quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A Realidade Espiritual do Terreiro de Umbanda



Por: Gregorio Lucio

Vimos expondo, conforme publicações anteriores, as relações existentes entre o médium e seus guias espirituais - no campo da prática mediunista - e estabelecendo considerações, embora sumarias, em torno de determinadas características semânticas observadas nos ritos umbandistas, quais sejam a dança, a curimba, o ponto riscadoas ervas, as oferendas, a magia, as roupas litúrgicas, o transe, entre outras.

Cremos agora ser o momento de estabelecermos algumas considerações em torno dos aspectos que relacionam-se com as percepções de natureza espiritual, seus desdobramentos dentro da experiência mística, identificando-as com as movimentações que dão-se no plano espiritual, ao longo da gira, as quais implicam na elaboração de um discurso e interpretação de natureza interior e particular de nossas experiências nos ritos de Umbanda, as quais intentaremos, por ora, transmitir aos amigos leitores e irmãos de fé.

Entendemos ser o rito umbandista uma prática religiosa de caráter coletivo, no qual cada participante comunga com o outro a experiencia espiritual.

Desta forma, compreenderemos que cada indivíduo que se integra aos trabalhos da casa (mesmo aqueles sentados na assistência, bem se diga), trazem para o interior do terreiro todo o conjunto de suas possibilidades psíquicas e anímicas, assim como todo o complexo de suas relações espirituais, identificadas diretamente com sua existência. Assim, cada participante do rito traz ao terreiro os seus protetores espirituais e depositam ao longo do rito, na irradiação (egrégora) formada ao longo dos trabalhos, a sua contribuição em benefício de si mesmo e de todos quantos estejam compartilhando do momento da gira.

É de conhecimento, "senso comum", no meio umbandista que os espíritos Guias iniciam um processo de maior estreitamento de suas energias com as de seu médium (cavalo), num período de 24
horas antes do inicío dos trabalhos espirituais. Isso implica no conhecimento de que há, adrede programado, um relacionamento estabelecido entre as estruturas psíquicas do medianeiro com as de seus Guias, os quais irão penetrar em seu campo consciencial de maneira ostensiva nos momentos de transe, culminando na realização de sua função mediúnica e aplicando-a na experiência religiosa.

De tal sorte que o cavalo de Umbanda deve preparar-se ritualisticamente para o seu mister como medianeiro. O recolhimento, a oração, os banhos de defesa e a iluminação de suas correntes, conforme recomendação de cada templo, deverão ser práticas presentes em sua vida religiosa.

Isso porque serão trazidos ao campo de influência de sua aura (irradiação) não somente aqueles espíritos que irão comungar com o médium no momento do transe, mas também aqueles espíritos que encontram-se "adormecidos" no plano espiritual ou que estejam influenciando negativamente determinada pessoa ou local. Compreendamos tal fato ao considerarmos que o indivíduo-médium, ao propôr-se a realizar a sua iniciação espiritual, passa a ampliar as suas relações com o mundo espiritual, levando-o a um maior estado de sensibilidade das influências espirtuais (positivas e negativas) verificadas em determinados ambientes e pessoas.

Porque ilumina a sua consciência com a Luz espiritual que adquire na senda mediúnica, passa a servir como farol àqueles que ainda encontram-se na escuridão e necessitam do "choque" com as suas irradiações para recuperarem a lucidez espiritual. Encontrando-se preparado, disciplinado, e consciente de sua responsabilidade como médium, poderá servir como instrumento útil aos Mentores de Luz no socorro aos necessitados do mundo espiritual, sem sofrer com isso nenhum prejuízo ou desgaste.


Voltando à questão coletiva da prática umbandista, gostaríamos de enfocar algumas percepções a respeito de particularidades do rito umbandista e seu campo de influência espiritual sobre os participantes e também sobre toda a região física e extra-física que pode ser alcançada pelas irradiações do templo, a depender de seus propósitos de trabalho e compromisso diante das Leis de Umbanda.

Movimentando as consciências de todos, no momento irmanados no sentimento religioso, para um estado de equilíbrio psíquico, o rito Umbandista efetiva desvincular os presentes (encarnados e desencarnados, sempre vale lembrar) de mecanismos emocionais perturbadores, afastando influências espirituais negativas e dissipando acúmulos de energias nocivas. 

Lembremos que a proporção de seres habitantes do mundo espiritual é cerca de 8 vezes maior do que a população da Terra, portanto, o número de assistidos na dimensão astral é significativamente maior do que a quantidade de pessoas encarnadas presentes ao Rito.


Assim, a Corrente Espiritual da casa reúne em torno de si todos aqueles espíritos que serão atendidos e encaminhados para as paragens de refazimento e orientação, na Aruanda Maior.


Fazem isso, com a participação muitas vezes inconsciente da corrente mediúnica da casa, proporcionando quadros de profunda beleza, quando unem-se as irradiações espirituais produzidas pelas mentalizações coletivas (expressas ritualisticamente por meio dos pontos cantados e das orações), com aquelas provindas de instâncias superiores de Aruanda, evocadas pelos Guias no momento do trabalho, manifestando simbolos universais e plasmando-os no plano astral, sub cujo impacto abrem-se portais de luz (que geralmente podem ser vistos pela clarividência cintilando no centro do congá ou no "centro ritual" do terreiro), para onde são atraídos os espíritos recem-desencarnados ou aqueles tantos ainda doentes e inconscientes de sua condição espiritual.

Os Mentores de Luz também reordenam no mundo astral as forças que se tornarão vinculadas aos sustentáculos vibratórios do templo de Umbanda (o congá, suas firmezas, seus pontos, etc), integrando-as ao seu campo de influência e expandindo, consequentemente, as dimensões do templo no plano astral. Daí, imaginemos, uma casa com um tradição sólida, vivenciada durante anos e anos na prática do bem e da caridade, e poderemos vislumbrar o quão extensa pode ser a "amplitude espiritual" de um terreiro de Umbanda.

Quando presentes à gira de Umbanda, todos aqueles que nela encontram-se (médiuns ou não) são envolvidos pelo campo de atuação espiritual do terreiro, ao qual entregam, mesmo que de maneira inconsciente, todo o complexo próprio de seu mundo interior (estado emocional, memórias, conflitos, rogativas, etc), sendo este prontamente assimilado por essa "alma coletiva" formada e movimentada dentro do templo.

Esse campo "psíquico-coletivo" é acessado pelos Guias da casa e invariavelmente observado por
aqueles (espíritos) que incumbem-se de trazer ao plano existencial os meios de influenciar o campo de consciência de todo filho-de-fé que pede, que ora, que agradece, plantando em seu mundo íntimo, por meio da inspiração, as disposições e possibilidades criativas de encontrar novos rumos para a sua vida, mediante a realidade de cada um.


Vemos, portanto, que a atuação espiritual realizada pelos Guias de Umbanda realiza-se, não de maneira fantástica e repleta de episódios sobrenaturais (como quer a fantasia de muitos), mas de maneira sutil e contínua sobre todos, buscando inspirar idéias e comportamentos novos ao filho-de-fé, facultando que este possa libertar-se do julgo dos conflitos existenciais e abrir-se a novas possibilidades em sua vida, contribuindo primordialmente para que este aprenda e desenvolva a gratidão, a paciência, a humildade, a caridade e a compaixão, que são atributos psicológicos dos indivíduos maduros e seguros diante da Vida.

A prática da oração (feita de coração, com atenção, e não somente repetindo palavras decoradas, de maneira compulsiva) é o elo que possibilita ligar-nos aos Guias de Luz de nossa Umbanda, e será ela (a oração) o fio condutor de nossos pensamentos com os planos superiores da Vida, capaz de integrar-nos à própria Divindade, em cujo contato poderemos aurir, das fontes inesgotáveis de Amor e Paz, a Serenidade e o Equilíbrio necessários para podermos aliviar nossos sofrimentos e superarmos nossos desafios íntimos.

Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:
Chiesa, Gustavo Ruiz (2011). A Umbanda e as Coisas: Cosmologia e Materialidade na experiência religiosa (artigo científico).
Rivas Neto, Francisco (1996). Fundamentos Herméticos de Umbanda
Radin, Dean (2008). Mentes Interligadas



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A Demanda (Continuação)


Por: Gregorio Lucio

Temos aprendido, a respeito das ligações estabelecidas entre mentes situadas em níveis dimensionais diversos, que as afinidades de sentimentos e intenções são a chave para entendermos como os seres podem construir verdadeiras obras de beleza, alegria e sensibilidade, se vinculados aos ideais enobrecedores, tanto quanto, construir cadeias de sofrimento e paisagens horrendas, demonstrando seu estado íntimo de desolação e loucura. 

Conforme já dissemos alhures, o mundo astral é totalmente sensível às projeções mentais dos seres (encarnados ou desencarnados), cujas suas criações fixam-se em torno do campo de energia de seu criador  (ser pensante), a determinar-lhe o padrão de sua vibração astral, energia vital, condição psíquica e o campo de irradiação de sua aura, os quais costumam ser mui reduzidos quando o seu é um estado de degradação espiritual.


Entretanto, a junção de vários seres situados em uma mesma faixa de condições espirituais de caráter negativo, espalha no mundo astral as suas criações perturbadas, exteriorizando o morbo que exala de seus "hálitos mentais", plasmando regiões de intensa escuridão e desolação, onde milhões de espíritos encontram-se presos a dolorosos processos expiatórios, no campo da culpa e da revolta, expurgando por via do sofrimento todo o veneno psíquico do qual alimentaram-se durante sua última encarnação. 

Descrevemos brevemente algumas paragens do plano astral para chegarmos ao ponto de sequência do assunto tratado no post anterior, enfocando a Demanda, dentro da interpretação do universo simbólico e religioso da Umbanda.

Dissemos que as construções das egrégoras criadas no processo de elaboração da Demanda, são estabelecidas, como em qualquer rito mágico-espiritual, por meio da utilização de símbolos.

Os símbolos funcionam como expressão de aspectos duais da consciência (racionais e não-racionais), tornando-se catalizadores da energia psíquica irradiada do centro mental do operador do rito, assim como de todos quantos estejam participando do evento.

As entidades espirituais, atraídas ao meio no qual encontram-se os evocadores, possuem grande identificação com os propósitos daqueles que unem-se no ato petitório maléfico, e satisfazem sua ânsia pela reconstrução de um elo com as energias de um corpo vital, que não mais possuem, por meio da vampirização pelo contato psíquico que poderão usufruir daqueles que, inadvertidamente, solicitam-lhes o concurso para a "resolução de seus problemas", os quais estes entendem como existindo por conta da ação de outro que se lhes tenha ficado entre seu desejo mesquinho e o objeto ou realização almejada.

Interessante ponderarmos que, no campo processual da Demanda, quando esta verifica-se entre indivíduos, ocasiona-se, no mais das vezes, de conflitos existentes entre pessoas de relacionamento próximo, como sejam familiares em comum, sócios de empreitada profissional, ex-amantes, etc. Tal fato deve-se aos laços emocionais que ligam os seres de maneira muito estreita e que podem ser facilmente desvirtuados - e não destruídos - pela fragilidade psicológica de que muitos de nossa sociedade se vêem hoje afligidos.

A busca atormentada pela ascensão social, pela realização hedonista de aventuras amorosas, pela herança familiar (com a qual pensa-se poder lucrar, sem os maiores esforços próprios do trabalho digno), pela idéia infantil e egocêntrica de querer ver-se livre de outrem que possa afigurar-se como a projeção de uma ameaça ou um fardo existencial, leva indivíduos descuidados e inconsequentes a buscar ajuda em mãos de outros que também fazem-se inescrupulosos e irresponsáveis lidadores das forças espirituais, ocasionando compromissos graves mediante as Leis Divinas.

Como sabemos, na base das Demandas existem profundos estágios obsessivos (sendo estas uma variação complexa da obsessão) envolvendo os personagens/atores destes conflitos de ordem espiritual. De tal sorte que, não raro, muitos obsessores de hoje foram aqueles mesmos que um dia comungaram de uma vida conosco, na condição de parceria conjugal, ou de filhos, pais, amigos, os quais foram vitimados pelos nossos atos de violência, abandono, ingratidão, traição...

Vejamos então, serem as profundas vinculações emocionais os elementos de ligação entre as mentes em estado de perturbação (obsessor-obsediado). O amor de um passado, subvertido em ódio e revolta por parte da vitima, liga-se ao sentimento de culpa do então algoz, unindo-os pela Lei Kármica com vistas ao reajuste e ao perdão, que mais tarde logrará suceder-se.

"A demanda assume formas de desequilíbrio/obstáculos na vida das pessoas, que podem ser causadas por uma outra pessoa. Exemplo: 'Trabalho feito' (na quimbanda) para prejudicar a vida de alguém. Dentro de um discurso religioso, esse conflito se transfere para uma atuação espiritual. Quando a parte prejudicada procura ajuda, as entidades irão atuar através de uma prática ritual para que o equilíbrio retorne. Nesse sentido, as práticas umbandistas assumem um caráter de luta, de desafio nas resoluções desses obstáculos". (Sillos, 2001).

Assim, quando em conflito emocional por conta de dissenções ou desentendimentos de variadas naturezas, determinado indivíduo entrega-se aos pensamentos de ódio, revolta, culpa, entre outros, neste instante abre campo para que as cargas de energia negativa, manipuladas pelo criador do feitiço em conjunto com as entidades sombrias, estreitem-se com as irradiações de sua própria aura, baixando sua cintilação, afetando seu corpo de energia vital, e finalizando por descarregar-se em seu corpo físico, podendo até ocasionar somatizações, manifestando-as por processos de conversão psíquica (mudez, cegueira, surdez, imobilidade motora) ou infecciosos, alérgicos e até mesmo, em casos muito complexos, tumorais.

Atormentado pelos campos de energia negativa que o envolvem, o indivíduo busca auxílio em um terreiro de Umbanda, este levará consigo todo o conjunto de energias e entidades espirituais a envolverem-no, carecedores de uma intervenção externa para que possam, gradualmente, serem desvinculados.

As orações, os banhos, os passes, as defumações, as práticas ofertórias, criam a abertura mental e trazem o indivíduo para um campo de neutralidade daquelas energias que o estão envolvendo, para que sua mente possa desvincular-se do caráter de sofrimento assumido, ressignificando a realidade de si mesmo e do mundo que o cerca.

Isso porque as entidades manipuladoras do feitiço negativo operam à distância, criando contrapartes nas quais possam ser descarregados os entrechoques que enfrentam no contato com as egrégoras luminíferas do terreiro bem dirigido e firmado pelos Guias de Aruanda Maior, dificultando que sejam atraídas para o campo de energia do cazuá, para que possam ser interrompidas e reencaminhadas.

Agem dessa forma utilizando-se de espíritos sofredores, os quais jazem em profundo estágio de inconsciência nas zonas de escuridão, servindo como anteparos para a prática encantatória nefasta. Sabem, estes seres que atuam no mal,  interferir nos processos mentais de suas vitimas, quando as vejam em estado de perturbação ou desespero, para isso vinculando-as aos milhares de sofredores inconscientes do mundo espiritual, num mecanismo de reverberação mental, o qual torna-se cada vez mais intenso e repetitivo no campo perceptivo do indivíduo, verificando-se como recurso altamente desgastante a exaurir suas forças mentais e vitais.

Por isso é comum, observando relatos de pessoas que já viram-se atingidas por verdadeiras Demandas, que o envolvimento negativo no qual encontravam-se era de tal maneira extenuante e perturbador que não viam-se com  a mínima condição de emitir sequer uma palavra, um pensamento em direção a Deus, realizando uma prece que as poderia colocar a salvo do contato hipnotizante das criações mentais de caráter deletério.

Dessa forma, tal situação deverá interromper-se pela ação externa, de forças que estejam em condições de se chocarem com as egrégoras malsãs, dissipando-as no mundo astral.

Aí iniciam-se os embates entre as correntes espirituais do templo e as hostes negativas que buscam ampliar sua ação sobre a vítima, estabelecendo-se uma disputa em vários níveis dimensionais, incluindo aí o próprio embate entre o "médium curador" e o "feiticeiro negro" (permita-nos o leitor a utilização desta analogia simbólica para facilitar-lhe o entendimento), no qual medir-se-ão as forças mentais e espirituais de ambos, envolvidos que estejam por aqueles seres espirituais identificados como seus Protetores.

Os domínios do mundo psíquico passam a manifestar-se por meio de um conjunto de ritos e trabalhos de ordem espiritual que passarão a desenrolar-se, sejam aqueles envolvendo o "paciente", como aqueles realizados em secreto, por médium graduado na prática Umbandista.

Seu estado espiritual deverá estar em total sintonia com o de seus Mestres Espirituais para que possa suportar os níveis de influenciação que passará a experimentar, uma vez que as cargas de energia anteriormente direcionadas à vitima, serão transferidas para a sua coroa, para seu corpo, para o seu congá, para as suas firmezas, para as suas vestes até, de maneira que possam ser absorvidas e desintegradas.

Quando finalizam-se os períodos, mais ou menos longos, de assimilação e desintegração dos miasmas astrais, culmina-se na assimilação psíquica do médium do campo vibratório da entidade manipuladora que será inserida em sua faixa mediúnica, na qual passará a transitar com o propósito de receber um "choque" pelo contato que experimentará com a irradiação espiritual do medianeiro e sua energia vital: o chamado "choque anímico", conforme é descrito pelos irmãos kardecistas.

A intenção é a de restabelecer a este espírito a sua lucidez espiritual, devolvendo-lhe as feições de um ser humano, que um dia já foi, e integrando-o às correntes espirituais que passarão a deter-lhe a guarda, rumando para um novo caminho de cura e regeneração, cujo maior prêmio dá-se quando, no futuro, este mesmo ser, antes opositor, passará ao grau de trabalhador nas correntes espirituais do templo.

Por conta de tal cometimento ser de alta gravidade e exigir grande experiência e tarimba do médium nas lides das Leis de Umbanda, tais ocorrências, quando verdadeiras, dão-se, felizmente, com pouquíssima frequência, sendo seu atendimento e resolução destinados àqueles que detenham alto grau de iniciação, mormente os Pais ou Mães-de-Santo de nossa Umbanda de Luz.

Salientamos tal fato pois é necessária a compreensão de que são inúmeras as variações de condições espirituais, nas quais as pessoas de modo geral encontram-se, e somente um médium de Umbanda, com uma sintonia fina muito alinhada com os Guias regentes de sua coroa, pode ter acesso a tais níveis de contato com a realidade espiritual do outro.

Conforme já dissertamos em artigos anteriores, gostaríamos novamente de ressaltar que não é finalidade última da Umbanda combater magias negativas, sendo antes de tudo a de cultuar o Sagrado, entretanto, suas tradições e sistema de crenças, dotam-na de amplos recursos e elementos que possibilitam-na tratar de tais questões, valendo-se de suas representações simbólicas para restabelecer a ordem e o equilíbrio na existência do ser humano, quando as forças caóticas assomam fazendo-se parecer assustadoras.

Finalmente, esperamos ter contribuído um pouco mais na ampliação do conhecimento de nossos irmãos umbandistas em torno da questão da Demanda,  desejando neste momento que mãe Iemanjá, juntamente com todo o Povo do Mar, possa envolver-nos a todos com suas irradiações luminosas, limpando-nos e aos nossos lares, atraindo para si aqueles seres ainda inconscientes e desesperados que vagam no mundo espiritual, dando-lhes alívio e orientação.

Que nossa Mãe Iemanjá nos envolva com sua Luz e suas Bençãos!

Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:
Chiesa, Gustavo Ruiz (2011). A Magia na Umbanda (artigo científico)
Sillos, Silvanira Lima (2001). A Demanda na Umbanda (artigo científico)
Mauss, Marcel (2003). Ensaio sobre a dádiva (artigo científico)
Mauss, Marcel; Hubert, Henri (2005). Sobre o sacrifício (artigo científico)
Lima, Bentto de (1997). Malungo - Decodificação da Umbanda
Malandrino, Brígida Carla (2006). Umbanda, mudanças e permanências: uma análise simbólica
Rivas Neto, Francisco (1996). Fundamentos Herméticos de Umbanda
(2002). Umbanda A Proto-Síntese Cósmica
Matta e Silva, W.W. da (2010). Umbanda de Todos Nós
___________________ (2009). Umbanda e o Poder da Mediunidade
___________________ (2009). Segredos da Magia de Umbanda
___________________ (2009). Doutrina Secreta de Umbanda
Levi, Eliphas (1995). Dogma e Ritual de Alta Magia
Jung, C.G (1975). Psicologia e Religião


sábado, 28 de janeiro de 2012

A Demanda



Por: Gregorio Lucio


Dissertaremos a respeito de uma questão bastante controversa e presente no meio umbandista, qual seja a Demanda e seus mecanismos de ação, expressando-se nas relações culturais que permeiam o imaginário em torno deste aspecto da mística de Umbanda; os entrechoques verificados entre as egrégoras correspondentes ao templo e as cargas de força negativa; os embates ocorridos entre as correntes astrais do templo e aquelas provindas das sombras; bem como, o complexo simbólico no qual estabelecem-se os processos criadores dos campos de atuação das chamadas magias negativas e os mecanismos de defesa espiritual contemplados nos ritos umbandistas. A propósito, intentaremos abordar tal tema dividindo-o em dois artigos, sendo este que segue o primeiro, acompanhado de seu complementar, a ser publicado em data futura.

Compreender as redes de sentidos que demarcam o complexo psíquico umbandista e os discursos inerentes ao mundo interno da religião de Umbanda faz-se necessário para realizarmos um reconhecimento de quais são as estruturas de relação estabelecidas entre indivíduos pertencentes a este sistema de crenças, num aspecto social, tanto quanto de como estas expressam-se na própria subjetividade de seus adeptos.

O sinônimo de Demanda equivale a litígio, disputa, necessidade, pedido ou solução. Implica tal idéia, com isso, na transposição para a realidade existencial de uma significação para os embates com situações adversas, as mais variadas, as quais são passíveis de serem vivenciadas pelo homem na sociedade, como seja a miséria, a violência, a marginalização, a doença. Também englobando-se neste conjunto de adversidades, aquelas vivências que não podem ser explicadas de maneira totalmente racionalizada, entretanto, afigurando-se de grande ascendência sobre o indivíduo que as experimenta, tais como as perturbações entendidas como sendo de ordem espiritual, imiscuídas em sensações e pensamentos inquietantes, que se dão amiúde, na vida cotidiana. Enfim, toda a causa de sofrimento que se verifique de grande peso emocional para o ser humano, caracteriza-se como uma Demanda.

No entanto, gostaríamos de aprofundar estas reflexões em torno desta questão, a priori consideradas sob um prisma psicosocial, processando-as a partir de uma visão interna ao fenômeno religioso e à vivência espiritual experienciada nas Leis de Umbanda.

Segundo o conhecimento da mística umbandista, bem como das ciências ocultas, tudo é real, pois a realização da experiência plasma em níveis dimensionais as impressões geradas pela ação do Espírito sobre o plano astral, engendrando, inclusive, os contextos subjetivos que este trará ao mundo físico, em sua presente encarnação, como caracteres indicativos de suas necessidades de transformação e reajuste (a lei do karma).

Este mesmo mecanismo, verificando-se em uma escala ampliada, demonstrará como a coletividade de espíritos cria o mundo no qual encarnam, bem como seus níveis de inter-relação, a serem concebidos ao longo do processo do desenvolvimento da humanidade, pela formação de sociedades e culturas diversas.

Sendo assim, a humanidade constrói e reelabora, continuamente, todo um complexo simbólico que permeia, sob os matizes diversos das expressões culturais, as idealizações e concepções próprias do psiquismo de cada ser presente na sociedade, tanto nesta encarnada, quanto naquela desencarnada (mundo espiritual). O imaginário, criado a partir deste processo, servirá de elemento veiculador de uma infinidade de significados que poderão ser extraídos das simbologias presentes em uma dada sociedade, a colocar-se, então em contato com a possibilidade de ser interpretada segundo as referências inerentes a um dado sistema de pensamento,  seja ele filosófico, científico ou religioso.

Tal é o caso da Demanda.

O Mal é real e inerente à integralidade das Leis da Vida. Tratar de bondade, caridade, misericórdia e perdão, considerando tais virtudes como expressões do Bem, implica inevitavelmente no aceite, mesmo que tácito, da existência do Mal, o qual se faz possuidor de manifestações contrárias a estas já citadas.

Assim é que a mente humana gera de si os elementos de Luz e Sombras, a presentificarem-se na realidade existencial do homem, como reflexos de suas realizações felizes ou de seus transtornos interiores, sintonizando-o com as mais diversas formas e seres existentes no mundo espiritual, com as quais estreitará relações, primordialmente num nível inconsciente.

"O manuseio das forças cósmicas, psíquicas e físicas faz-se através da manipulação de símbolos" (Lima, 1997).

O Rito Mágico, no qual estão estabelecidas as formas de manuseio das energias espirituais e as intenções determinantes da destinação do trabalho a ser realizado (se boas ou más), opera segundo a manipulação de ordens simbólicas, efetivando impactar a realidade do plano físico e também astral, envolvendo seu objeto visado (pessoa ou coletividade) com as mentalizações de caráter benéfico ou maléfico. Evidentemente, quando tratamos do caso da Demanda, estaremos falando daquelas de caráter negativo.

Estaremos cientes de que tal prática incorre na junção de duas ou mais mentes que se associam, em mecanismo mórbido (no caso da Demanda, obviamente), com o objetivo de causar um mal, um prejuízo ou uma desestabilização, por determinado tempo, sobre a existência de outrem. Teremos aí, personagens em comum, identificados naquele que pede; o que lhe atende;  o(s) ser(es) espiritual que se torna o propagador destas intenções nefastas no mundo astral; a egrégora como mecanismo vivo que atrai e projeta-se sobre o que, ou quem, se é visado: pessoa(s) ou local.

A utilização e manipulação de simbolos fazem-se necessárias, pois estes interferem na estrutura psíquica do homem, em seu inconsciente, trazendo à tona uma série de significados carregados de energia psíquica pulsante, unindo aspectos racionais e não-racionais. O simbolo contém em si, portanto, uma totalidade de sentidos que comportam as instâncias conscientes e inconscientes do ser e, por isso, estão carregados de energia vital e existência no tempo e no espaço.


"Dissemos que a luz astral é o receptáculo das formas. Evocadas pela razão, estas formas se produzem com harmonia; evocadas pela loucura, elas vêm desordenadas e monstruosas; tal é o berço dos pesadelos de Santo Antonio e dos fantasmas do Sabbat" (Levi, 1995).

Imprimimos no mundo astral os reflexos dos nossos pensamentos e sentimentos, o qual assimila-os e transforma-se conforme estes padrões. A manipulação dos simbolos servirá ao mesmo tempo para projetar as mentalizações envolvidas no rito e para atrair a si as criações correspondentes no mundo astral, movimentando-se segundo a projeção do inconsciente, sobre seu objetivo.

"[...] na luz astral se conservam as imagens de pessoas e coisas. É também nesta luz que se podem evocar as formas daqueles que não estão mais neste mundo, e é por meio dela que se realizam os mistérios tão contestados como reais da necromancia" (Levi, 1995).

As mentalizações atraem para si os agentes (seres desencarnados) identificados com a intenção do operador, os quais servirão como amplificadores das egrégoras de caráter perturbador que se desdobrarão na dimensão extra-física, estabelecendo seu raio de influenciação em uma faixa que se coloca entre o mundo físico e o espiritual. Quantos estejam ligados às idealizações e pensamentos de caráter negativo,  corresponderão a este campo de ação dissonante, ampliando-se conforme a contribuição de cada qual que se situe sob a condição de sofrimento, ira, violência, etc.

Da mesma forma como geram-se as Egrégoras (ver: As Egrégoras) dentro dos Templos de Luz, também são construídas aquelas que servirão como concentradoras da energia psíquica de tais locais sintonizados com o desejo e o sentimento do Mal. Em tais núcleos - existentes tanto em nosso plano quanto na dimensão astral -, onde a escuridão encontra ressonância no interior de seus acólitos, a sintonia com seres em escala negativa aprofunda-se cada vez mais, encarcerando-os nas teias da culpa e da aflição, porquanto a deliberação do mal incorre na imediata necessidade de reajuste.

"José Guilherme Magnani (1991:59) define demanda como uma desavença interpessoal que se transfere, por meio de oferendas, a determinadas entidades espirituais, que passam a atuar como intermediários e atores do conflito" (Sillos, 2001).

O processo da Demanda implica na entrega à dimensão astral das energias psíquicas que estruturam e sustentam o tentame do mal. Os seres desencarnados, consorciados no desejo de provocar o desajuste, tornam-se os executores das emissões do Mal, lançando-se nas sombras e fixando-se em realizar seu intento.

Quando a utilização da Demanda visa atingir um núcleo religioso (no nosso caso, o terreiro de Umbanda), seus construidores irão movimentar a egrégora negativa em direção ao campo de energia próprio do templo. A intenção será a de atingir a coroa do dirigente do terreiro, o qual está situado (diante das Leis de Iniciação na Umbanda) como o ponto de ligação central entre o domínio do complexo simbólico de sua tradição e as interações entre as correntes mediúnica e astral do templo.

Agir no caos, desestabilizando o sacerdote do templo, provocaria a desestruturação da egrégora (irradiação, campo estrutural, etc) pertencentes a este, permitindo a entrada violenta dos agentes de perturbação na faixa mediúnica de toda a corrente de médiuns da casa.

Entretanto, esquece-se aquele que intenta a Demanda, que é da Lei que o Mal pelo Bem seja atraído para que justamente possa ser internalizado em suas irradiações salutares e nele possa ser dissipado.

São várias as egrégoras negativas atraídas aos templos de luz ao longo da execução de suas giras, para justamente serem interiorizadas ao seu campo de ação e influência, e possam, dentro das correntes luminíferas afirmadas ao longo do rito, ser desmanchadas e dissolvidas. Incluem-se aí, aquelas tantas formadas pela inconsciência dos seres que alimentam o mal, pelo uso inadequado e vicioso que fazem das palavras, do comportamento, da própria saúde, do dinheiro, da sexualidade, etc.

Pelo que foi explicitado, entenderemos que o Bem assimila o Mal, no entanto, nunca o revida (gerando a contra-demanda), antes sim, o reelabora e devolve ao mundo astral a ordenação primordial de harmonia e equilíbrio.

"Na magia [...] tudo é imagem, cor, ritmo, sonoridade, movimento. A abstração [...] é lhe estranha" (Bouisson apud Lima, 1997).

A composição de nossos trabalhos espirituais, fundamentados em concepções do Bem e do Belo, da alegria e da fraternidade, faz com que nossas giras expressem-se em cantos, danças e orações de grande beleza, nas quais aurimos das Egrégoras de Luz,  os campos de proteção contra a carga negativa, a qual porventura tenha sido atraída ao cazuá, com vistas a ser desintegrada.

O resultado da prática umbandista, centrada em ritos que contenham em si profundas ligações com uma tradição estabelecida pelos Mentores do Bem, cujos seus simbolos possam ser projetados no plano espiritual e comunicados ao mundo psíquico/emocional daqueles que se permitam penetrar por sua irradiação, trará a cada um o equilíbrio e a sustentação adequada para que se conserve em saúde, serenidade e paz, conforme necessidade particular.

Atingimos, pelo transe, a dimensão astral, na qual estabeleceremos contato com os Guias e Protetores de nossa Aruanda Maior, de onde provém nosso sustento psíquico e espiritual.

O contato com os numes de Aruanda nos eleva o padrão mental, vindo daí a cobertura que recebemos de nossos Caboclos, Pretos-Velhos, Baianos, Crianças...colocando-nos fora do campo de influência do seres negativos, os quais também são atraídos ao templo com fins de serem levados a um estado de despertar da lucidez que os fará ligarem-se, novamente, com as Luzes Divinas dos Orixás, que norteiam o caminho dos Espíritos na dimensão extra-física.

A mensagem de Amor e Caridade que possamos espalhar àqueles que recorrem aos nossos trabalhos, torna-nos sempre divulgadores do Bem que deveremos distribuir pela Terra, fazendo-o, principalmente, incorporar-se em nossas próprias vidas e colocando-nos, conscientemente, como exemplo de tais virtudes, em busca de uma vida feliz, sem nenhuma pretensão de santidade ou messianismo.

Tendo braços estendidos com amor, responsabilidade e discernimento, faremo-nos faróis para muitos seres errantes na escuridão, contribuindo, dentro de nossas possibilidades, para a recuperação daqueles que sofrem e são utilizados como veículos do mal, pelas mentes endurecidas do mundo físico e espiritual, as quais ainda são aguardadas pela Luz que um dia as colherá, para dar-lhes alívio.

Saravá a todos!

Para saber mais:






Bibliografia Consultada:
Chiesa, Gustavo Ruiz (2011). A Magia na Umbanda (artigo científico)
Sillos, Silvanira Lima (2001). A Demanda na Umbanda (artigo científico)
Mauss, Marcel (2003). Ensaio sobre a dádiva (artigo científico)
Mauss, Marcel; Hubert, Henri (2005). Sobre o sacrifício (artigo científico)
Lima, Bentto de (1997). Malungo - Decodificação da Umbanda
Malandrino, Brígida Carla (2006). Umbanda, mudanças e permanências: uma análise simbólica
Rivas Neto, Francisco (1996). Fundamentos Herméticos de Umbanda
                                     (2002). Umbanda A Proto-Síntese Cósmica
Matta e Silva, W.W. da (2010). Umbanda de Todos Nós
___________________ (2009). Umbanda e o Poder da Mediunidade
___________________ (2009). Segredos da Magia de Umbanda
___________________ (2009). Doutrina Secreta de Umbanda
Levi, Eliphas (1995). Dogma e Ritual de Alta Magia
Jung, C.G (1975). Psicologia e Religião




sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

As Egrégoras (A utilização das Forças Naturais e Mentais no Rito Umbandista)


Por: Gregorio Lucio

Julgamos necessário tratarmos de um assunto já bastante explorado no campo do conhecimento místico, as Egrégoras, por reconhecermos serem estas um aspecto sempre carecedor de considerações em torno de suas composições estruturais, as quais dinamizam e criam a "identidade energética" do templo umbandista, assim como também afiguram-se presentes nos trabalhos espirituais realizados dentro do terreiro de Umbanda.


É a partir do conjunto de pensamentos e emoções emitidas pelos indivíduos participantes da gira de Umbanda, encarnados e desencarnados, que formam-se as chamadas Egrégoras. Resultam estas em um campo de energia dinâmica que passa a transitar entre as dimensões física e extra-física (espiritual), contemplando em si uma carga de intensidade maior do que a doada inicialmente por cada um de seus criadores.

Essencialmente, todos os Ritos de Umbanda buscam gerar e alimentar uma egrégora específica (também chamada em algumas casas de "irradiação", "campo estrutural" ou "forma-pensamento") que contenha em si a conjunção de todas as mentalizações e exteriorizações de sentimentos, pensamentos e memórias, característicos da vivência de uma determinada coletividade em um determinado local.  

A egrégora forma-se sempre, portanto, na dependência de mentes que a sustentem ao longo do tempo em um espaço específico (as giras em um terreiro de umbanda, no nosso caso) para comportar as movimentações de energias que servirão para mantê-la viva - as egrégoras são estruturas vivas-.

A irradiação - a egrégora - formada e sustentada no Rito, será perpetuada pela  execução repetida das giras, alimentando-a pelas nossas mentalizações emitidas em resposta ao processo contínuo de evocações, orações e práticas ofertórias. De igual forma, a manipulação de elementos naturais (águas, ervas, pedras, chamas), em união com as energias das correntes mediúnica e astral, concorrerão para a acentuação do efeito criador, no qual a soma de energias entregues será sempre de intensidade maior do que aquelas doadas por cada um, conforme dissemos anteriormente.


A dialética da prática umbandista compreende um conjunto de ritmos, sons, imagens, cores, movimentos (entre outros) dispostos em categorias harmônicas, implicando numa criação de sentidos estéticos que são percebidos pela consciência e integrados nesta, contemplando seus aspectos intelectuais e intuitivos (não-racionais), de tal sorte que há a entrega, por parte daqueles que vinculam-se aos ritos, de suas próprias elaborações psíquicas, memórias, sentimentos, sensações, que passam a compor o complexo abstrato, energético, o qual se enriquecerá conforme mais intenso e positivo esteja o comportamento de seus criadores encarnados: a corrente mediúnica do templo.
A abrangência vibratória, própria da egrégora do templo, alcança cada um de seus filhos além dos limites do espaço, pois que transita num nível de existência temporal (a egrégora possui existência finita), mas conserva-se à parte do limite espacial, como em qualquer processo de formação de estruturas extra-físicas, no qual há a sujeição às influências do tempo e a "quebra" das leis que circundam o espaço, embora necessite, para a sua estruturação, de um local (espaço social) adequado, no qual o agrupamento de mentes afins será o seu dínamo gerador. Toda egrégora, por conseguinte, é o resultado de uma ação psíquica e social.

A medida em que se desenvolve, ao longo do tempo, a tradição umbandista seguida pelo templo servirá como a contraparte social da expressão de sua egrégora. Seu complexo de conhecimentos internos ao grupo, seus trabalhos, calendários, práticas específicas (abertas ou fechadas ao público), processos iniciáticos e "modos de fazer", compõem o universo simbólico/religioso que passa a se incorporar na vida cotidiana de seus adeptos, implicando numa agregação de valores que passam pelo compartilhamento comunitário, fazendo-se memória emocional, conteúdos psicológicos influenciadores do mundo interior de cada um.

Porque seus criadores são dotados de vida e, consequentemente, de existência, também as egrégoras o são, e as suas expressões tornam-se possibilidades do real, agentes veiculadoras e transmutadoras das circunstâncias da vida, manancial criativo e dinâmico onde o adepto poderá colher inspiração e sustentação espirituais, por conta das práticas rito-comportamentais aprendidas no templo, as quais são associadas pelo adepto e realizadas em seu cotidiano particular (hábito da oração e da mentalização, a firmeza de suas correntes, banhos de ervas, o uso de guias e patuás, etc).

Não obstante, quando o seu comportamento estiver destoando da ética proposta pelo exercício do bem e da caridade, entrará em choque com os padrões de energia estabelecidos pela egrégora que o influencia, sujeitando-se às contraposições cármicas e reordenadoras, com o intento de internalizar as suas atitudes e rever seu proceder diante de si e do outro.


Pelas experiências espirituais que vivenciamos junto aos Guias e Protetores de Aruanda, entendemos ser o plano astral sensível e influenciável pela mente, cujos seus estados de felicidade ou sofrimento elaborarão paisagens belas ou zonas de escuridão, a refletir, em verdade, a condição mental dos espíritos que a estas regiões estão ligados. O mundo astral molda-se, salientamos, às construções mentais próprias do(s) indivíduo(s), situando-no nas regiões que guardem o mesmo padrão de mentalização.

  
Sendo assim, as Egrégoras sofrem a influência dinâmica dos conteúdos mentalizados pelos seus criadores e suas estruturas se expressarão luminosas ou sombrias a depender das propostas de cada trabalho e gira a ser realizada, de todo o bem que se deseja e pratica em favor do próximo e de si mesmo.

Os ritos de iniciação do médium colocam-no em ligação cada vez mais aprofundada com a egrégora espiritual do templo no qual este opta por realizar sua jornada dentro das Leis de Umbanda. A manipulação dos elementos naturais e religiosos, acompanhada pela oração e a evocatória, direcionarão para a coroa mediúnica os focos de irradiação próprios e afins ao médium (característicos de seu Orixá-de-frente), abrindo-lhe, gradualmente, os canais de percepção espiritual e ampliando seu campo de integração e influência sobre a irradiação - a egrégora -  do templo, exigindo-lhe maiores responsabilidades e condutas consentâneas aos graus a que se alça ao longo do caminho espiritual.


Desta feita, o compromisso assumido junto às correntes espirituais do terreiro direciona-o aos movimentos de aprendizado, reflexão e interiorização das experiências que passará a vivenciar nas giras, pela prática do transe e das obrigações a que deverá cumprir, assim como das relações humanas que passa a estabelecer com os irmãos de fé, percorrendo os caminhos da devoção, da pertença social a que todo o ser humano equilibrado em sua conduta buscará realizar como ser atuante e produtivo em sua sociedade.


Seguidos os tempos de prática e entrega ao círculo religioso próprio à Umbanda, o seu adepto deparar-se-á com um cadinho de lembranças afetivas, conhecimentos adquiridos, maturidade alcançada, esperança na vida futura, na certeza da imortalidade e na efetiva presença de seus Guias e Protetores ao longo de sua jornada como espírito encarnado.

Suas experiências de vida passam cada vez mais a integrar-se à Egrégora na qual interpenetrou consciencialmente, a pouco e pouco, ordenando suas impressões espirituais, preparando-se-lhe a desencarnação, pela sua eminente proximidade, sob cuja ocorrência volverá à Aruanda, como filho de Umbanda, aproximando-se, em novo processo de iniciação, às correntes espirituais ligadas àquela egrégora na qual tornará-se, então, colaborador e participante da agora corrente astral de Umbanda, junto da qual passará a um estado de novos aprendizados e refazimento em vista do cometimento do processo reencarnatório que, amiúde, tornará a ascender sobre suas necessidades de contínua transformação e desenvolvimento como espírito.

O dinamismo das Leis espirituais impulsiona-nos os passos para o encontro com a Saúde, a Felicidade e o Bem-Estar, por tanto, façamo-nos seres ativos e conscientes destes mecanismos para que com eles possamos interagir de maneira positiva, comandando nossos caminhos, sabendo utilizarmo-nos das Egrégoras de Alta Luz e Beleza que certamente são produzidas e firmadas em nosso cazuá com muito Amor, Devoção e desejo de praticar o Bem, para o próximo e para nós mesmos.

Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:
Rivas Neto, Francisco (1996). Fundamentos Herméticos de Umbanda
                                   (2002). Umbanda A Proto-Síntese Cósmica   
Vieira, Lourdes de Campos (2004). A Umbanda e o Tao
Lima, Bentto de (1997). Malungo - Decodificação da Umbanda
Radin, Dean (2008). Mentes Interligadas






quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A Obsessão Espiritual


Por: Gregorio Lucio

A obsessão espiritual é uma problemática que grassa na sociedade contemporânea, variando seu grau de influenciação e impacto sobre o comportamento de um indivíduo, ou de uma coletividade, afetando até mesmo, em casos mais graves, sua saúde psicológica e orgânica.

Importa entendermos que o mecanismo que une o ser humano à realidade que experimenta durante sua existência, como espírito encarnado ou desencarnado, está centrado nas expressões da mente, a qual coordena todas as manifestações de cada Individualidade em quaisquer planos ou circunstâncias que possamos alcançar para exemplificação.

Portanto, o nível de consciência diante da realidade de si mesmo logra fazer com que o ser abra-se às possibilidades de optar conscientemente pelos caminhos que haverá de trilhar na senda das experimentações que inevitavelmente realizará, ao longo de todo o seu ciclo de desenvolvimento como Espírito que É, rumando para a auto-iluminação.


No entanto, por conta dos mais diversos dilemas existenciais com os quais o homem defronta-se - muitos permanecendo fixados em seu inconsciente desde as eras mais primevas da humanidade -, quais sejam os dramas envolvendo a idéia da ocorrência da morte, da doença, da violência, da solidão, da miséria, da perda, entre outros, este incorre na busca de mecanismos de fuga e alívio das pressões psíquicas que se lhe fazem estressantes e esmagadoras, desta forma  surgindo os hábitos perniciosos, comumente observados em nosso meio social, como o tabagismo, o alcoolismo, a drogadição, a sexolatria, etc...vícios profundamente danosos à saúde e refreadores tenazes das possibilidades de transformação mental de todo aquele que se lhes torne um adicto.

Situamos a problemática do comportamento humano, e os seus desvirtuamentos, como premissas para compreendermos que na base das obsessões espirituais existe a conjunção de duas (ou mais) mentes que se afinizam e se estreitam, por identidade de pensamentos e emoções. Dessa forma, o ser encarnado não é e nunca será um marionete nas mãos das individualidades desencarnadas. Todos recebemos as influências das dimensões extra-físicas, tanto as situadas nas regiões de Luz quanto nas regiões de Escuridão, pois que ambas encontram ressonância em nosso mundo íntimo, pelo fato de que nossa própria condição humana caracteriza-se por essa polaridade, Luz e Escuridão (Sombra), que permeia nosso mundo mental e psíquico.

Nossos padrões emocionais estabelecem nossa conduta e pensamentos referentes às impressões que detemos em torno de nós mesmos e do mundo que nos cerca. Enquanto estagiamos inconscientemente em padrões emocionais de caráter perturbador, reagimos quase mecanicamente perante as ocorrências do cotidiano, cujas consequencias podem afigurar-se demasiadamente sérias. A insistência e a repetição de pensamentos em torno de questões deprimentes e perniciosas, vão, aos poucos, sendo fixadas em nossos registros cerebrais, dotando-as de automatismos estabelecidos nas conexões neuroniais, fisiologicamente, e programando, dessa forma, os pensamentos que iremos primeiramente emitir, como resposta aprendida pelo cérebro. Assim, formarão-se padrões de pensamentos de caráter intrusivo, a repetirem-se automaticamente, estabelecendo-se um mecanismo estressante.


O sentimento sistemático de culpa, de desvalorização, de desânimo, de irritação, de revolta, efetivam uma gradual negação de si-mesmo, como forças repressoras que tornam-se verdadeiros gigantes emocionais, a pressionarem "para baixo" os pensamentos de caráter positivo, desvitalizando o corpo e sobrecarregando as estruturas psíquicas, rumando para um processo de adoecimento, podendo levar até mesmo à desencarnação.

Encontraremos aí, unidas à desarmonia iniciada por processos inconscientes da personalidade encarnada, as mentes desencarnadas que buscam, porque também doentes e desajustadas, o convívio psíquico do indivíduo obsediado, nutrindo-se de sua vitalidade e entrelaçando-se ao seu "hospedeiro", num processo de simbiose espiritual, conforme já narrado em livros referentes ao tema.A obsessão dar-se-á dentro de um mecanismo de "retro-alimentação", no qual ambos (obsessor-obsediado) nutrem-se um do outro, comungando dos mesmos pensamentos e padrões emocionais. Tal vinculação se estabelecerá por períodos mais ou menos longos, com a possibilidade de perdurar por uma ou várias encarnações inteiras, a depender da gravidade e dos compromissos que ligam os indivíduos envolvidos no processo perturbador.

Somente com a ocorrência da "quebra" de sintonia entre as mentes conjugadas no processo obsessivo é que será possível alcançar-se a recuperação e a retomada do equilíbrio gradativo para ambos.

O tratamento espiritual torna-se, então, o recurso pelo qual será possível penetrar no campo de ligação das mentes doentias e desvinculá-las, aos poucos, do contato enfermiço e infelicitador no qual deixaram-se fixar.


O passe, a oração, o acompanhamento médico/psicológico (quando a questão afetar de maneira mais profunda as condições psicofisiológicas do paciente), deverão constituir o caminho da reabilitação, ao qual o indivíduo deverá vincular-se a fim de modificar seus padrões de comportamento emocional, suas percepções de si e do outro, conscientizando-se dos seus conteúdos perturbadores e buscando apoios especializados para que possa encontrar meios saudáveis de resolvê-los ou de lidar com estes de maneira madura.

A busca por atividades esportivas, pela ocupação do tempo livre com compromissos edificantes e regulares, o trabalho regrado e ordenado (assalariado ou voluntário), o estudo, a vivência religiosa, o hábito da meditação, entre outros, são instrumentos valiosos dos quais poderá dispor para angariar forças e disposições íntimas a fim de superar os seus conflitos e recuperar o equilíbrio emocional.

A vivência de valores positivos, os quais possam trazer-nos experimentações gratificantes e felicitadoras, é a meta a que devemos nos propor ao longo de nossa atual encarnação. Tornarmos a nossa vida programada por realizações edificantes são o antídoto para os mecanismos perturbadores que poderão situar-nos nos círculos do sofrimento e do flagelo espiritual, aos quais podemos entrar por nossa própria invigilância e descaso diante de nossas necessidades de reajustamento e transformação constantes.


Se procuramos vincularmo-nos aos nossos Guias e Protetores, permitindo que essa ligação se faça cada vez mais profunda, como uma ponte que nos permita chegar aos níveis de compreensão da realidade espiritual, é necessário, antes de tudo, que nossos canais estejam limpos para que o fluxo de nossas energias possam se fundir de maneira cada vez mais profunda.


Devemos, portanto, "subir" em direção aos planos nos quais os Numes de Aruanda encontram-se, ao invés de fixarmo-nos, imóveis, no lamaçal de nossos sofrimentos e indecisões, esperando que eles "desçam", como sempre, para que possamos nos contentar com uma mínima "faísca" de toda a Luz que em Aruanda está e da qual percebemos tão pouco, por conta das sombras da inconsciência a que preferimos nos entregar, para continuarmos com nossos desatinos.

Que a Luz de Aruanda Maior esteja iluminando-nos cada vez mais, na medida em que nos permitimos ir ao Seu encontro!


Saravá!