sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Sensações Mediúnicas - Parte II (Fenomenologia Orgânica e Psíquica do Transe)


Por: Gregorio Lucio

Em continuidade ao post anterior, referente ao tema Sensações Mediúnicas (ver: Sensações Mediúnicas Parte I), buscaremos aprofundar alguns aspectos específicos da manifestação do transe e as experiências passíveis de serem vivenciadas pelo médium, estando este agora já não somente na condição de sujeito passivo ao transe (conforme tratado no post anterior) mas também como sujeito atuante no transe (médium "desenvolvido" ou ao menos "em desenvolvimento").

Adiantamos que não trataremos de maneira específica do fenômeno de Incorporação, mas sim da possibilidade da experiência mediúnica numa esfera mais ampla e geral.

A respeito da Incorporação, pelo fato de ser a mediunidade mais comum à Umbanda, daremos um enfoque especial em artigos futuros, compondo uma série de cinco textos, os quais trarão uma visão abrangente e exclusiva do fenômeno.

Outro ponto a ser relatado, refere-se à bibliografia utilizada para a elaboração deste artigo. O leitor poderá notar, ao analisar as referências citadas no fim do texto, que utilizamo-nos de um vasto compêndio de escritos, os quais revelam-se provenientes de escritores e pesquisadores Espíritas ("kardecistas").

Tal deliberação deve-se ao fato de que, em relação ao estudo da mediunidade, nossos irmãos kardecistas têm, já há muitos anos, liderado pesquisas acadêmicas e escrito obras (mediúnicas ou não) versando a respeito do tema, enquanto os umbandistas, especificamente os escritores, ainda engatinham neste sentido, trazendo em suas obras e discursos conceitos bastante superficiais e muitas vezes até confusos a respeito do significado e da fenomenologia mediúnica. Todavia, buscamos realizar uma filtragem dos conteúdos, interfaceando-os com a nossa realidade e aplicação como médium umbandista.

Como tais obras citadas tratam da questão mediúnica no seu aspecto geral, e não só na prática específica da mediunidade dentro dos círculos espiritistas, entendemos que as considerações contidas nesta bibliografia podem acrescentar significativamente para a nossa reflexão e esclarecimento, levando-nos além do "senso comum", como sempre será o propósito dos textos deste blog.

Bem, isso posto, avançaremos para o nosso tema central.

Devemos frisar que a faculdade mediúnica está presente, potencialmente, em todas as criaturas humanas, independente de sua condição intelectual, social, idade, sexo e moral. Ou seja, ela está para todos os SERES HUMANOS, pois somos, segundo cremos, Espíritos momentaneamente encarnados e, por conta dessa nossa condição essencial, é natural que possamos entrar em contato e comunicação com o mundo espiritual.

Deixamos claro que, segundo nossa ótica, os animais não são médiuns, pois apesar de poderem ter contato e até a percepção de entidades espirituais, estes não dispõem de instrumentos psíquicos e mesmo cerebrais para dar significação e interpretação objetiva ao fenômeno, sendo estes fatores fundamentais para a experiência mediúnica.

Ela [a mediunidade] não constitui um dom presente em pessoas especiais e escolhidas, tão pouco um castigo divino. Sua presença no ser humano deve-se ao seu próprio trajeto evolutivo biológico e espiritual.

A faculdade mediúnica, por estar presente em todos nós, constitui atributo Espiritual, no entanto, dotada de instrumentos biológicos. Isso quer dizer que o Espírito manifesta seu corpo físico na dimensão material e, por isso, estrutura em seu complexo orgânico elementos que poderão captar e expressar as suas impressões advindas das esferas espirituais. Assim, cremos ser o sistema nervoso, em toda a sua complexidade, o ponto terminal da materialização do corpo espiritual na dimensão física.

Primeiramente necessitamos demarcar alguns pontos a respeito dos "movimentos" psíquicos e espirituais que verificam-se a partir do fenômeno do transe, desembocando em sintomas orgânicos, passíveis de experimentados pelo médium.

Uma vez que possuímos um organismo dotado de implementos para expressarem a faculdade mediúnica, o corpo manifesta estados característicos, notadamente na condição cerebral, predispondo-nos para a ocorrência do transe.

Estudos acadêmicos dão conta de que a cada 90 minutos nosso cérebro predispõe-nos para o estado alterado de consciência, uma vez que nosso estado de consciência ordinário não está a todo o tempo centrado somente na dimensão biológica. Assim, neste instante, as ondas próprias do córtex frontal e pré-frontal tornam-se alentadas, de maneira muito próxima ao estado de sono, colocando-nos em estado possível de experiências espirituais.

Faremos referencia aos estudos do Dr. Sérgio Felipe de Oliveira (espírita, médico psiquiatra, neurocientista, mestre em ciências pela USP) para abordarmos a questão.

É sempre importante frisar que os estudos a respeito destes tipos de fenômenos vêm sendo realizados academicamente e suas pesquisas ainda são preliminares, passíveis de aprofundamentos e experimentos mais conclusivos, no entanto, a observação clínica destes experimentos apontam para características interessantes, para as quais deveremos dar atenção.

Tratando especificamente dos fenômenos de transe, com conotação espiritual, podemos categorizá-los como:


a) Fenômenos de "Expansão" Espiritual: equivalem a expansibilidade dos corpos espirituais além da dimensão física. Ou seja, é a propriedade do Espírito encarnado de "ir ao encontro" da dimensão espiritual. Neste processo, o médium disponibiliza e exterioriza energias orgânicas e psíquicas, por conta do alto estado de relaxamento e concentração em que se encontra. O médium, neste caso, adquire uma percepção bastante dilatada do ambiente em que encontra-se e até mesmo de suas dimensões físicas (sensação de que o corpo está "dormente" e "inflando"). Estão contempladas neste tipo de fenômeno a clarividência, a clariaudiência, a psicometria, a projeção mental (conhecida como desdobramento), a materialização e a mediunidade de cura.



b) Fenômenos de "Aproximação" Espiritual: o "movimento" espiritual consolida-se no sentido  contrário ao da expansão, embora para que possa ocorrer, o início do processo seja equivalente. Ou seja, num primeiro momento, o médium também expande-se em direção ao mundo espiritual, estabelecendo sintonia com os Espíritos. No entanto, ao assimilar o contato experimentará um alto nível de agitação e impulsividade para determinados padrões de comportamento e movimento corporal. Em outras palavras, a pessoa modifica a sua fisionomia, sente forte impulso de falar e se movimentar (incorporação), escrever (psicografia), pintar (pictografia), entre outros. Isso deve-se ao fato de o médium disponibilizar, mesmo que parcialmente, o centro de sua consciência para que outra Individualidade manifeste-se.

Obedecendo a esta primeira categorização, podemos, do ponto de vista da fenomenologia orgânica - a partir de como os fenômenos impactam e manifestam-se no organismo -, classificá-los em:


a) Fenômenos de Expansão => Efeitos Colinérgicos: relacionados com o sistema nervoso autônomo (responsável pela vida vegetativa, a regulação dos processos involuntários do organismo, como a respiração, digestão, batimento cardíaco, circulação sanguínea e temperatura corporal). 

Tendencia de aumento na atividade do sistema digestório, diminuição da pressão arterial, diminuição da frequencia cardíaca, sensação de entorpecimento, sonolência, etc.

Um exemplo de efeito orgânico deste caso, ocorre quando a pessoa momentaneamente percebe-se registrando a presença de uma entidade espiritual e sente seus pêlos, "arrepiarem-se". Isso deve-se a uma substância chamada acetilcolina, neurotransmissor que produz um estado de excitação dos pelos e que está diretamente ligada ao Sistema Nervoso Autonomo.

Muitas vezes, embora a pessoa registre a presença da entidade espiritual, sentindo organicamente os efeitos do contato (entorpecimento, eriçamento dos pelos, aprofundamento da respiração, etc),  a impressão decorrente fica um tanto imprecisa e vaga, como se não houvesse um sentido daquela sensação. Ocorre que o contato, após ser registrado espiritualmente pelo indivíduo, é transmitido ao cérebro pelas chamadas "vias extra-leminiscais". implicando numa ativação sub-cortical do cérebro e ocasionando essa percepção difusa.

Para ficar claro. Quando olhamos para determinado objeto (uma cadeira, por exemplo), nossos olhos captam os estímulos luminosos, convertendo-os em impulsos elétricos que irão ser levados ao lobo occiptal (localizado na parte posterior do cérebro, acima da nuca), onde ocorrerá a interpretação da informação, gerando a imagem do que vemos.


O córtex cerebral é a faixa superficial do tecido cerebral (composto de 06 camadas de células) e, portanto, uma zona bastante delimitada. Só temos a percepção consciente do que vemos, ouvimos, degustamos ou tocamos, quando o estímulo é interpretado pela área do cérebro correspondente na região do córtex, ou seja, em sua superfície.


Como, no caso em questão, o estímulo foi levado ao cérebro pela impressão do corpo espiritual, logo, não foi ocasionada diretamente por um órgão do sentido. Neste caso, o cérebro não identifica qual a área responsável por fazer a sua interpretação, descarregando o estímulo elétrico nas zonas abaixo da sua superfície (abaixo do córtex, portanto, sub-cortical) gerando essa impressão vaga e inexpecífica.

No caso de um médium clarividente, por exemplo, a captação espiritual é comunicada ao cérebro e interpretada pela área correspondente, na sua superfície (córtex), e por isso ele terá a visão clara do espírito, podendo dar até detalhes de sua aparência, suas roupas, etc.

b) Fenômenos de Aproximação => Efeitos Adrenérgicos: também relacionado ao Sistema Nervoso Autônomo, cuja manifestação predominantemente ocorre pela liberação da Adrenalina.

Tendencia de aumento da frequencia cardíaca (taquicardia), da pressão arterial, aumento do fluxo de sangue notadamente na cabeça, aumento no consumo de glicose , aumento do fluxo renal (é comum o médium de incorporação ter vontade de ir ao banheiro durante os trabalhos), diminuição da atividade do aparelho digestório.

Glandula Pineal ( loc. centro do cérebro)
Sob o contato mediúnico de aproximação, verifica-se a presença de outra Individualidade, modificando o olhar, as feições e o perfil de personalidade - as atitudes e comportamentos diferindo do habitual, alterando humor e cometendo atos muitas vezes à revelia da vontade do médium -.

A característica desse fenômeno está ligada diretamente à Glândula Pineal. Essa glândula está localizada próximo ao centro do cérebro, entre os dois hemisférios.

Segundo os estudos do Dr.Sérgio Felipe de Oliveira (motivado pelas obras do espírito André Luiz que versavam a respeito desta glândula), o corpo pineal é o responsável por captar as influências espirituais e desencadear no organismo as reações compatíveis. Tal propriedade deste órgão deve-se ao fato de ser constituída por cristais de apatita, os quais são minérios produzidos pelo organismo (biomineralização), com propriedades diamagnéticas (eles repelem e reverberam o campo magnético dentro do cérebro).

O contato do Espírito encarnado com o mundo espiritual dá-se pela emissão e transmissão de magnetismo, cujas ondas podem deslocar-se fora do tempo e do espaço. Estas ondas magnéticas seriam as veiculadoras da mensagem do Espírito ao Corpo, sendo a Glândula Pineal o órgão responsável por captar essa informação e comunicá-la às áreas cerebrais pertinentes.

No caso do fenômeno de aproximação espiritual, predomina o comando dos lobos frontal e pré-frontal, responsáveis pela coordenação motora, articulação das palavras, atribuição de significado e todas as questões referentes à personalidade.

Assim é que a glândula pineal, após captar as "informações" de origem espiritual (as impressões do Espírito encarnado no contato com a dimensão extra-física), deve enviar para o lobo frontal (parte anterior do cérebro, a "frente" do cérebro)  tais registros para que sejam interpretados e significados.

Estes seriam os mecanismos básicos de funcionamento orgânico para a manifestação mediúnica, tanto de expansão quanto de aproximação. Para o médium "desenvolvido" ou em "desenvolvimento", a vivência do contato com o mundo espiritual automatiza esse mecanismo, para que este torne-se saudável, promotor de equilíbrio e saúde.

Dizemos isso pelo fato de que, no indivíduo com possibilidades mediúnicas afloradas, mas desinteressado e inconsciente das questões espirituais, os registros mediúnicos não são interpretados pelo lobo frontal (sede da vontade do homem) , "desaguando" na estrutura límbico-hipotalâmica cerebral (responsável pelos comportamentos emocionais, instintivos e inconscientes), amplificando as pré-disposições para o desenvolvimento de desarmonias físicas e/ou psíquicas.

Esse o significado do desenvolvimento e da aprendizagem mediúnica. O exercício prático por parte do médium, fá-lo-á identificar quais são seus padrões de funcionamento psíquico e orgânico em relação a sua sensibilidade mediúnica.

Adquirindo o hábito da oração e da prece, da concentração e da meditação a respeito de seus estados psíquicos e de transe, além da própria sistematização da prática (ter um dia e um horário definidos para dar vazão aos seus estados mediúnicos), é que o médium irá, aos poucos, aprendendo a respeito de si mesmo e ampliando suas possibilidades de experimentação dos contatos espirituais.

Importante considerar que a separação entre as duas características fenomenológicas (expansão e aproximação) é feita para fins de aprendizado e observação do contato espiritual, no entanto devemos lembrar que as possibilidades mediúnicas estão contempladas umas nas outras. Não há uma divisão clara e estática entre os fenômenos, pois classificamo-os de acordo com a dominância do perfil mediúnico (qual destes torna-se preponderante). Por isso é que podemos ter, por exemplo, durante um fenômeno de psicografia ou incorporação (aproximação espiritual) a correlação de fenômenos de vidência ou visão espiritual à distância (expansão espiritual).

Vale ainda considerar que, para tornar-se bem sucedida a vida mediúnica, de maneira que a prática espiritual torne-o rico em conteúdos positivos, contribuindo para a sua constante melhora como ser humano (espírito encarnado), o médium deverá possuir uma estrutura psicológica madura e centrada, para que não perca as referências a respeito de si próprio, pois entre a confluência de conteúdos psíquicos inconscientes que passam a emergir e chegar à sua consciência, estão aqueles:

- Plenificadores: dotados de aspectos positivos e repletos de significados emocionais profundos, ocasionando estados de paz, alegria, serenidade, felicidade, etc;

- Sombrios: no sentido de sombra, daquilo que não se conhece a respeito de si mesmo ou que está reprimido. Na sombra estão contidos os complexos da personalidade, e os mais comuns a serem assimilados pelo médium são os complexos de culpa (achar que deve salvar a humanidade) ou de poder (sentir-se vaidoso, portador de poderes acima das suas possibilidades e das demais pessoas).

Os conteúdos contidos na sombra tornam expostas as suas questões "mal resolvidas", a hipersenbilidade em relação ao ambiente e até mesmo um sentimento de "perda de identidade", pelo fato de identificar-se, por conta de sua mediunidade, de maneira exagerada com o outro (quando, obviamente, não possui dos recursos psicológicos para auto-avaliar-se).

A mediunidade provoca a flexibilização das fronteiras entre o insconciente e o consciente, e por isso o acesso aos seus aspectos de personalidade ignorados ou reprimidos dá-se de maneira intensa, podendo gerar uma forte identificação com tais questões, causando prejuízos para a sua estabilidade emocional. Por conta disso, os recursos da oração, da meditação e do estudo a respeito de suas possibilidades mediúnicas e de sua estrutura psicológica, facultar-lhe-ão uma dimensão bastante segura a respeito de si mesmo, engrandecendo-o em direção à sua ascensão espiritual.

Outra questão decorrente do que expusemos acima refere-se ao desenvolvimento mediúnico em crianças. Justamente pelos requisitos psicológicos que aventamos como sendo fundamentais para a manutenção da estabilidade emocional do indivíduo, cremos não ser recomendável a inserção da criança na prática mediúnica, uma vez que esta ainda está construindo sua estrutura de personalidade e consolidando seu Ego. Desde que a criança demonstre experiências possíveis de serem de ordem espiritual (uma vez que é um espírito encarnado e ainda com uma ligação muito intensa com as faixas espirituais), devemos acolhê-la com naturalidade, mas sem incentivar a manifestação espiritual.

É imprescindível lembrar ao candidato à Luz, que somente pelo mergulho nas sombras é que se pode tomar contato com a grandeza divina adormecida no âmago de si-mesmo, e que os vôos mais altos da espiritualidade só poderão tornar-se realidade a partir do consentimento lúcido por parte daquele que se candidate a vivê-lo, desprendendo-se das amarras que o retém na ignorância e na indiferença diante da Vida.

Por isso as disciplinas concernentes ao abandono de vícios e hábitos doentios, não são prescrições de ordem religiosa e moralista, mas constituem-se como indispensáveis para que o indivíduo possa reconhecer e adestrar sua mente, tornando seus filtros mediúnicos límpidos e sintonizados com as esferas de Luz.

Lembremos que a faculdade mediúnica, embora seja mecanismo de libertação do espírito, pelas possibilidades de dilatação do entendimento da vida e de si-mesmo que proporciona,  é antena receptora das faixas espirituais, de onde procedem inteligências de várias graduações. Pela nossa condição de espíritos encarnados, com nossas luzes e nossas sombras, estamos sujeitos às influenciações dos Numes Celestes tanto quanto dos sofredores, ignorantes e maus.

Finalmente, esperamos ter contribuído um pouco mais com o esclarecimento de aspectos pontuais a respeito das manifestações mediúnicas, na intenção de fazermos luz para todos aqueles que possuam interesse e vontade de alçar vôos mais altos em direção à Espiritualidade Maior.

Que os Orixás nos abençoem!

Saravá!

Bibliografia Consultada:

Oliveira, Sérgio Felipe de (2008). Estrutura da Glândula Pineal Humana (tese de mestrado)
_____________________ (2010). Sintomas da Alma (entrevista a revista Joyce Pascovitch)
_____________________ (2006). Falando com o Além (materia revista IstoÉ)
_____________________ (2006). Médiuns (materia revista IstoÉ)
_____________________ web site: http://www.uniespirito.com.br/
Miranda, Projeto Manoel Philomeno de (2003). Consciência e Mediunidade
_______________________________ (1994). Vivência Mediúnica
Xavier, Francisco Cândido; Vieira, Waldo (1959). Mecanismos da Mediunidade (pelo espírito André Luiz)
________________________________ (1958). Evolução em Dois Mundos (pelo espíritos André Luiz)
Franco, Divaldo Pereira (2002). Triunfo Pessoal (pelo espírito Joanna De Angelis)
Novaes, Adenáuer (2002). Psicologia e Mediunidade
Almeida, Alexander Moreira de (2004). Fenomenologia das experiências mediúnicas, perfil e psicopatologia de médiuns espíritas (tese de doutorado)
Maraldi, Everton de Oliveira (2011). Metamorfose do espírito: usos e sentidos das crenças e experiências paranormais na construção da identidade de médiuns espíritas (tese de mestrado)
 Morini, Carlos Augusto Trinca (2007). Ritual de Umbanda: A influência dos estímulos somato-sensoriais na indução do transe mediúnico  

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A Dança Ritualística da Umbanda


Por: Gregorio Lucio

Lembramo-nos de uma conversa com um companheiro de nosso cazuá, o qual lembrava-se naquele instante de um ensinamento passado a ele por nossa mãe-de-santo há muitos anos: A força do Guia está na mente do médium.


O movimento rítmico é a linguagem fundamental para expressarmos aquilo que experienciamos interiormente e cujo significado encontra-se além da razão. Aquilo que não pode ser expresso somente por palavras, encontra um profundo sentido e expressão na dança ritualística.

Essa realidade da manifestação espiritual na Umbanda reside em experiências as mais remotas, que temos vivenciado desde nossas primeiras encarnações como seres humanos neste planeta Terra.

Cremos que as primeiras práticas religiosas surgem do contato direto que os homens primitivos encarnados tiveram com os Espíritos e com fenômenos co-relacionados a estas experiências transcendentes. A repetição destas experiências afixou-se em nossas estruturas inconscientes, as quais compartilhamos coletivamente (inconsciente coletivo).

A dança está, portanto, diretamente relacionada a cultura, a religião e a arte.

A palavra Reigen, ou dança em roda, é vista como herança dos ancestrais. Langer diz que
"a dança em círculo realmente simboliza uma das realidades mais importantes da vida dos homens primitivos - o reino sagrado, o círculo mágico. O Reigen, enquanto forma de dança não tem nada a ver com o saltitar espontâneo; preenche uma função sagrada da dança - divide a esfera da santidade da esfera da existencia profana. Dessa maneira, ele cria o palco da dança, que se centraliza naturalmente no altar ou seu equivalente - o toten, o sacerdote, o fogo - ou talvez o urso abatido ou o chefe morto a ser consagrado" (Langer, apud Fatima 2001).

A dança ritualística corresponde a uma oração corporal, a prece em movimento. No entanto, durante a ascensão do Cristianismo na cultura ocidental, o corpo foi desconsiderado e visto como instrumento de pecado, merecendo, portanto, o repúdio. Por exemplo: entre os anos 465 e 1453 da era cristã, o ato da dança era considerado pecado gravíssimo perante a Igreja.

Assim, na cultura cristã, a prece passou a ser somente falada, pensada, mentalizada, tornando-se um ato mais abstrato e individualista.

Segundo cremos, a execução da dança ritual serve como instrumento de harmonização do indivíduo com o Cosmo, reordenando em si as forças do universo, reintegrando-as em nós mesmos.

A oração corporal, expressa pela dança ritual, coloca a prece em movimento, promovendo a harmonia entre espírito - mente - corpo, canalizando as energias transcendentes, advindas do mundo espiritual, e externando-as na dimensão material.

Sendo assim, sentir, pensar e agir, se tornam em movimento ritual (Fatima, 2001)


"O movimento sempre foi empregado com dois propósitos distintos: a consecução de valores tangíveis em todos os tipos de trabalho, e a abordagem de valores intangíveis na prece e na adoração. Ocorrem os mesmos movimentos corporais tanto no trabalho quanto na veneração religiosa, conquanto difira na sua significação em ambas as instâncias" (Laban, apud Fatima, 2001). 

Na Umbanda, o fenômeno mediúnico consolida-se no movimento. Este, por sua vez, ocorre na dança ritualística, pela qual o médium comunica corporalmente seu estado de transe e deixa transparecer "o outro" espiritual que naquele momento apodera-se, mesmo que parcialmente, de sua mente.

"A dança, por isso, não é apenas a transparência do divino, assim como uma janela aberta, uma vista para o divino. A dança também não é uma viva imagem reminescente - a dança é, em tempo e espaço, um signo, um acontecimento visível, uma forma cinética para o invisível" (Wosien, apud Fatima 2001).

Hanna afirma que "dançar pode levar a estados alterados de consciência (que mudam os padrões fisiológicos na frequencia das ondas cerebrais, na adrenalina e no açucar do sangue) e, em consequencia, à alteração da ação social"(Hanna, apud Fatima 2001).

Isso implica que o médium, utilizando-se da dança ritual, perca o controle sobre si mesmo. O que é natural, pois para que possa haver o contato mediúnico, ou seja, para que a mente do médium possa ser acessada por outra mente (a do Guia), é necessário que por instantes este perca o controle sobre si mesmo.

Na dança ritual o médium libera a irradiação da energia espiritual de seu Guia, por meio da expressão mental manifesta no corpo. O Círculo feito durante a dança (em volta de si mesmo e em volta do centro imaginário do terreiro) afasta tudo o que se refere à consciência objetiva e individual do médium, concentrando ali somente o que há de espiritual e divino em si. Neste momento, tudo o que pertence a esta vida sai de cena para emergir do mais inconsciente do médium a sua realidade plena e espiritual, em união com o sagrado, o divino, o seu Orixá.

Fazendo uma analogia, o movimento circular, característica geral da dança ritualística, simboliza o arquétipo junguiano do Self (centro e totalidade da personalidade humana). O círculo possui uma propriedade simbólica de perfeição, ausência de divisão, homogeneidade (Almeida, 2005).

Na verdade, são quatro os símbolos fundamentais e universais: círculo, quadrado, cruz e centro.

O centro, além de ser um dos símbolos fundamentais, aparece na liturgia sempre associado a um dos outros símbolos, devido a idéia de movimento expressa por essa conjunção centro-eixo, presente na estrutura dos demais símbolos (cruz, círculo e quadrado).

Assim é que nas danças circulares sagradas, os movimentos rituais dão-se em relação a um centro disposto no local, geralmente simbolizado por um ou mais elementos tais como: vela, fita, imagem, símbolo cabalístico (ponto riscado, no caso da umbanda) ou a cruz. Tais elementos dispostos no centro do terreiro, têm a função referencial de conjunção entre o terreno e o divino, espiritual e material, o "axis mundi" (ponto de ligação entre a Terra e o Céu).

Ao longo do transe, as entidades manifestadas pelos médiuns, executam danças e gestos que caracterizam e exprimem símbolos arquetípicos de caráter numinoso, como identificação da espiritualidade umbandista, como sejam os movimentos circulares ou em forma de cruz, as representações feitas (geralmente com as mãos) simbolizando flechas, espadas, lanças, espelhos, pentes, laços, etc.

Sachs fala das danças medicinais xamânicas. Nestas práticas, o doente era colocado no centro do círculo, e o xamãn, médico, curandeiro, dirigia a dança circular, até que os dançarinos entrassem em êxtase, até que subjugassem aquele espírito da enfermidade que tomava aquele corpo doente, o afastassem, ou o possuindo em si mesmo (no sentido da possessão) pudessem vencê-lo (Almeida, 2005).

Aqui está um dos grandes sentidos de trabalhos de ordem espiritual, visando a cura (física, psíquica e espiritual) muitas vezes empregados pelos nossos Caboclos, principalmente, em nossas giras. A corrente mediúnica é mobilizada a trabalhar com seus guias, pela dança ritualística, em torno de um enfermo (geralmente posto ao centro ou a frente do conga) sob o qual serão direcionadas as irradiações dos Orixás e do qual serão retiradas e dispersas as negatividades de várias ordens.

A dança ritual também foca a atenção aos pés, conectando-nos com a Terra. O pé é o símbolo de nossa força, pois é ele quem nos mantém eretos. Pelos pés inicia-se o enraizamento de nossa vida psíquica, corpórea e espiritual (Almeida, 2005).

O médium em transe mantém os pés sempre em ligação com o chão, simbolizando a ligação com a Terra, a ancestralidade (os pés descalços relembram as danças dos Negros e dos Indígenas Brasileiros). O corpo do médium neste momento simboliza a memória coletiva de um povo e a tradição da cultura Umbandista.

A prática da dança ritualística de maneira ordenada e efetuada com conhecimento ocasiona uma condição de saúde mental, valoriza a imagem corporal do indivíduo e coloca-o em uma condição de relacionamento saudável consigo mesmo e com a coletividade.

Havíamos colocado uma perspectiva a respeito do princípio de Individualidade do ser humano, a qual manifesta-se pela multi-corporeidade, ou seja, na existência de não só um, mas vários corpos (estruturas sutis - ver: A Defumação). Como havíamos colocado na ocasião, estes corpos sutis são portadores de movimento/vibração, sendo que estes, ao movimentarem-se de maneira harmoniosa, promovem a homeostase, a condição de saúde (mental, emocional e física).

A dança ritual estabiliza estas estruturas, integrando-as com o corpo físico, abrindo campo para os estados alterados de consciência (estados superiores de consciência) em forma de transe mediúnico, conforme já havíamos salientado. 

A essência da dança é holistica (Fatima, 2001), ou seja ela integra aspectos sociais, espirituais e cósmicos. Por conta disso, utilizamo-nos do movimento para expressarmos nossas tradições; o contato com o mundo espiritual; a alteração da consciência.

O sentido de irmos para dentro de nós, fazendo emergir a luz divina de nossa realidade mais essencial, porta pela qual "passam", de Aruanda para a Terra, os nossos Guias e Protetores, está em razão de podermos encontrar sempre, no fundo de nosso ser, a grandiosidade do Orixá que vive dentro de nós e possamos compartilhar com a vida os resultados desta busca, pela beleza e pela musicalidade de nossas práticas espirituais, profundas em sabedoria e sensibilidade.

Que Oxalá esteja no coração de todos nós!

Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:

Fatima, Conceição Viana de (2001). Dança Transcendente (tese de mestrado)
Almeida, Lucia Helena Hebling (2005). Danças Cirulares Sagradas: Imagem corporal, qualidade de vida e religiosidade segundo uma abordagem Junguiana (tese de doutorado)
Santos, Tadeu dos (2003). O corpo como um texto vivo (artigo científico)
Pelliciari, Fabiana Sampaio (2008). Estudo da Significancia do corpo na Umbanda: limites e possibilidades de aplicabilidade de alguns conceitos lacanianos (tese de mestrado).

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O Atabaque


Por: Gregorio Lucio

A expressividade do uso rítmico é a comunicação, e o atabaque constitui-se como o veiculador da linguagem ritual nas giras de Umbanda.

Embora o propósito deste blog seja discutir os principais aspectos da Umbanda sob uma conotação que saia, pelo menos um pouco, do "senso comum", faz-se inevitável iniciarmos este artigo tratando de aspectos básicos a respeito do Atabaque, suas características físicas e sua relação de origem com a cultura Afro-Brasileira.

Esq a dir: Rum, Rumpi e Lé
A cultura negra é a proprietária da utilização dos atabaques, e as religiões afro-brasileiras (notadamente os Candomblés) foram as guardiãs desta memória cultural ao longo da história.

A palavra Atabaque, tal como a conhecemos, vem do árabe "attabl". Na África o atabaque possui denominação própria, como os conhecidos pelos povos africanos que chegaram ao Brasil, cujos nomes são rum, rumpi e lé (Bina, 2006).

Esta tríade de Atabaques, forma a composição básica presente nos diversos terreiros de Candomblé e Umbanda no Brasil. Nos Candomblés mais especificamente, o conjunto instrumental básico é composto dos atabaques (rum, rumpi e lé) somados ao agogô.

Segundo a função de cada um destes, basicamente o Rumpi e o Lé estão destinados a manter o ritmo, a fazer o toque de base, enquanto cabe ao Rum a execução de repiques e técnicas percussivas específicas para caracterizar os toques. Sendo assim, fica evidente que o Rumpi e o Lé estão ligados àqueles tocadores com menor vivência dentro do rito e também menor experiência no domínio do instrumento, enquanto o Rum é destinado a ser tocado pelo Ogã com maior tempo de casa e consequente maior habilidade sobre o instrumento (o Alabê, no caso do Candomblé e de algumas casas umbandistas).

Na iniciação ao aprendizado do Atabaque nos templos de Candomblé e Umbanda de uma maneira geral, o neófito começa tocando o Lé, passando ao Rumpi e depois de completo o aprendizado, não só da técnica para tocar o instrumento, mas também depois de aprender todo o conjunto ritual e simbólico daquela tradição, é que passará a ser o tocador do Rum, encarregando-se de zelar pela Curimba, pelo andamento dos trabalhos no que tange à execução musical, entre outras atribuições dentro da casa.

No Brasil damos o nome de Atabaque aos tambores trazidos pelos povos negros, de uma maneira geral, no entanto estes instrumentos possuem um sistema de fabricação atual que também foi desenvolvido no Brasil e, portanto, é diferente do método de fabricação nos países africanos.

Atabaque, no Brasil tornou-se, portanto, um termo genérico.

Em outras regiões do continente americano, o atabaque também recebe o nome de Engoma ou Ngoma (palavras originadas de línguas bantu).


Tratando agora de maneira um pouco mais específica deste instrumento, em relação a sua característica física e sonora, temos primeiramente que o Atabaque é um instrumento de Percussão.

Percussão é o nome coletivo para designar os instrumentos cujas vibrações são produzidas através de choque (Bina, 2006).

Dentro das categorias dos instrumentos de percussão, os quais podem ser membranofones ou autófonos, o Atabaque está entre os primeiros (membranofones), pois possui uma membrana ou pele, própria para a percussão. Já os autófonos não possuem membranas ou peles, sendo sua sonoridade extraída do toque direto em seu próprio corpo (madeira ou metal, como é o caso do ganzá, do reco-reco, do adufe, etc).

Especificamente, o Atabaque seria um instrumento unimembranofônico, pois que possui somente uma pele para percussão, conquanto podem existir outros, como os Ilús, em Recife, que possuem duas peles, distribuídas nas extremidades do tambor.

Segundo Cardoso (2006): As formas de tensão do couro dos atabaques são várias: cunhas de madeira que tensionam os aros, por meio de cordas presas no alto e no meio da caixa acústica, chamados de "atabaques de cunha"; o couro esticado por pinos de madeira, presos à caixa de percussão, segundo Lody, chamados de "Sô" (Lody, 1989, p. 23); ou tensão do couro "[...] feita por parafusos presos à borda do instrumento"(Barros, p. 2000, 48).

Após estas considerações preliminares a respeito do Atabaque, entramos no significado de sua utilização na rito-liturgia umbandista.

Como dissemos na primeira frase deste post, o uso rítmico (expresso pelo atabaque) na prática umbandista, destina-se a um processo de comunicação e não somente de produção musical.

A comunicação é expressa por códigos, ou seja, "[...] um grupo de símbolos capaz de ser estruturado de maneira a ter significado para alguém" (Berlo, apud Cardoso 2006).

O Atabaque é o instrumento que sustenta a linguagem ritual, pois que por meio desta entoamos cânticos responsoriais (de "pergunta e resposta"), formando coros para momentos específicos dos Pontos, ou em resposta àquele que executa o solo (o "ogã" responsável pela Curimba ou o próprio Babalorixá/Yalorixá).

Isso caracteriza um aprendizado e um consequente conhecimento do Ritual por parte dos frequentadores do terreiro, e mais especificamente dos médiuns da casa. Tal conhecimento é obtido por meio da vivência e da frequencia destes às giras.

O toque dos atabaques dá-se também de maneira característica em momentos diversos ao longo do rito, identificando fases diferentes da liturgia (abertura, encerramento, chegada de uma Entidade ou pessoa importante, etc).

Assim é que, tanto no que se refere a aprendizagem dos cânticos quanto dos toques, a observação, tradição oral e incorporação comportamental funcionam como importantes mecanismos de aprendizagem (Cardoso, 2006) na prática religiosa umbandista.

A percussão se toca com a mente e não com o corpo (Bina, 2006).

Pela frase exposta acima, podemos refletir a respeito do ato de tocar o Atabaque dentro do rito.

É evidente que não podemos excluir os fatores extra-musicais (o corpo) da execução musical, pois muito de seu significado só pode existir na medida em que é executado por um gesto musical, a percussão do instrumento. Para que a mente possa manifestar-se neste sentido, esta necessita do movimento corporal (gesto) e, obviamente, do corpo.

O cuidado para tocar o Atabaque exige perícia e consciência ritualística por parte de seu tocador, pois que este é um instrumento musical, sob o qual lançam-se técnicas específicas para que seja percutido adequadamente, produzindo música. E neste caso, de maneira ainda mais específica, musica sagrada, como são as nossas curimbas.

O toque deve, enfim, ser harmônico e constante em sua sonoridade, para que possa produzir um padrão estético e para que a sua mensagem possa ser transmitida e entendida pelo grupo presente ao Rito.

"O princípio de que o tambor 'fala' baseia-se no fato de o iorubá [também as linguas bantu] ser uma lingua tonal, em que o significado de uma palavra depende em parte do tom utilizado. As linhas tímbricas produzidas pelo tambor que fala, seguem com grande finalidade os esquemas tonais e rítmicos da fala" (Murray apud Bina, 2006).

Como somos herdeiros da cultura musical africana, cuja expressão de sua religiosidade e sua relação social é caracterizada pelo canto, pela dança e pela execução de instrumentos musicais específicos, assimilamos o princípio ancestral de que o Atabaque possui a capacidade de comunicação entre os indivíduos (coletivamente) e também entre o mundo físico e o mundo espiritual.

Na Umbanda, a Divindade torna-se presente de maneira objetiva, representada pelos Guias e Protetores manifestados pelo transe mediunista em seu "cavalo" ou, de maneira subjetiva, quando da ausência do fenômeno. No entanto, a música sempre permitirá o direcionamento de nossos louvores, rogativas e agradecimentos para os planos celestes, efetuando um processo de comunicação e diálogo entre os homens e os Orixás.

O Atabaque possui, então, a função transcendente de auxiliar na aproximação do mundo espiritual com o mundo físico, ou seja, promover a fusão, a unicidade destes "dois mundos", sacralizando o ambiente terreno (o terreiro) e envolvendo a todos num momento de felicidade, de prece, e de contato com o Sagrado.

Segundo Grof (2000) "...a respiração, a música e outras formas de tecnologia sonora têm sido usadas por milênios como poderosas ferramentas em práticas espirituais e rituais. Desde tempos imemoriais, o monótono som de tambores, cânticos e outras técnicas de produção de som têm sido as principais ferramentas de xamãs em diferentes partes do mundo. Muitas culturas pré-industriais desenvolveram, de maneira bastante independente, ritmos de tambores que em experimentos laboratoriais têm notáveis efeitos sobre a atividade elétrica do cérebro".(Morini, 2007).

Fique claro. Não é o Atabaque que produz o fenômeno do transe, no entanto, dentro do contexto ritual, ele possui o papel de influenciar os estados cerebrais para o acesso a diferentes níveis de consciência.

Adicionalmente, é comum na "linguagem de terreiro" dizer-se que são os atabaques que vão "buscar e levar embora" as entidades espirituais que presentificam-se nas giras. Evidente que isso é uma linguagem simbólica, pois que os espíritos encontram-se no templo religioso muito tempo antes dos próprios médiuns chegarem para os trabalhos. Os Guias preparam e sustentam o ambiente espiritual muitas horas antes do início das giras.

É justamente pela função simbólica da comunicação com o mundo espiritual e pela sua influência nos estados cerebrais, propiciando a experiência do transe, que o atabaque ganha essa conotação mística no imaginário umbandista de poder chamar e mandar embora os entes espirituais.

Esperamos ter deixado claro, embora ainda passível de aprofundamentos, o significado da utilização dos Atabaques, seu valor simbólico dentro da linguagem ritual e sua função espiritual dentro da prática umbandista.

Oportunamente publicaremos novo artigo, tratando da Dança Ritualística, finalizando a série Música e Movimento na Umbanda.

Saravá a todos!

Bibligrafia Consultada:
Sena, Severino (2010). ABC do Ogã - O valor da curimba na Umbanda
Cardoso, Ângelo Nonato Natale (2006). A Linguagem dos Tambores (tese de doutorado).
Bina, Gabriel Gonzaga (2006). A contribuição do Atabaque para uma liturgia mais inculturada em meios afro-brasileiros (tese de mestrado)
Morini, Carlos Augusto Trinca (2007). Ritual de Umbanda: As influências dos estímulos somato-sensoriais na indução do transe mediúnico (tese de mestrado)
Freitas, Emília Maria Chamone (2008). O gesto musical nos métodos de percussão afro-brasileira (tese de mestrado)
Carvalho, José Jorge de (1998). A tradição mística afro-brasileira (artigo Revista Religião e Sociedade).

sábado, 13 de agosto de 2011

A Curimba e o Ponto Cantado


Por: Gregorio Lucio 

Seguiremos neste novo artigo, desdobrando aspectos dos dois elementos rituais citados no anterior (ver: Musica e Movimento na Umbanda). 

Traremos em posts futuros considerações acerca de: Atabaque e A Dança Ritualística na Umbanda.

Por hora, tratemos da Curimba e do Ponto Cantado.

Conforme havíamos citado anteriormente, a musicalidade umbandista é manifestada no Ponto Cantado e executada pela Curimba. Sua utilização no ritual é destinada a determinar os diversos momentos da gira. Em relação aos Pontos Cantados, podemos classificá-los como:

a) pontos de preparação;
b) pontos de abertura;
c) pontos de defumação;
d) pontos de coroa da casa (entidades e orixás regentes da casa);
e) pontos de coroa do babalorixá/yalorixá;
f) pontos de chamada das falanges espirituais;
g) pontos de subida das falanges espirituais,
h) pontos de sustentação;
i) pontos de saudação (a determinada entidade);
j) pontos de louvação.

O Ponto Cantado expressa uma linguagem específica dentro da simbologia do rito de Umbanda, a qual destina-se a comunicação de valores espirituais, próprios da religiosidade de seus adeptos (seja em seus símbolos, seja em sua comunicação de experiências vividas dentro daquela casa).

Assim é que pelo Ponto Cantado reconhecem-se aqueles que são:

a) Pontos de Raiz: trazidos e comunicados (cantados) pelas Entidades Espirituais dentro e durante o Rito.

b) Pontos  "Terrenos": seriam aqueles concebidos pelos médiuns (geralmente os dirigentes da casa) por via intuitiva, revelados em sonhos, em "insights" que podem ocorrer de maneira espontânea, etc.

*o importante a considerar a respeito dos Pontos Cantados é que sempre deve-se tomar atenção e cuidado para que seu conteúdo seja coerente e significativo.


A Umbanda utiliza-se de linguagens alternativas para transmitir seus valores e suas crenças (a dança, o canto, a ritualística, a simbologia, a gestualidade, etc).


Dizemos "linguagem alternativa" pois, em nossa sociedade, a escrita é a forma de comunicação tida como a predominante e mais importante. No entanto, ressaltamos que isso é um aspecto cultural e não devemos relegar a um plano secundário outras formas de expressão da subjetividade humana, conforme estas que nos utilizamos fartamente na Umbanda.

Sendo assim, nossa maneira própria de orarmos é através do canto.

O Ponto Cantado vai então simbolizar a prece, nossos louvores, rogativas e agradecimentos à Espiritualidade Maior, aos planos de Aruanda, aos nossos Guias e Protetores, à Divindade.

Quando entoamos nossos cânticos, visamos aproximar nossos pensamentos e emoções:

1º Coletivamente: a coletividade presente ao rito (não somente os médiuns) harmoniza-se e direciona-se em torno de um pensamento em comum, comungando o sentimento religioso.

2º Espiritualmente: pela entoação dos cânticos nos transportamos pelo pensamento e emoção aos ambientes e paisagens "contados" no texto musical de cada Ponto, aumentando nossa ligação com a energia espiritual evocada em cada um destes.

Façamos uma reflexão um pouco mais aprofundada a respeito das idéias acima expostas, pois que estas refletem aquilo que já é sabido, de "senso comum", entre os umbandistas.

Herdamos culturalmente a expressividade religiosa, por meio do canto, dos povos bantus. É interessante termos isso em foco pois a partir daí é que poderemos entender com maior profundidade a grande relevância que a expressão do canto possui no culto umbandista.

Escola de Curimba Aldeia de Caboclos
A cultura bantu (dos negros vindos de Angola e Congo mais expressivamente), por ser ágrafa, ou seja, por não utilizar-se da linguagem escrita, utiliza-se da música (entenda-se como música: som e movimento) como forma de dar significado a sua religiosidade e para transmitir seus conhecimentos ao longo das gerações. Conforme o antropólogo Kasadi wa Mukuna: "A música fornece um canal de comunicação entre o mundo dos vivos e dos espíritos e serve como meio didático para transmitir o conhecimento sobre o grupo étnico de uma geração para outra" (Mukuna, apud Barbara, 2001).

Essa explicação é fundamental, pois para essa cultura, a música não é só uma expressão estética para a fruição de sentimentos e emoções (Prandi, 2005), assim como é para a cultura ocidental. Em outras palavras, na Umbanda não cantamos só por que é bonito e agradável. Nosso canto está carregado de espiritualidade e ancestralidade.

Ancestralidade, outra questão fundamental.

É pelo Ponto Cantado que comunicamos dentro da tradição as nossas experiências vividas com o mundo espiritual. Quando os Guias trazem seus Pontos, marcam na história daquela coletividade a sua memória, assim como eternizam na lembrança do grupo aqueles Espíritos e médiuns que participaram e compartilharam da vivência dentro das Leis de Umbanda.

Bem, estando claras nossas concepções a respeito dos Pontos Cantados, entraremos agora no conjunto humano encarregado de executá-los por meio de instrumentos rítmicos e percutidos harmoniosamente: a Curimba.
Tínhamos dito que a Curimba, de maneira geral, refere-se à execução coletiva do Ponto Cantado, não necessariamente utilizando-se de instrumentos musicais. Isso por que existem templos que não se servem de tais recursos para a entoação dos cânticos. Ex: Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. Lá os Pontos são entoados sem nenhum instrumento e sua marcação dá-se pelo rítmo dos pés batidos no chão.

Em outras casas, onde também não estão presentes tais instrumentos, utiliza-se, em conjunto com os cânticos, as palmas.

Nas casas em que são utilizados os instrumentos sacros para a execução dos Pontos, ficou-se caracterizado que o grupo de pessoas responsável por tais instrumentos recebessem o nome de Curimba ou Curimbeiros.

Em muitas dessas casas, aliás, a Curimba seria a segunda mais importante atribuição dentro da hierarquia de culto umbandista, abaixo, obviamente, do(a) babalorixá/yalorixá.

A Curimba tem sob sua responsabilidade o zelo pelos instrumentos que serão utilizados no rito, seja em sua "afinação", seja em sua conservação, seja em sua preparação ritualística para que sejam percutidos durante as giras.

Sua composição básica gira em torno dos Atabaques. Estes são os principais instrumentos da Curimba. Afora os atabaques, também podemos encontrar em diversas casas, composições variantes de outros instrumentos, quais sejam:

a) Pandeiro;
b) Surdo;
c) Triângulo;
d) Agogô;
e) Ganzá;
f) Xequerê, etc.

Agogô
Há ainda em algumas casas o uso de instrumentos de corda (como o violão), mas já numa frequência bem menor.

A função da Curimba, segundo cremos, é sustentar o ambiente espiritual dos trabalhos, e portanto, deve ser executada por pessoas que dominem os instrumentos, e saibam conduzir a ritmicidade e mesmo a modulação da "altura" do som, de acordo com cada momento ritualístico.

Surdo
Outra função fundamental da Curimba em uma gira de Umbanda, embora muito pouco percebida pelos médiuns, é a de regular o ritmo e a intensidade do transe.

É pelo rítmo ditado pela curimba que o médium deve situar a intensidade de seus movimentos, quando da dança ritualística, executando-a em harmonia com o contexto sonoro dos trabalhos espirituais.

Conforme diria Leopold Senghor: " o ritmo é a arquitetura do ser humano, a dinâmica interna que lhe dá forma. O ritmo se expressa através de meios os mais materiais, através de linhas, cores, superfícies e formas de pintura, nas artes plásticas e na arquitetura. Através dos acentos na poesia e na música; através dos movimentos na dança. Com esses meios o ritmo reconduz tudo no plano espiritual: na medida em que ele sensivelmente se encarna, o ritmo ilumina o espírito" (Senghor, apud Prandi 2005).

Xequerê
Essa regulação da intensidade de movimentos, sustentada pela Curimba, também deve ser observada num contexto coletivo, ou seja, a maneira como essa influencia a corrente de médiuns, como uma espécie de "energia cinética, energia que capta e propulsiona  a vibração do movimento pessoal e do outro" (Bárbara, apud Prandi 2005).

Todos estes conhecimentos, acima expostos, por parte dos Curimbeiros, dão-se pela vivência dentro do Rito, e obviamente, pelo interesse e pelo esforço individual em aprender e se aprimorar na execução de cada instrumento.

Triângulo
Desde a postura corporal até o ato de respeito junto ao instrumento devem ser incorporados pelo participante da Curimba, para que este possa realizar um bom trabalho.

Pandeiro
A postura corporal é fundamental, pois ele deve saber tocar o instrumento ao invés de bater no instrumento. Isso evita que se saia do trabalho com as mãos machucadas, os ombros e as costas doendo, e ainda dando desculpas de que " O trabalho foi pesado", "quem fica na curimba apanha", que "quem fica na curimba tem que segurar toda a vibração negativa dos trabalhos"...etc...etc.

Nada disso. Quem participa de um trabalho espiritual numa casa séria e nobre, seja médium ou curimbeiro, e sai com dores "aqui e ali", sai por que está trabalhando de maneira inadequada. Somente isso.

Ganzá
Ademais, a execução correta dos instrumentos sacralizados, assim
como o canto afinado e melodioso dos Pontos, devem ser vistos com grande atenção, caso contrário, podem tornar-se em "barulho e gritaria", fazendo com que as pessoas saiam ao fim do trabalho dizendo-se perturbadas, carregadas, etc.

O respeito aos instrumentos sacros e a atribuição de Curimbeiro devem ser fundamentais para aquele que pretende, de bom coração, servir aos trabalhos espirituais em nossa Umbanda.

O trabalho espiritual é momento sério, para onde vão pessoas muitas vezes padecendo problemas intensos, vividos no âmago d'alma, aflitas e necessitadas de amparo espiritual, uma palavra de carinho e de esperança.

Por isso, não devemos tornar nossos terreiros em palcos para exibicionismos, senão em templos de abnegação e caridade, consolo e esperança, fazendo de nossas giras momentos, sim, de beleza e alegria, de musicalidade, transmitindo nossa mensagem de renovação ao coração daqueles que nos buscam, por meio da palavra cantada e do sentimento profundo de fé em nossos Orixás.

Saravá a todos!

Bibliografia Consultada:

Linares, Ronaldo A.; Trindade, Diamantino F.; Costa, Wagner V.(2010). Iniciação à Umbanda
Sena, Severino (2010). ABC do Ogã - O valor da curimba na Umbanda.
Tinker, José Jorge de Carvalho (2000). Um panorama da música afro-brasileira (artigo Serie Antropologica)
Silva, José Roberto (2009). Paisagem sonora Umbandista (trabalho de conclusao de curso)
Lima, Daniel T. F.; Silva, Paula M.F.(2009). O Canto às Orixás: A presença feminina da religiosidade afrobrasileira nas canções (artigo científico)
Amaral, Rita; Silva, Vagner Gonçalves da (2006). Foi conta pra todo canto: As religiões afro-brasileiras nas letras do repertório musical popular brasileiro (artigo cientifico)
Barbara, Rosamaria Susanna (2001). A dança das iabás: dança, corpo e cotidiano das mulheres de candomblé (tese de doutorado)
Prandi, Reginaldo (2005). Musica de fé, musica de vida: a música sacra do candomblé e seu transbordamento na cultura popular brasileira (artigo científico)