta com Guia Espiritual
Nestas consultas, irão ser contempladas atitudes e comportamentos passíveis de serem adotadas pelo indivíduo, portanto a partir de seu livre-arbítrio, as quais irão conciliá-lo com as forças reguladoras do destino, amenizando impactos danosos e às vezes até desastrosos na falta de tal orientação.

De igual forma, as novas posturas e idéias aconselhadas pelos Guias Espirituais, no momento da consulta, ou pelo jogo divinatório, proporcionarão uma ampliação das possibilidades de amadurecimento psicológico e desenvolvimento ético do indivíduo, sintonizando-o com seu Orixá interior (Deus Interno), dinamizando suas forças próprias e estabelecendo contato com as faixas de luz dos Planos de Aruanda, por onde ampliará a sua consciência diante da Vida e da Realidade, sentindo-se pleno e interiormente gratificado.

Saravá a todos!


Bibliografia Consultada:

Beniste, José (2008). Órun Áiyé - O encontro de dois mundos
Onidajó, Omiran (2007). A leitura da Sorte na Umbanda e no Candomblé
Caroso, Carlos; Bacelar Jeferson (organizadores - 2006). Faces da Tradição Afro-Brasileira
Filho, Fernandez Portugal (2010). Ifá - O Senhor do Destino
Matta e Silva, W.W. da  (2010). Umbanda de Todos Nós
Rivas Neto, Francisco (2002). Umbanda A Proto-Síntese Cósmica
Frias, Rodrigo Ribeiro (2008). Corpus Literário de Ifá: Leituras e Perspectivas (artigo científico)
Ribeiro, Ronilda Iyakemi (coordenadora - 2008). Destino e Liberdade: O oráculo de Ifá 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

As Velas


Por: Gregorio Lucio


"[..]a vela acesa, por exemplo, é tanto um “sinal sensível”, como um importante “transmutador energético” visto que nela estão contidas as quatro forças sutis (cera: telúrica; cera derretida: hídrica; chama: ígnea; fumaça: eólica). Nota-se que nessa explicação a vela não representa as forças sutis, ela é as forças sutis, logo ela é um veículo condensador de energias dos sete raios sagrados no plano material. A vela, nesse sentido, é um símbolo do sagrado ao mesmo tempo em que é o sagrado. Não só a vela, mas todos os objetos presentes no congá (altar) ou utilizados numa oferenda ou num banho – pedras, ervas, alimentos etc. – apresentam esse duplo caráter, metafórico e metonímico, de “representar” e “presentificar” o sagrado" (Chiesa, 2010).

As velas também são conhecidas dentro de algumas casas umbandistas e candomblecistas como murilas.

Lembraremos sempre que a utilização de símbolos, os mais diversos, na prática umbandista, são atos concretos carregados de sentido espiritual, presentificando as forças espirituais provenientes do mundo imanente, invisível.

Assim como o uso das Fitas, tratado em artigo anterior, herdamos também das práticas do Catolicismo Popular a utilização das velas como meios de inter-relação entre o sagrado e o humano. A vela é um dos símbolos religiosos mais tradicionais, e por meio destas é que o homem tentou estabelecer um primeiro contato com o divino.

O princípio foi o fogo, quando os homens primitivos dançavam em volta da fogueira, após terem aprendido a manipulá-lo (uma vez que representava grande ameaça ao homem daquela época),  como uma forma de se relacionarem com uma força dominante e arrebatadora, identificada como a própria divindade.

Nas culturas da Antiguidade Clássica, encontraremos o significado da velas como representantes da sabedoria e da iluminação, bem como da luz da alma imortal. Assim, são utilizadas por diversas religiões, e a relação da Divindade simbolizada pela idéia da chama viva que nunca apaga, consta, por exemplo, na oração não-canônica do Senhor, citada nas Homílias de Orígenes, conforme lemos em Jung (1978): "Ait autem ipsi Salvator: qui iuxta me est, iuxta ignem est, qui longe est a me, longe est a regno" (Quem está perto de mim, está perto do fogo; quem está longe de mim, está longe do reino).


No inconsciente coletivo ficou, portanto, enraizada a simbologia do rito executado em torno da chama, pelo qual o homem buscava harmonizar-se com as forças da natureza, que até então o subjugavam e amedrontavam.

Nas práticas rito-litúrgicas da Umbanda, a utilização da vela efetiva iluminar determinado espaço, fazendo a ligação do aspecto mágico ao religioso, invocando certas vibrações do plano astral para aquele ambiente, naquele instante. Por isso, é comum os congás, os cruzeiros, as ofertas, etc, serem acompanhados de velas acesas, as quais iluminam aqueles elementos, sustentando os pedidos, louvores e agradecimentos.

Quando dispostas no congá, obedecendo à distribuição das cores referentes a cada Orixá, as velas remetem ao significado do Setenário Divino, ou as Sete Linhas de Umbanda e sua mística direcionada a representação dos aspectos manifestos da Divindade Una, o Deus Criador.

Segundo algumas tradições umbandistas, a quantidade numérica de velas a serem utilizadas criam o campo propício para pedidos de ordem espiritual ou material. Sendo assim, sequencias de velas acesas em número par, criam campo propiciatório para tratamento de questões de ordem material (doença física, problemas na justiça, dificuldades financeiras, desemprego, etc); enquanto velas acesas em número ímpar criam campos propiciatórios para tratamento de questões espirituais (sentimentos conturbados, influências espirituais negativas, falta de clareza e sentido na vida, sensação de angústia, etc).


¨Num ritual de Umbanda podemos encontrar estímulos visuais (cores, símbolos, imagens, velas), auditivos (cânticos, toques de atabaque), proprioceptivos (danças), olfativos (defumações, água-de-cheiro, ervas, tabaco) e gustativos (alimentos, bebidas). Não encontramos, apenas, os estímulos táteis no ritual, excetuando-se, talvez, as palmas" (Morini, 2007).

No rito umbandista, encontramos uma série de simbologias que, por meio de um sentido estético, desencadeiam estímulos a serem assimilidados psicologicamente e organicamente pelos presentes. Evidentemente, as velas estão entre aqueles símbolos de natureza visual.

O contato com a imagem simbolizada na vela remete-nos a significações específicas de suas partes, como o seu corpo, com sua coloração específica simbolizando determinado Orixá, e o pavio, sustentando a chama ao longo da queima, simbolizando a energia espiritual, presentificando no espaço a presença da Divindade, em uma corrente de luz que se expande em direção aos céus, como se retornasse, após ter sido evocada, levando consigo as mentalizações que foram geradas no momento do rito.


Portanto, quando acendemos uma vela com determinada intenção, estejamos certos de que neste instante abre-se um portal para o plano astral, por onde ocorrerá, enquanto perdurarem a queima de seus elementos e a sustentação dada pelo pensamento de quem ora ou pede, a passagem de irradiações que irão impactar, mesmo que de maneira limitada, sobre o ambiente e também sobre nós mesmos, promovendo o entrelaçamento do indivíduo com tais irradiações. Por isso, o profundo respeito e a sinceridade de intenção são posturas interiores imprescindíveis para aquele que pretende fazer luzir uma vela, em benefício de alguém ou de si próprio.

Saravá a todos!

Referências:

Morini, Carlos Augusto Trinca (2007). Ritual de Umbanda: A influência dos estímulos somato-sensoriais na indução do transe mediúnico (tese de mestrado)
Chiesa, Gustavo Ruiz (2010). A Umbanda e as coisas: cosmologia e materialidade na experiência religiosa (artigo científico)
Rivas Neto, Francisco (2002). Umbanda A Proto-Síntese Cósmica
Matta e Silva, W.W da (2010). Lições de Umbanda (e quimbanda) na palavra de um Preto-Velho
Jung, C.G. (1978). Psicologia e Religião