domingo, 5 de janeiro de 2014

A Visão de um Adepto: O Templo Religioso como Ambiente Educativo


Por: Gregorio Lucio 

Toda instituição edificada sobre princípios éticos e morais, promovendo a transformação para melhor daqueles que formam a sua comunidade, torna-se, obrigatoriamente, em um Ambiente Educativo, Cultural e Filantrópico, no qual se é dada uma nova proposta e significação para a existência humana. 

Sendo assim, o conjunto de experiências e atividades que constituem o ensino religioso promovido dentro do Templo, formam o manancial de sentidos que cada frequentador deve encontrar para a sua própria jornada, nos diferentes momentos de sua existência. 

O templo religioso é uma verdadeira “escola de almas”

Ou seja, ele deve contribuir para a construção de novos hábitos, para a modificação de comportamentos arraigados, aprimorando o caráter de seu frequentador, fomentando a troca do “homem velho para o homem novo”, uma vez que é imprescindível a reforma interior no adepto para que este esteja integrado a um novo olhar e atitude perante a vida, os quais lhe serão possibilitados pela vivência religiosa. Assim, o templo precisa estar inserido de maneira atuante na dinâmica da vida de relação das pessoas de sua comunidade, produzindo uma vivência religiosa possível de ser integrada na realidade de mundo que circunda o seu frequentador. 

Quando o templo religioso não provoca essas modificações ou falha nesse quesito, não realizando um acompanhamento junto a seus frequentadores e, principalmente, junto aos seus trabalhadores, permitindo que essa atitude de pequenas ações pela melhora seja postergada indefinidamente, o efeito disso é a identificação igrejista da instituição religiosa de Umbanda. 

E o que isso quer dizer? Quer dizer que o frequentador passa a ver o templo somente como um ponto de expressão de seu sentimento religioso. Um lugar para onde vai, junto com outras pessoas, viver experiências que ele não percebe como tendo profunda participação no restante de sua vida diária. Muitas vezes até, essa vivência no templo pode tornar-se composta de intenções particularistas e momentos absolutamente egoístas, pois não há vínculos com sentidos mais amplos naquela experiência. 

Penso que os templos religiosos, mais especialmente aqueles pertencentes ao movimento umbandista, devem se preocupar em oferecer uma possibilidade de vivência interligada à vida cotidiana de seus adeptos. Porque me parece frustrante e descompensador frequentar-se uma “gira” e participar-se de um trabalho espiritual, os quais se repetem dia após dia, conforme ocorre dentro destes templos, e verificar que tais práticas possuem frágeis conexões com aquilo que vivo e experiencio na minha vida fora do ambiente religioso. Vê-se, atualmente, no dia-a-dia de muitos templos de Umbanda, práticas e discursos que encontram-se repletas de crenças mágicas e imaturas atribuições de expectativas sobre os Guias Espirituais, os Orixás, Deus... demonstrando pobres e incompletas relações com a realidade psicológica do ser humano. Quando muito, o que se vê em muitas casas são pálidas tentativas de se relacionar a vida e seus desafios com alguns poucos minutos de ensinamentos evangélicos ou ético-morais, de maneira geral, mas que não deixam de ser lições um tanto superficiais e até desconexas do cotidiano. 

O papel da Instituição Religiosa é, mais do que servir como um lócus cultural para a expressão do religioso, fornecer um conjunto de princípios norteadores para a vida. E essa função inerente ao templo religioso só pode ocorrer por meio da Educação. 

Curiosamente, quando falamos de Educação, observamos um preconceito latente no imaginário das pessoas. O de que a Educação é algo que só se aplica às atividades da infância e da juventude. Como se os ambientes e as atividades que são frequentados, predominantemente, por adultos não necessitassem da aplicação de princípios e métodos educativos. 

A palavra Educação (conforme já tratamos em outro texto) deriva de dois termos do latim “Educare” e “Educere”. Educare significa orientar, nutrir, decidir externamente, direcionando o indivíduo a se transferir, de um determinado ponto em que se encontra até outro ponto onde se deseja chegar. Educere, por sua vez, implica num movimento interior, fazendo surgir do intimo do indivíduo as potencialidades que estão dentro de si e que até então permaneciam desconhecidas.

Naturalmente, existem variações no método educacional de cada templo religioso, contudo, aqueles trabalhadores que constituem a direção da instituição e aqueloutros, incumbidos do ensino, da orientação aos neófitos e da organização das práticas da casa, devem ter esse olhar cuidadoso para observarem as expressões dos seus frequentadores e companheiros de atividades, nunca fatigando-se ao trabalho de corrigir e orientar qualquer manifestação de comportamento menos feliz ou inadequada, sempre com tranquilidade, brandura e educação, embora com austeridade.

Os trabalhadores devem adquirir consciência de seu papel dentro do ambiente religioso, de acordo com suas atribuições e, aqueles que compõem o corpo da direção e da organização da casa, devem também assumir a postura e a condição premente de educadores. Pois, a função do educador é despertar o impulso de auto-educação do educando. O processo de educação é sempre um processo de auto-educação. E, acima de tudo, que a atitude do ensino venha sempre acompanhada do exemplo. Não existe processo de ensino-aprendizagem sem a justa exemplificação prática. 

Porque se meu companheiro pronuncia uma palavra infeliz ou faz uma piada inadequada e eu dou risada junto com ele, ou frequento locais onde ele me vê compartilhando de seus mesmos hábitos, como vou poder corrigí-lo dentro do templo religioso? Aí é que surgem os recursos falidos da educação, como seja o grito, o gesto agressivo, a palavra que fere e que, muitas vezes, atinge também aqueles que nada tem a ver com o comportamento alheio.

Como diria o Espírito Bezerra de Menezes: “Ensinar, mas fazer; crer, mas estudar; aconselhar, mas exemplificar; reunir, mas alimentar”.

O adepto deve, então, encontrar no templo religioso um ambiente consolidado em princípios educativos, no qual lhe seja possibilitado avançar de um ponto a outro em suas questões existenciais e produzir modificações interiores, sinalizadas por momentos simbólicos. A passagem de um grau de iniciação a outro, por exemplo. A amplitude de sua participação em atividades específicas da casa. Por exemplo, existem Centros Espíritas e Templos de Umbanda, nos quais não é permitida a participação do trabalhador que traz determinados hábitos (se fumante, se se alcooliza, se alimenta-se mal) em trabalhos de saúde e cura. A depender do comportamento manifesto do adepto (aqui, dizendo mais especificamente em relação aos trabalhadores da casa) e de como esse empreende a sua modificação (ou não), o seu nível de acesso as atividades e atribuições dentro templo, ficam mais ou menos restritos. 

Sendo assim, a Educação no ambiente religioso é a aplicação de um processo sistêmico de inserção e desenvolvimento de uma série de habilidades e valores no campo psicológico de seus frequentadores, facultando mudanças positivas, tanto intelectuais, quanto emocionais e sociais. 

Se um um novo filho do terreiro chega à casa e identifica que o padrão de comportamento dominante das pessoas é o de se portar de maneira cordata, moderada, respeitosa, denotando hábitos saudáveis, naturalmente, este se sentirá impelido a proceder da mesma forma, mesmo que lhe faltem, naquele momento, conquistas mais profundas neste sentido. Seus hábitos ainda estão arraigados. Suas expressões grosseiras e impulsivas ainda estão consigo. Seus vícios ainda o inquietam. Mas, o ambiente não lhe permite expressá-los, contribuindo para que se veja induzido a ajustar-se a este novo meio, possivelmente, lapidando essas arestas e, gradualmente, abrindo-lhe espaço para novos hábitos, pensamentos e comportamentos. 

De outra maneira, caso seu atual nível de consciência ainda não o permita reconhecer o ambiente e comportar-se adequadamente, naturalmente o ambiente e a postura de seus irmãos de terreiro o neutralizarão em suas expressões, porque não encontrará identificação com a qual possa se alimentar, reforçando-se. Ou, caso não se sinta confortável e suficientemente resoluto em abraçar essa nova proposta, naturalmente, este indivíduo retrocederá, permanecendo como frequentador do templo, mas não vinculando-se a responsabilidades maiores, o que é compreensível.

Agora, se este filho de fé chega com a sua canga de hábitos, vícios, má formação em sua educação do lar, etc., e encontra um ambiente onde impera a indiferença e/ou a omissão daqueles que deveriam servir-lhe como educadores (ou mesmo quando há a boa intenção de orientar, mas sem a devida qualificação e métodos para isso), onde ele possa livremente se expressar e, ainda, contando com companheiros que reforcem esses seus desajustes, consequentemente, fica muito difícil (embora nunca impossível) que ela vá se melhorar, de maneira significativa, a curto e, muito menos, a longo prazo.

Existe um pensamento de Allan Kardec, que este utilizou para definir o “autêntico espírita” e que eu julgo oportuno apresentar: 

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar as suas más inclinações” (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo – cap. XVII) 

Gostaria de pedir licença ao nobre educador lionês (sim, Allan Kardec era professor e pedagogo) para ampliar essa frase e colocá-la ao alcance de todo e qualquer religioso sincero e verdadeiro, incluindo aí a nós, como umbandistas: 

“Reconhece-se o verdadeiro religioso pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar as suas más inclinações”. 

Isso porque esse deve ser o resultado positivo a ser alcançado por todo aquele que pratica uma religião, seja ela qual for. 

Particularmente, não me é concebível uma pessoa passar décadas num dado ambiente religioso e não se modificar de maneira profunda, permanecendo com os seus maus hábitos mais pueris e exteriores. Sempre que isso acontece, automaticamente evidencia-se um fracasso no processo educativo, mesmo considerando-se a possibilidade do livre-arbítrio de cada um. 

Cito Jesus, como o Educador Sublime, o qual nos mostra as mais sólidas regras de Educação. 

Vemos, em diversas passagens dos Evangelhos (Mateus, 12:32, 16:23, 23:27, 52:53; Lucas 3:7, 22:31-32, 17:3, 12:27-28; Marcos 9:19, 14:32-41 e outros) a disciplina e a austeridade de Jesus no trato para com seus discípulos e inquisidores. Isso nos serve como contraposição a visão romântica de que o ser “Iluminado”, na condição de mestre e orientador, é aquele que adota o perfil “bonzinho”, “melífluo” e que “finge que não está vendo” o que ocorre ao seu redor. Jesus agia com brandura e doçura para com os ignorantes, doentes e esfomeados, mas em contrapartida, tratava com severidade e exigência os seus discípulos (pois estes haviam optado por seguí-Lo e dar testemunho das obras dEle e, por isso, deveriam se portar de maneira coerente ao seu Mestre).  Não há um só momento em que, observando comentários e atitudes inadequadas de seus discípulos, Jesus prontamente não os tivesse corrigido e chamado a atenção.

A essência ética da Pedagogia de Jesus está contida no Amor. Mas não nesse amor revestido de romantismo piegas de novela, abobalhado. 

O amor de Jesus Cristo é verdadeiro e se expressa como uma postura exigente e que incita a modificação. 

Confessar amor a Jesus Cristo está íntima e obrigatoriamente ligado em assumir uma vinculação integral a uma proposta ética que lança o individuo a um novo patamar de vida nos seus aspectos individual e coletivo. Isso é muito diferente deste “Cristianismo adocicado” (como dizem alguns teólogos) que mistura frases do Evangelho, conceitos de auto-ajuda e de empreendedorismo norte-americano, conforme andamos vendo proliferar nos núcleos religiosos cristãos da nossa sociedade. 

Ligar-se a Jesus é ter visão crítica e ética da realidade de si mesmo e daqueles que o cercam, tal qual Ele houvera tido. 

Não é uma postura de acordos ou de trocas com o mundo, e muito menos com Deus, pela qual eu moldo minha religiosidade e minha espiritualidade de acordo com aquilo que me é conveniente, sem abrir-me ao esforço da modificação de meus hábitos arraigados e das minhas falhas morais. 

Olharmos a vida de Jesus, contida nos Evangelhos, é percebermos que nele há uma constante postura educativa, repertoriada por diferentes tipos de linguagens. Na Sua ética, não cabe a conivência com o erro e a mentira, conquanto sempre Ele tivera também as palavras, os ensinamentos e o convite para que cada um olhasse não só para as suas debilidades e as chagas morais que todos carregamos, mas também para os potenciais de evolução de que somos portadores, se, e somente se, optarmos por abandonar uns e abraçarmos outros. De outra forma, estaremos sempre em desacordo com a Educação do Cristo. 

Vícios e Virtudes não caminham para o mesmo lado, seguindo sempre sentidos opostos e que levam a consequências também opostas. 

Com Jesus, aprendemos que tolerar e compreender não é “fingir que não está vendo o erro”. Ser bom “não é deixar de corrigir e repreender”. 

Portanto, não se pode haver uma permissão, mesmo que tácita, dentro do templo religioso, para que expressões cristalizadas dos hábitos negativos que “cada um traz de casa” encontrem morada e se espalhem em um comportamento dominante de seus frequentadores. 

Essas situações, inclusive, concorrem para que haja a abertura para a entrada, no templo religioso, daqueles seres que habitam o mundo espiritual inferior e que não querem a melhora real e o beneficiamento profundo das pessoas, iludindo-as quanto a sua verdadeira condição interior. Promover o cultivo da ignorância e da acomodação, insuflar o desrespeito em forma de deboche para com o líder e as regras da casa, a conversação malsã, são maneiras que os adversários das sombras utilizam-se para promover o bloqueio espiritual daqueles que se deixam influenciar pelas suas sugestões, tentando estender o seu raio de ação sobre todos. 

Por isso é que a vivência no ambiente religioso deve servir justamente para que estas expressões possam ser objetivamente cerceadas (cortadas), dando a idéia clara para o frequentador, principalmente se for um trabalhador, de que aquela maneira de se portar, de falar e até mesmo de se vestir não são bem-vindas, pelo menos no ambiente interno à Instituição, cumprindo-lhe adequar-se

Mesmo não sendo possível e nem conveniente perquirir e exigir-se o comportamento do adepto em sua vida privada - no seu ambiente profissional ou no seu lar - resguardando-se à consciência de cada um a análise sincera para identificar se aquilo que expressa no ambiente religioso é coerente com o que manifesta em sua vida particular, é impostergável manter o ambiente interno do templo a salvo destas ervas daninhas, como as expressões desequilibradas, desrespeitosas, maledicentes, agressivas, viciosas, relaxadas, irresponsáveis e irrefletidas de qualquer natureza, que possam colocar em descrédito a instituição, colaborando para o afastamento daqueles mais sinceros e interessados, fragilizando - conforme o tempo em que perdurem - o senso moral de seus frequentadores e, além disso, maculando o nome da religião e a memória daqueles que tanto lutaram, durante anos a fio, para a consolidação daquela instituição e de seu trabalho de natureza superior. 

Para isso, é imprescindível uma atitude clara de austeridade e a comunicação constante, sem enfado e nem perturbação, da não conivência para com posturas inadequadas e situações que desvirtuem a proposta religiosa do templo. 

O Templo não é feito para os Guias, é feito para as pessoas. Os Benfeitores do Espaço vivem livres pelo Cosmo e não dependem de quatro paredes. Portanto, mais do que um mero ponto de convívio social. Mais do que um local onde se presta a chamada “Caridade”. O templo religioso deve ser colocado a um nível que seja capaz de dialogar com as aspirações humanas. Discutir a questão da morte, dos desafios da vida em família, da vida em sociedade, dos cuidados com a saúde, dos dramas interiores, do papel do umbandista no mundo, da ética religiosa, etc. Proporcionando assim que o seu frequentador tenha uma clara percepção psicológica de que a sua atividade religiosa possui conexão com a sua vida, num todo coerente, exigindo de si uma postura condizente dentro e fora do ambiente do terreiro. 

Saliento que o terreiro deve, necessariamente, servir como um local no qual o indivíduo encontre uma nova proposta de vida. Não deve servir, somente, como um lugar para cumprir meras formalidades da sua vida social-religiosa, mediante a sua presença física desvinculada da emocional e o descompromissado comparecimento a festejos e comemorações. 

Fraternalmente.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A Visão de um Adepto: A questão da Missão Mediúnica


Por: Gregorio Lucio 

Uma questão na qual sempre reflito refere-se a idéia da chamada Missão Mediúnica, com a qual os adeptos umbandistas (notadamente os médiuns, “cavalos-de-santo”) estamos vinculados ao longo de nossa trajetória neste universo religioso.

Bem, em princípio seria interessante analisarmos o significado atribuído a palavra “missão”. Diz-se, em nosso meio, que o médium tem uma missão junto de seus Guias Espirituais e perante aos “assistidos” (encarnados e desencarnados) por meio de sua mediunidade. Entendo com isso que, conforme o significado específico da palavra em questão, o médium possui o encargo (a incumbência) que é dado a ele para realizar uma determinada tarefa. No caso, a tarefa seria o beneficiamento de outrem por intermédio do trabalho espiritual feito pelo médium e seus Guias. 

Contudo, devemos ter uma visão mais ampla do que seria esse trabalho espiritual (que nem sempre ocorrerá pela mediunidade, diretamente) sob encargo do médium que lhe cumpre realizar ao longo do ano todo (e não só no Natal, como é a ocasião atual) e durante toda a sua vida, dentro de seus limites e possibilidades, é claro. 

Por exemplo, esse trabalho se expressa de maneiras diversas, como o acolhimento e a ajuda de pessoas necessitadas de um auxílio mais “material e imediato” (alimento, roupas, etc.); a visita, a oração em favor e o diálogo fraterno (não é dar passe, nem consulta espiritual) para com enfermos de seu conhecimento e pessoas em situações difíceis e graves a que venha a ser solicitado a prestar seu concurso; o aconselhamento ético, a educação e o esclarecimento do próximo quanto aos princípios espirituais que são de seu conhecimento, em face de sua vivência religiosa como umbandista (e que, naturalmente, exigem do médium, principalmente, conduta exemplar dentro destes princípios). 

Estou enfocando essas possibilidades de expressão do trabalho espiritual, para que tenhamos uma idéia de que a vivência religiosa, como médium, não está restrita e exclusiva às poucas horas que este possa vir a passar dentro do templo religioso. Como costumo dizer, é fácil ser “bom” e “caridoso” dentro do ambiente religioso (no qual passamos em média 2h, uma ou duas vezes na semana, de acordo com o calendário de cada casa). Até mesmo porque ali, dentro deste ambiente, o sistema de relação que impera (como em qualquer ambiente nobre do convívio social) é o da formalidade. 

Mas, a expressão do trabalho espiritual e da verdadeira ligação do médium para com seus Mentores deve estar num contexto muito mais amplo e profundo do que isso. Deve ser mais do que cumprir uma formalidade de uma atividade religiosa. O trabalho espiritual deve estar em uma profunda associação com o restante de nossas ocupações e da maneira como vivemos o nosso dia-a-dia. Isso é viver a religiosidade de maneira coerente. 

Não é estar todos os dias nos trabalhos do terreiro que irá fazer o adepto ter resultados salutares em sua vida religiosa. Ele pode estar ali simplesmente enquanto não tem “outro lugar para ir”. Por que “um familiar ou amigo frequenta aquele lugar, então ele também vai”. Enquanto ainda dure a sua esperança de que aquele lugar vai “resolver o seu problema”. Enquanto não aparece um novo amigo(a) ou namorado(a) ou enquanto ninguém o convide para uma balada ou outra atividade que lhe seja mais atraente...enquanto... Em outras palavras, a presença de uma determinada pessoa no ambiente religioso pode estar ocorrendo de uma maneira completamente destituída de significados e comprometimentos mais profundos

Lembro que a condição capaz de trazer resultados positivos e plenificadores para a vivência religiosa é a maneira pela qual o médium (ou o adepto, de maneira geral) se entrega e vivencia os momentos em que está ali. Claro que os resultados de uma experiência religiosa positiva só podem ser construídos quando estes ocorrem seguindo uma constância e uma regularidade. No entanto, isso não quer dizer, necessariamente, estar presente em todos os dias, num sentido de obrigatoriedade. 

Pelos diálogos que travo com pessoas pertencentes a direção de atividades em ambientes religiosos (alguns terreiros de umbanda, centros espíritas e igrejas evangélicas, mais especificamente), vejo que o grande desafio que se afigura dentro dos templos é a constante tendência dos frequentadores, de maneira geral, em transformar o ambiente de atividades em um simples centro de convívio social, desprovido de mais amplos significados, como qualquer outro existente (a academia, a roda de amigos, o passeio público, etc.) ou, principalmente, num “refúgio” para os desafios que se apresentam no dia-a-dia. Recordo-me de um companheiro que, no meio de uma reunião espírita, confessou a mim de que vinha para o Centro Espírita “pois não aguentava o choro de sua filha recém-nascida e as exigências de sua esposa”. Fora esse, outros casos que já tive oportunidade de conhecer, pelos quais a vida religiosa é assumida numa tentativa de substituir a realidade do dia-a-dia (dificuldades em lidar com parceiros no ambiente de trabalho, conflitos conjugais, desgaste com filhos, desemprego, problemas sexuais, alcoolismo, drogadição, etc.). E essa, definitivamente, não é a melhor maneira de se resolver a questão. 

A busca pelo ambiente religioso como um ponto de alívio emocional e fortalecimento espiritual para o enfrentamento das dificuldades da vida e dos conflitos interiores é compreensível e natural. Contudo, enquanto o indivíduo não identificar em si quais são esses seus conflitos e as facetas de sua vida que merecem a devida atenção e a conveniente solução, a vivência religiosa não terá um efeito maior do que o de um comprimido para dor. A dor passa na hora (os conflitos se aliviam e a emoção se atenua), mas enquanto o problema não for devidamente enfrentado dentro do seu contexto próprio (se profissional, familiar, afetivo, de saúde, etc.) e solucionado (ou pelo menos, conscientemente orientado), essa experiência sempre será um ciclo interminável e até neurótico (tenho um problema, não me sinto capaz de resolver, corro pro templo religioso, alivio a emoção, volto pra casa; levanto no dia seguinte, surge o problema, me sinto fragilizado, volto pro templo religioso, alivio a emoção...). 

Dessa forma, creio que devemos nos integrar a uma postura amadurecida e entender a “missão mediúnica” como um comportamento consciente e assumido de compromisso, ética e parceria para com os Guias Espirituais. 

Quando o trabalho espiritual feito pelo médium junto a seus Guias está alicerçado, de maneira consciente, nestes 3 pilares (compromisso, ética e parceria), é possível realizar uma adaptação das possibilidades de como este trabalho pode ser feito, ajustando-o a necessidades outras que também se exige do médium, para que estejam em equilíbrio (trabalho, família, estudos, lazer e outras). O médium só pode dar na medida daquilo que tem. Tanto para os Guias, quanto para os assistidos. Importa que sua vida esteja, dentro do que é possível, equilibrada e saudável, para que os resultados de seu trabalho no campo mediúnico possam ser cada vez mais compensadores e gratificantes para si mesmo e para o próximo. 

Compete, portanto, a cada médium, identificar quais são as exigências de sua vida cotidiana e conciliá-las para que seus compromissos possam ser assumidos sem maiores prejuízos para si mesmo, fazendo assim de sua trajetória um caminho contínuo e duradouro, superando todas as suas provas e desafios. 

Temos informações obtidas dos Benfeitores Espirituais de que desde, aproximadamente, 60 anos para cá, não se encarnaram mais espíritos na condição de Missionários. Isso porque estamos atingindo um momento social – portanto, coletivo – em que cada um é chamado a assumir a auto-responsabilidade por sua vida, mediante o esforço pelo auto-esclarecimento, pela auto-consciência e por colocar-se, dessa forma, como sujeito ativo e condutor de seus caminhos, deixando de lado a desculpa e a justificativa de seus erros, para isso escondendo-se atrás dos erros dos outros. Cada um deve responsabilizar-se pelas consequências boas ou más de suas escolhas e de sua conduta, trabalhando para que sejam sempre as melhores e mais acertadas possíveis. 

Ou seja, as Leis da Vida nos convidam, cada vez mais, ao amadurecimento psicológico e a entendê-lo como um processo que não surge por simples ação dos anos, conforme a pessoa envelhece, como pode-se pensar a partir de um “senso comum”. Embora todas as pessoas mereçam sempre o nosso maior respeito, idade avançada e cabelos brancos não equivalem diretamente a maturidade. 

O amadurecimento psicológico surge, ao passar dos anos, como um traço que se destaca naqueles, e somente naqueles, que se colocam como responsáveis diante de sua existência e que adotam essa atitude de refletir sobre si mesmos e trabalhar em seu aprimoramento interior, solucionando seus conflitos, diluindo suas carências, se desvinculando de possíveis frustrações do passado e eliminando, gradualmente, seus vícios e maus-hábitos. 

Esse amadurecimento psicológico (na psicologia junguiana, chamado de individuação) pode ser entendido como a essência daquilo que chamamos, no meio espírita, de “evolução espiritual”

Penso que o médium deve se perceber como uma pessoa comum e que necessita se integrar nos diversos contextos, nos quais a sua presente encarnação o coloca (como profissional, familiar, estudante, cidadão e religioso, todos num mesmo nível e grau de importância). Deve buscar ampliar e diversificar as atividades de seu dia-a-dia, adotando hábitos simples, saudáveis e culturais, justamente para se qualificar mentalmente, desenvolvendo seus recursos espirituais que lhe farão, inclusive, servir melhor como médium. 

Devemos ter consciência de que não vivemos exclusivamente para a Umbanda e, muito menos, da Umbanda. Não alimentemos a falsa ilusão, ou até a presunção, de que estamos “salvando o mundo” por meio da nossa mediunidade e muito menos de que a dedicação exclusiva a vida religiosa nos irá livrar das outras experiências que nos são impostas pelas Leis da Vida. 

Assim, será possível estabelecer, cada um dentro de seu momento de vida, uma programação saudável e conciliadora de seus diversos compromissos. 

Fraternalmente.

A Visão de um Adepto: A Noite Escura da Alma


Por: Gregorio Lucio

Gostaria, nesta nova publicação, de tratar de um assunto pouco discutido ou analisado em nosso meio. Porque envolta em questões que fogem ao contexto dos discursos comuns e, em geral, superficiais, presentes nas comunidades de terreiro, e vinculando-se mais à profundas bases psicológicas da experiência espiritual ao longo da vida religiosa, realmente, torna-se difícil abordar a temática da então chamada “Noite da Alma” ou, “Noite Escura da Alma”, conforme havia sido designada por São João da Cruz, e utilizada pela Teologia Cristã.

A Noite da Alma, ou Noite Escura da Alma, é uma simbologia que se refere a um estado psicológico e espiritual, no qual se apresenta um paradoxo (profunda contradição) interior, pois, embora seja uma experiência iluminativa, esta se caracteriza pela presença de um obscurecimento da alma, dos sentimentos e do sentido religioso, provocando sofrimento.

Talvez pelo fato de que esta experiência sempre o fora relatada entre profundos místicos e pessoas cujas vidas foram dedicadas integralmente à prática religiosa (Madre Tereza de Calcutá teria vivido tal experiência por mais de 40 anos), acabou-se por se desconsiderar que tal experiência é presente também nas pessoas de vida “comum”, principalmente se estas também dispõem, em sua vivência cotidiana, da prática religiosa e se colocam à busca de sentir e vivenciar o Sagrado em sua vida.

Fato é que todo aquele que se vincula, com sinceridade, à vivência religiosa, mesmo não sendo um profundo místico, irá passar, ou já passou, por essa experiência de integração com determinados aspectos desconhecidos (sombrios, noturnos) do seu mundo interior. Mesmo aqueles que não dispõem de uma vida religiosa passam por experiências semelhantes, embora noutro sentido, no entanto, ambas as experiências conduzem o ser humano para um processo de amadurecimento interior e reordenação de sentidos psicológicos para a vida.

Não vou me deter às características da Noite da Alma conforme ela se apresenta, especificamente, na vivência dos místicos religiosos, contudo, irei trazer determinados pontos que se ligam a esta experiência num nível mais comum e próximo a cada um de nós. 

Então, a Noite Escura (da alma) pode surgir na vida do adepto como um estado de perda de sentido psicológico da sua vida religiosa. Um sentimento profundo e inquietante de ausência em relação a Deus e ao Sagrado o invadem, dando margem ao surgimento de várias dúvidas e questionamentos de variadas ordens (doutrinários, místicos, éticos, sociais, subjetivos, etc) que emergem à consciência, ocasionando um sentimento de inadequação, de “estar fora de lugar”. Os atos devocionais, de maneira geral, a prece, a presença nos ritos e, mais particularmente ao nosso meio, o contato espiritual com os Guias e Mentores, embora sempre positivo e saudável, é também caracterizado pela presença de um sentido de penumbra, de obscuridade e de distanciamento psicológico da experiência, tornando-os sofrivelmente insatisfatórios.

O sentido do sofrer, nesta experiência subjetiva do adepto, surge pelo sentimento de desconexão com a Divindade e de afastamento emocional para com os Mentores, aumentando sua frustração pelo fato de que, em muitas vezes, essa experimentação dá-se integralmente numa dimensão interior do médium, difícil, inclusive de ser expressa verbalmente (aliás, me perdoem caso esteja sendo repetitivo em determinados termos, por que justamente é algo bastante abstrato para se colocar em palavras específicas). Juntando-se a isso o fato de que a exposição deste estado interior, geralmente, é extremamente mal interpretada dentro do meio religioso. Muitas vezes é visto como perda, ou falta, de fé por parte do filho-de-santo, por falta de compromisso para com os Guias ou o templo, com melindre, “frescura”, ou, pior ainda, quando se une à visão fanática e ignorante de muitos, terminando por ser interpretada como o afastamento do Orixá por estar em desagrado com o seu filho-de-santo, a presença de obsessão espiritual, demanda, magia negra, etc.

Existem várias linhas de conhecimento que tratam, cada uma a sua maneira, do processo de desenvolvimento psicológico do ser humano. E, seguindo um pensamento de síntese, podemos identificar que passamos, de maneira geral, por períodos em nossa vida em que ocorrem profundas transformações, sejam psicológicas, sejam biológicas e, naturalmente, ocasionando que ambos os aspectos estejam inter-relacionados. Os mais famosos são, sem dúvida, aqueles que compreendem o nascimento, a transição da infância para a adolescência, da adolescência para a idade adulta, da idade adulta para a velhice e, da velhice para a desencarnação. Somado a essas transições naturais, psicobiológicas, pelas quais passamos, existem também as experiências profundas de vida que se constituem como temas importantes e marcantes em nossa jornada: a morte de pessoas queridas, o casamento (e a separação), o primeiro emprego, o desemprego, a dificuldade financeira, a primeira experiência sexual, o nascimento dos filhos (e a desencarnação deles), problemas de saúde, fatos agradáveis junto a amigos, familiares, na vida profissional, enfim....

Estes “temas” comuns, interferem também (lembrando que somos pessoas religiosas, mas pessoas comuns) em nosso estado interior e na nossa relação com a Espiritualidade. Então, é natural que, ao passarmos por alguma destas experiências, soframos os choques que nos conduzam a movimentarmo-nos interiormente a fim de, periodicamente, nos ajustarmos e nos adaptarmos aos novos papéis e sentidos que a vida nos impõe e nos pede. Essas transições causam um relativo estado de sofrimento psíquico, constituindo-se, entretanto, como experiências naturais da vida, mediante as provas que esta nos apresenta. 

Os períodos psicológicos mais propícios para o surgimento da Noite da Alma são os da transição da adolescência para a fase adulta (dos 28 aos 32 anos, aproximados) e da fase adulta para a velhice (dos 50 aos 60 anos). Isso porque ambos se referem a períodos da vida em que é exigida, da parte de cada indivíduo, uma definição clara e com consequências sérias, sobre quais são os seus objetivos diante da vida.

Na entrada para a vida adulta, a saída do lar, a busca pela estabilização profissional, a constituição de uma família, sustentar-se por si mesmo integralmente, etc. Na entrada da velhice, a nova condição de limitação do corpo, a diminuição no ritmo profissional, o esvaziamento do lar, a necessidade de encontrar novas metas, uma vez que as da fase adulta já passaram, sendo conquistadas ou não. Esses dois momentos fazem emergir dois sentimentos estruturantes na experiência propícia ao amadurecimento psicológico: a angústia e o abandono (Jesus: "Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonastes?"- Mateus 24,46).

Assim, o indivíduo que se apresenta imerso neste estado de Noite da Alma, tende a permanecer em períodos maiores de silêncio, não somente dentro do templo religioso, mas em sua vida cotidiana também, numa postura de maior introversão, tendendo também a manter-se mais isolado, em relação à comunidade religiosa.

Um sentimento de tristeza e de desrealização também faz-se presente, muito embora estes não se expressem ao longo do dia-a-dia, enquanto o indivíduo se entretém com as atividades profissionais, familiares, de lazer, etc. De acordo com o contexto de vida de cada um, esse estado pode se caracterizar também por dificuldades em sua vida particular. Projetos não se realizam ou se postergam, de maneira não planejada, ocasionando um aprofundamento neste sentimento de desconexão espiritual e de frustração.

Um fator importante a ser considerado por aquele que esteja, neste momento, passando por tal experiência. Não deixar que seu estado interior interfira, predominantemente, de maneira prejudicial em sua vida cotidiana. E para isso é preciso, exatamente dentro do objetivo deste texto, entender-se esse estado como sendo natural e possível na experiência religiosa e espiritual, pois é um processo de nossa consciência “movendo-se” para uma nova ordenação de sentidos de quem somos e de qual o nosso papel diante da Vida e de Deus. É um processo de tentativa para se atingir um nível mais amplo e elevado de consciência.

Saliento que, enquanto dure a Noite da Alma (não há um tempo preciso para início e término, depende da experiência de cada um), o indivíduo não perde sua fé, nem sua crença nos Guias, Orixás e em Deus, tão pouco deixa de estimar e gostar de seus irmãos de comunidade. No entanto, está vivendo um estado de introspecção, convidativo à períodos maiores de meditação e reflexão em torno de sua vida e de seus objetivos existenciais. 

Contudo, conforme já dito, é preciso entender, tanto aquele que vive a experiência, quanto aqueles que o cercam (até porque, cedo ou tarde, passarão, se já não passaram, pela Noite da Alma) que esta condição interior não deve se tornar um tormento insuportável que atrapalhe sua vida, de maneira geral. Isso é um processo para o atingimento de um novo estado psíquico (que não tem nada de mágico ou fora daquilo que não seja natural à condição humana). Compreender essa experiência é importante pois, caso contrário, pode gerar um sentimento de grande conturbação, acarretando num impulso inconsciente para o abandono e a renúncia de tudo quanto o indivíduo até então acreditava e se dedicava, como sendo fundamental para a sua vida, gerando processos maiores de sofrimento injustificáveis, pela atitude impensada, inconsciente e imatura.

Dessa forma, uma vez tocado pela Noite da Alma, permita-se o indivíduo à presença da dúvida diante de Deus e de tudo quanto essa dúvida se mostrar. Permita-se, sem culpas, vivenciar essa insatisfação e esse sentido de desconexão espiritual. Natural até, que sua presença na vida religiosa, durante esses períodos de “noite" e “escuridão”, se faça menos frequente e preenchida por um sentido de vazio. Não se culpe por sentir-se insatisfeito e incompleto, conquanto também não transfira para os outros as causas da sua incompletude e insatisfação (por mais que muitas vezes outros, principalmente no meio umbandista, nos dêem muitas razões para isso). 

Deixe, sem medos, que esse Deus “morra” (ou seja, a experiência interior com Deus, que até então havia sido construída e acomodada dentro de si) para que possa renascer, renovada. Para Deus e para Cristo (no caso daqueles que são cristãos), assim como para os Orixás, se de fato eles existem, não há problema algum que você os esteja repensando e reelaborando as suas experiências com eles dentro de si mesmo. 

Certezas inabaláveis e inquestionáveis. Idéias que não se transformam e não se ampliam. Fé que não raciocina, que não interroga a si mesma e que não dialoga com a realidade interior e exterior ao indivíduo, em geral, são indicadores graves de uma perigosa acomodação espiritual. Não nos deixemos tornar, conforme a letra de um rock inglês, muito famoso, que tenho ouvido muito ultimamente, “confortavelmente entorpecidos”.

Contudo, persevere o indivíduo em sua busca por alcançar novos sentidos na sua relação com a Divindade e com a Vida. Não abandone a prática da prece e da oração, mesmo que nestes momentos se façam mais sofríveis e, até, frustrantes. Não se dê licenças morais para “experimentar” tudo o que até então não se permitia, justificando-se em seu estado de obscurecimento, o qual é, conforme já dissemos e ressaltamos, perfeitamente natural. E, se esse sentimento tiver um peso emocional muito grande para ser suportado, talvez por que esteja se ligando a outras questões emergentes de ordem psicológica, nada mais saudável que buscar um aconselhamento e um acompanhamento com um profissional da área.

Aplique-se em reservar momentos diários, mesmo que breves, para meditar e refletir, consigo mesmo, sem censuras nem repreensões para si mesmo, em torno da razão destes sentimentos que o invadem e, aos poucos, com o passar do tempo, irão surgindo novas possibilidades e novos sentidos para o existir e para co-existir em Deus, proporcionando um gradativo amadurecimento interior, preparando-o para novas e mais amplas experiências que se sucederão.

É necessário coragem para o auto-enfrentamento. Atravessar os vales escuros dos quais estamos repletos interiormente, pela condição de seres humanos, ainda rumando para a conquista da iluminação interior e da libertação do sofrimento. Entretanto, essa libertação iluminativa só ocorre quando mergulhamos em nossa escuridão tonando-a consciente em nós. Lembremos que a Luz surgiu das Trevas e não o contrário. 

Muitos ainda fogem deste enfrentamento, por maiores e contínuos sejam os convites da vida para tal cometimento, derrapando, alucinados pelas distrações da vida social, dos hábitos perniciosos, do cultivo de tudo quanto se perde ao longo do tempo, tentando postergar o dia em que deverão olhar para dentro de si mesmos e se auto-enfrentarem, e despertarem diante de seus medos, dúvidas, frustrações, angústias, aflições, etc.

Por mais dolorida e sofrível, seja essa a oportunidade de acender uma luz no seu mundo interior, para a conquista de um novo patamar em seu estado subjetivo, de maneira a viver saudavelmente as experiências a que somos convidados a nos integrarmos conscientemente. 

Saravá a todos.

A Visão de um Adepto: Pelo Amor ou pela Dor


Por: Gregorio Lucio

Nós tomamos lições da Vida e evoluímos interiormente “pelo amor ou pela dor”.

“Pelo Amor ou pela Dor”. 

Esse termo é muitíssimo falado e conhecido no meio espiritualista, notadamente, tendo sua origem na cultura espírita-cristã aqui no Brasil.

Refletindo a respeito do assunto, gostaria de tecer alguns comentários a respeito dessa máxima e, também, propôr aos amigos alguns momentos de meditação a respeito, servindo-nos de um referencial um pouco mais psicológico do tema em questão.

Digo isso porque muitas vezes interpretamos esse ensinamento derivando nosso olhar para o fato de que muitas vezes nos recusamos, diante das mais variadas provações da vida, a aprendermos a lidar com elas nos utilizando das melhores “virtudes” de que podemos dispôr. Isso sempre nos leva a uma interpretação exclusivamente Moral da nossa maneira de agir ou re-agir a uma dada dificuldade (interna ou externa) e nos faz pensar em questões de “certo” ou “errado”. 

Contudo, em se tratando de uma abordagem humanística, a qual desejo compartilhar com os amigos, essa não é a maneira mais eficiente de se pensar a questão. O aspecto moral, muitas vezes, nos castra e nos conduz a um sentimento de culpa e de auto-punição por não sabermos lidar com aquilo que ainda não nos sentimos capazes ou do que ainda desconhecemos em nós. A interpretação puramente moral (muito comum nos ambientes religiosos, embora a sua validade), sempre nos limita a compreensão mais ampla acerca daquilo que envolva a realidade humana.

Entendemos, com isso, que lidar com as dificuldades servindo-nos da paciência, da tolerância, da compreensão, da disciplina, da fé e da oração, trabalhando ativamente e esperando com serenidade a resolução dos problemas, é passar pela experiência da provação e adquirir o aprendizado espiritual (amadurecimento) “pelo amor”. De outra forma, lidar com os obstáculos existenciais (sejam dificuldades externas a nós, ou nossas limitações interiores) por meio da revolta, da inconformação, da ansiedade descontrolada, do pessimismo, da agressividade, ou apelando para mecanismos doentios e externos para a fuga da realidade (cigarro, bebida, alimentação em excesso, gastos compulsivos, etc.) nos liga ao processo da “dor”, a qual advirá, sempre, mas também com a finalidade de nos trazer aprendizados, embora de maneira muito mais demorada e, invariavelmente, nos exigindo que refaçamos as lições e passemos pela prova por uma segunda vez (ou mais, até que consigamos passar por elas).

Enquanto nos demoramos, ignorando ou resistindo às necessidades de mudança na nossa maneira de olhar a nós mesmos e, consequentemente, a vida que nos cerca, colhemos os frutos, muitas vezes amargos, como pagamento da condição em que nos encontramos. Enfermidades variadas, crises financeiras, desemprego, dificuldades afetivas. Partes de sua causa (quando não, sua totalidade) estão enraizadas no desajuste e na inconsciência que detemos acerca de nossas próprias necessidades e potenciais íntimos, os quais permanecem, por longo tempo, imersos em nossa sombra psicológica.

Não quero que os amigos entendam a “sombra psicológica” como a presença do Mal, em nós. Não é isso. Embora seja verdade que todos nós, na condição de seres humanos, estamos ligados a essa dualidade existencial, carregando o Bem e o Mal em nosso íntimo. Independente se aceitamos isso ou não. Mas, a sombra psicológica não se refere a uma mera questão moral (bem ou mal). A sombra psicológica refere-se a tudo aquilo (de bom ou “não tão bom”) que permanece desconhecido ou reprimido em nós mesmos. Isso inclui conflitos, traumas, idéias ou desejos reprimidos, frustrações, lembranças desagradáveis, assim como, potenciais desconhecidos, qualidades não descobertas, faces da nossa personalidade ainda não exploradas, o nosso “vir-a-ser”.

Quando não conseguimos “jogar luz” sobre esses conteúdos que estão em nossa sombra, permanecemos ignorando-os. Entretanto, o fato de os ignorarmos não significa que eles não nos influenciam ou, até mesmo, determinam muito da nossa maneira de ser, de agir ou re-agir perante tudo aquilo que “mexe com a gente”. 

Os conteúdos psicológicos perturbadores que carregamos possuem cargas emocionais de grande força para orientar as nossas reações diante das situações e das pessoas com quem lidamos e, muitas das vezes, nos impelem na direção de adotarmos as piores entre as reações possíveis (pessimismo, tristeza, agressividade, compulsão, etc.), obscurecendo nossa capacidade de escolhermos as melhores (serenidade, compreensão, esperança, etc.). Naturalmente, essas reações são mecanismos espontâneos de “defesa” e possuem a finalidade de nos proteger do contato “direto” com faces da nossa realidade psicológica interior, perante as quais ainda nos encontramos imaturos para lidar.

E, enquanto não tornarmos esses conteúdos conscientes, trazendo-os, um a um, para o centro da nossa consciência, identificando-os, refletindo a respeito de suas origens e de que forma eles estão afetando nossa vida, eles permanecerão lá, no nosso “porão” interior, mas como forças ativas que ficam “empurrando” sem parar a nossa mente, cada vez com mais intensidade (e causando mais sofrimento). Por isso, não devemos nos olhar com repreensão e punição quando não conseguimos agir da melhor forma possível. Devemos, reconhecer nossas reações e compreender as que são “legais” e as que não nos fazem bem e, aos poucos, irmos substituindo-as por outras saudáveis. É um processo de re-educação e de auto-consciência. Sempre respeitando nossos limites, embora sem nos acomodarmos com eles (os limites). 

Mesmo os conteúdos positivos, enquanto permanecem na sombra, também causam estados perturbadores, pois eles estão, assim como os demais conteúdos psíquicos, impulsionando a sua liberação, o seu reconhecimento, mas como permanecem nessa zona obscura de nosso íntimo, eles geram estados de apreensão e de angústia, até que sejam, enfim, liberados pela consciência e possamos deles nos apropriar. Nesse ínterim, todos eles estão lá, chocando-se contra as “paredes” do nosso inconsciente, tentando subir à superfície, até o dia em que tomemos a decisão de os encarar, “iluminá-los” e diluí-los, para que sejam transformados em energias renovadoras para a nossa saúde emocional e espiritual. 

Sinceramente, não há outro caminho. Não há religião, mediunidade, caridade, apometria, trabalho espiritual, vela, passe, benzimento, banho de mar, crucifixo, patuá, descarrego, que possa resolver. Nossas crenças e nossa religiosidade são importantes e tem o papel comprovado de aliviar as tensões interiores, mas nunca o de resolvê-las. Trocar de carro, de casa, namorado(a), esposa(o), a marca do cigarro ou a dose de bebida, também não resolve. Nada. Tudo isso, embora digno de respeito, é infrutífero, possuindo resultados apenas superficiais. 

Somente quando há o esforço e a vontade de encarar a si mesmo, auto-analisar-se, e modificar o olhar sobre a sua realidade interior é que o indivíduo torna-se capaz de produzir a iluminação psicológica e espiritual. E, se sozinho não sou capaz de fazê-lo, nada mais justo que buscar apoio psicológico diretamente com um profissional, o qual pode ajudar a facilitar esse processo de auto-descoberta. Procurar um médico (do clínico geral ao psiquiatra) diante da enfermidade, sempre. Grupos de meditação (desde que sérios, como a Brahma Kumaris), de apoio terapêutico e a constelação familiar, também são válidos. Não há mal nenhum nisso. Psicólogo, analista, etc., não são “para loucos”. São, justamente, para “não ficar louco”.

O “amor ou a dor” nos levam para o amadurecimento, invariavelmente. Tudo isso porque eles são recursos que estão em nós por ação da Lei de Progresso (Lei da Evolução Espiritual), a qual se encontra “escrita” nas estruturas da nossa consciência. Não nos esqueçamos de que todas as Leis de Deus estão gravadas em nossa consciência. As Leis Divinas, em verdade, não estão em livros, em templos religiosos, em práticas formais da relação com Deus. Essas são expressões sociais, sempre respeitáveis, naturalmente, dessa relação que cada um deve, intimamente, estabelecer com o Sagrado, independente do local, da roupa, da situação ou de qualquer circunstância exterior em que estejamos. Por que, tudo que é externo nós podemos mascarar, driblar, “fazer parecer”. Mas, das Leis Divinas que estão insculpidas em nosso mundo interior, as quais nos ligam diretamente ao Divino, dessas nós não podemos fugir.

Não há destinação ou determinismo para continuarmos sendo sempre o que somos, com os mesmos hábitos, mesma conduta e a mesma maneira de nos colocarmos diante da vida. A vida nos impulsiona para, mesmo sem querermos, lidarmos com nossas facetas desajustadas afim de que as resolvamos e nos libertemos as algemas que criamos durante os períodos de inconsciência. Da mesma forma, enquanto fazemos esse processo de limpeza e reorganização interior, a Lei de Progresso nos possibilita identificar muitos traços positivos e saudáveis que também estão em nós (não são externos e nem fruto de nenhuma Graça Divina), mas até o momento não reconhecidos.

Jesus Cristo, quando afirma, em João 10:34 “Vós sois Deuses”, deixou gravado justamente que o nosso “vir-a-ser” está contido em nós mesmos. Não é o resultado de uma força externa, mas a conquista de um esforço interior que cada um deve empreender para o seu próprio amadurecimento e sua própria ascensão. Não temos como renunciar ou escapar a isso. Ninguém fará por nós. Em nenhum lugar, em nenhuma religião, com nada que seja externo a nós mesmos. Aliás, nem Ele o fez. Por isso estamos aqui, mais de 2.000 anos depois, ainda tentando acertarmos essa lição.

Que o Mestre Divino esteja conosco, sempre.

Fraternalmente.

A Visão de um Adepto: O Processo de Ensino-Aprendizagem na Umbanda


Por: Gregorio Lucio

Pensando a respeito do processo de ensino-aprendizagem, na cultura umbandista, gostaria de compor algumas linhas sobre o tema.

Diferentemente de um fato que ocorria no meio umbandista até poucas décadas atrás (até a década de 90), em que pouquíssima coisa havia sido registrada e transmitida utilizando-se do recurso do livro e, posteriormente, da internet, hoje, vemos uma grande proliferação de obras literárias (acadêmicas ou não) tratando especificamente da Umbanda, sem contar outras falando das demais religiões pertencentes à cultura afro-brasileira, assim como uma grande diversidade de sites e blogs na internet, nos quais também existem conteúdos e informações (embora muitas vezes repetidos ou plagiados) a respeito deste universo religioso.

Não pretendo julgar a validade ou a qualidade do conteúdo presente nestes livros ou na internet, pois, naturalmente, existem aqueles de valor considerável e aqueloutros que, de fato, não merecem nenhuma consideração, tamanha a pobreza de idéias, a quantidade de conceitos equivocados, visões de mundo distorcidas, etc. 

E nem preciso ir muito longe. Pegando um autor famoso no meio, Rubens Saraceni, cito 4 livros de sua autoria e de seu “preto-velho” Pai Benedito de Aruanda (que teria sido Dante Alighieri), "Código de Umbanda", "O Livro das Energias", "A Gênese Divina dos Orixás" e "O Código da Escrita Mágica Simbólica" (sem contar aqueles livros tratando das histórias de Exus, como o Guardião da Meia-Noite e outros).

Tais obras contém uma infinidade de erros, omissões, prolixidades e falhas de informação no que se refere:
  • História das religiões: dizer que o Judaísmo é a religião mais antiga do mundo, quando qualquer pessoa que tenha feito até o ensino médio sabe, ou deveria saber, que a religião mais antiga da humanidade hoje é o Hinduísmo; 
  • Falhas em conceitos sobre mediunidade: 1º o autor diz que NINGUÉM, em nenhuma religião, filosofia ou doutrina espiritual, jamais tinha tratado do campo vibratório do médium...acho que ele nunca leu André Luiz, que desde 1940 fala disso, sem contar Matta e Silva, escritor Umbandista, que já desde 1959 escrevera a respeito deste assunto. 2º ele afirma que os médiuns na Umbanda trabalham, em determinadas linhas, incorporados com seres de natureza “extra”-humana, como elementais e outros, pertencentes a dimensões distintas do plano espiritual humano. Outro erro crasso, porque o mecanismo mediúnico ocorre pela ligação mental entre seres de mesma natureza. Naturalmente, os seres que estão envolvidos no mecanismo mediúnico podem ser mais ou menos evoluídos uns que os outros, mas jamais pertencentes a naturezas diferentes; 
  • Erros científicos clamorosos: só pra citar alguns básicos, afirmar que a partícula nêutron tem carga positiva..ou, que “a noite as plantas absorvem gás carbônico e liberam oxigênio durante o dia”, ou ainda que “nosso ar é uma combinação de vários gases no qual predomina o oxigênio”...
Tudo isso contido em obras que se dizem de Teologia e Doutrina de Umbanda...já pensou uma pessoa que não é da Umbanda, mas tem conhecimento, e pega esses livros pra ler? O que ela vai pensar da nossa religião...

Estou citando esses “pequenos” exemplos de erros deste autor, não porque eu tenha nada contra ele, absolutamente. Somente porque ele figura entre os mais famosos no meio. Outros, que nem são famosos então...é de chorar.

Bom, isso a parte...quero enfatizar que o processo de ensino-aprendizagem na Umbanda está diretamente ligado à transmissão oral (oralitura) e a experimentação multissensorial (que não envolve somente o uso do intelecto, mas de outras funções e percepções psíquicas). Ou seja, nesta prática religiosa, o conhecimento é transferido na interação direta e pessoal entre Pai (Mãe)-de-Santo e Filho-de-Santo, a qual ocorre pelos ensinos que são ministrados durante o dia-a-dia dos trabalhos – antes, durante e após estes –, nos ritos especiais e nas atividades específicas de iniciação (as obrigações, preparações ou amacis, de acordo com o termo usado em cada casa) pelas quais os adeptos passam, ao longo do seu aprendizado mediúnico.

Ter contato com os objetos e elementos do culto. Sentir os pés descalços no chão. Ouvir o som dos cânticos e dos instrumentos. Orar em silêncio. Rezar em comunhão com o irmão de terreiro. Mãos dadas. Observar o multicolorido das roupas, fitas e velas. Sentir os aromas das ervas, das defumações e das flores do ambiente. Perceber-se em transe, tomado por uma energia fora de si-mesmo. 

Tudo isso compõe um processo de aprendizagem que envolve múltiplas sensações e percepções, ampliando a experiência psicológica e espiritual pertinente à Umbanda. Trata-se de um conhecimento experimental, de um saber-fazer que só pode ocorrer na prática e na experimentação direta e interessada nas giras, nos trabalhos espirituais de toda e qualquer natureza que se desenvolvem dentro do terreiro. Essa condição que é dada ao filho-de-santo, a de “estar presente”, é que colabora para a gradual construção de uma “compreensão intuitiva” a respeito da realidade espiritual e dos sentidos profundos que estão “velados”, ocultos, nos trabalhos espirituais.

Dessa forma, na Umbanda, a porta para o acesso ao conhecimento espiritual está em “sentir” e “viver” esta forma de religiosidade. Ou seja, a aprendizagem de maior valor para essa cultura religiosa pertence ao que vem “de dentro” do adepto e não, necessariamente, às formas externas de aquisição de conhecimento. Ao longo dos anos, a relação subjetiva, interna e particular, com as entidades espirituais e com o seu Mestre Espiritual (Pai/Mãe-de-Santo) implica em revelações que vão sendo abertas para o médium a pouco e pouco.

As ferramentas para a aquisição do Saber, na Umbanda, dentro desta perspectiva “desde de dentro” do médium são as intuições, as descobertas interiores, as revelações, a dedicação, o interesse pessoal e o dom (aqui entendido como a capacidade inata do indivíduo de captar e receber orientações diretas do mundo espiritual). Todos esses fatores remetem a compreensão de que o modo de aprender na Umbanda está ligado a uma tradição que é vivida dentro do terreiro, aprendida e repassada, principalmente por meio da memória e da oralidade. 

Falando da oralidade, quero dizer que a fluência do ensino é transmitido da “boca ao ouvido”. Da boca do Chefe de Terreiro ao ouvido do(s) médium(ns). Isso tem uma força simbólica muito grande, pois ouvir diretamente um conhecimento transmitido por aquele que tem o papel reconhecido como o de Mestre, vai muito além do que ler algo distante e descontextualizado daquela tradição na qual o médium está inserido.

Entretanto, a Umbanda não marginaliza a leitura como fonte de conhecimento. Não há uma oposição ao livro ou a leitura. O que acontece é a acomodação da cultura literária como sendo uma experiência de segundo plano, complementar, e não a experiência central para a transmissão do conhecimento. Essa experiência central, quero ressaltar, pertence ao campo da experiência pessoal e subjetiva, da transmissão oral entre Mestre e discípulo e da memória conservada ao longo das gerações dentro do terreiro. 

Devemos compreender que os livros cuja temática é a Umbanda, colaboram para trazer esse universo religioso para uma dimensão menos marginalizada em nossa sociedade (pois nossa sociedade atual valoriza mais a linguagem escrita do que outras formas de linguagem). Podemos ver que atualmente há um interesse crescente por parte de historiadores, antropólogos, cientistas da religião, psicólogos entre outros pesquisadores no mundo acadêmico, em estudar a Umbanda e divulgá-la como um fenômeno religioso válido e com uma cultura rica e saudável, ao contrário do estigma que fora criado sobre a Umbanda, taxando-a como uma seita esdrúxula, repleta de crendices e práticas perigosas para a saúde psiquiátrica das pessoas.

Contudo, os livros, os blogs (inclusive esse que você lê) e os sites tratam sempre de aspectos externos, genéricos e superficiais da Umbanda. Eles falam daquilo que “pode ser falado” abertamente. Por isso, o cuidado que o adepto sempre deve ter ao ler e analisar tais obras a respeito daquilo que elas trazem e ensinam, pois muitas das vezes os livros estão refletindo o pensamento próprio do seu autor dentro daquela tradição que é seguida por este e que, naturalmente, não cabem dentro da tradição que seguimos particularmente. Vale como um ponto de informação e reflexão, mas nunca como “pedra de toque”. 

Os livros (os que detém conteúdos coerentes, é claro) também nos ajudam a entender a Umbanda como um fenômeno religioso, compreendendo seu desenvolvimento histórico e social, ensejando que tenhamos uma visão crítica/analítica de nossa religião, reforçando nossa identidade cultural-religiosa e sabendo situá-la perante a sociedade em que estamos inseridos.

Assim, enfatizo que as obras umbandistas (e espiritualistas em geral) são um recurso valioso para o médium e demais adeptos, mas que têm seu lugar bem definido e delineado na prática Umbandista.

Os conhecimentos centrais e profundos só são acessados pela experiência na prática cotidiana, no “estar presente” e interessado no terreiro, e pela transmissão oral, de “boca a ouvido” entre Pai(Mãe)-de-Santo e Filho-de-Santo...entre Mestre e discípulo.

Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:
Chaves, Kelson G.O. (2012). Umbanda: Saberes e Tradição mágico-religiosa (in. Da Minha Folha, Múltiplos Olhares Sobre as Religiões Afro-Brasileiras)