quinta-feira, 1 de março de 2012

Processos Mentais e o Transe Mediunista (Parte II)


Por: Gregorio Lucio

Em continuidade ao post Processos Mentais e o Transe Mediunista (Parte I ) , prosseguiremos relacionando os estágios estruturantes do Transe de caráter Mediunista. Enfocaremos, assim, o 4º e o 5º estágios.

Tornar-se ciente da sucessão de emoções, lembranças, pensamentos, imagens, linguagens e sensações, implica no processo da Consciência a dobrar-se sobre si mesma, intensificando a noção do eu como um processamento subjetivo que mantém o indivíduo no centro da experiência mental, integrando, por intermédio da função seletiva do mecanismo atencional, o conjunto de processos mentais que servirão para a sua presente experiência psíquica, não desvinculando-lhe do contato com o meio no qual se encontra (o médium não perde o contato com o ambiente).

"Milhões de itens [...]são apresentados aos meus sentidos e nunca entram propriamente na minha consciência. Por que? Por que não tem interesse para mim. Minha experiência é aquilo que eu concordo em prestar atenção [...]. Todos sabem o que é a atenção. É a tomada de posse pela mente, de forma clara e vívida, de um dentre o que parecem ser vários objetos possíveis simultâneos ou linha de pensamento". (William James apud Lima, 2005)



Atenção - Percepção (4º estágio estruturante) localizarão, no nível consciente, as ocorrências psíquicas e corporais que servirão para caracterizar o momentum do entrelaçamento com as irradiações da Personalidade Espiritual que estreita vinculação com o psiquismo mediúnico.

Em torno da Atenção, devemos conceituá-la como "a capacidade do indivíduo responder predominantemente os estímulos que lhe são significativos em detrimento de outros". (Lima, 2005). Consideremos, então, que a atenção é um processo mental, cujos seus mecanismos de funcionamento estão predominantemente ligados ao aparelho cerebral. Ou seja, sua elaboração possui dominância fisiológica.

A atenção possui 3 características importantes, referidas por William James como:

"- A possibilidade de se exercer um controle voluntário da atenção;
- Inabilidade em atender diversos estímulos ao mesmo tempo, ou seja, o caráter seletivo e focalização;
- Capacidade limitada do processamento atencional". (James apud Lima, 2005)

Adicionalmente, devemos ter em conta que "[...] aquilo que percebemos depende diretamente de onde estamos dirigindo nossa atenção. O ato de prestar atenção, independente da modalidade sensorial, aumenta a sensibilidade perceptual para a discriminação do alvo, além de reduzir a interferência causada por estímulos distratores" (Pessoa apud Lima, 2005). Em decorrência disso, na construção do estado alterado de consciência, os mecanismos atencionais  sustentam a percepção do somatório de ocorrências sucedidas tanto no campo psíquico quanto fisiológico. 

A possibilidade de perceber, está diretamente ligada a capacidade atencional do indivíduo. De tal sorte que, podemos conceituar a Percepção como significados atribuídos pelo cérebro as informações obtidas pelos órgãos dos sentidos.

Ambas (atenção e percepção) irão veicular-se ao campo da memória e emoção, as quais detém a força energética capaz de lançar ao nível da consciência os resultados obtidos pela percepção, somados à complexidade psíquica do mecanismo de Apercepção (a qual também é um processo mental). Dessa forma, a Percepção é o resultado predominantemente fisiológico do processamento das informações obtidas do meio (por via dos órgãos sensoriais), enquanto a Apercepção seria a sua contraparte, entretanto de predominância psíquica. Conforme diz-nos C.G. Jung (1970), a respeito da relação Percepção/Apercepção:

"[...]Nós vemos, ouvimos, apalpamos e cheiramos o mundo, e assim temos consciência do mundo. Estas percepções sensoriais nos dizem que algo existe fora de nós. Mas elas não nos dizem o que isto seja em si. Isto é tarefa, não do processo de percepção, mas do processo de apercepção. Este último tem uma estrutura altamente complexa. Não que as percepções sensoriais sejam algo simples; mas sua natureza complexa é menos psíquica do que fisiológica. A complexidade da apercepção, pelo contrário, é psíquica. Podemos identificar nela a cooperação de diversos processos psíquicos".

"Na verdade. não há percepção que não esteja impregnada de lembranças. Aos dados imediatos e presentes de nossos sentidos, misturamos milhares de detalhes de nossa experiência passada. Na maioria das vezes, estas lembranças deslocam nossas percepções reais, das quais não retemos mais do que algumas indicações, simples 'signos' destinados a nos trazer à memória antigas imagens". (Bergson apud Leonardelli, 2008)

Consequentemente, a Apercepção seria o mecanismo mental pelo qual aqueloutras significações atribuídas às nossas impressões nos chegam por vias não relacionadas aos órgãos dos sentidos. Os conteúdos do inconsciente, impulsionados pela memória-emoção, ligam-se, pela ideação (pensamento-imagem psíquica), às percepções que obtemos do ambiente em que nos encontramos e que vamos registrando sensorialmente (cores e luzes que vemos no ambiente do terreiro, sons que ouvimos, cheiros e gostos que sentimos, tudo aquilo que tocamos, etc). Essa ligação entre o experienciado "fora-de-si" e o "em-si" promoverá a integração dos aspectos conscientes e inconscientes e a dissolução da cisão, mesmo que breve, na Consciência, do dualismo entre sujeito-objeto. Dessa forma, dentro do complexo do ser (médium), o ambiente e seus elementos sacralizam-se, assim como o seu próprio corpo. A dimensão espiritual contata, de maneira inteligível, a dimensão física.

Entretanto, a culminância deste estado último de completude só pode concluir-se e sustentar-se pela utilização coordenada da atenção, a concentração, pela qual o médium poderá selecionar os estímulos recebidos e mantê-los no centro de seu interesse, sabendo mediar o seu foco atencional para não perder-se em distrações, ao mesmo tempo não alienando-se do que se passa ao seu redor, conforme veremos adiante.

Importa considerarmos que, até o quarto estágio, os processos mentais construídos, por si só, já desencadeiam estados alterados de consciência, verificando-se transes mais ou menos pronunciados, no entanto, afigurando-se um tanto oscilantes, fugidios, os quais embora conservem no psiquismo reminiscências e no corpo impressões de sua ocorrência, ainda não são suficientes para garantirem apercepção e apreensão conscientes do contato com as dimensões mais profundas do ser e com a experiência espiritual.

Prolongando-se a experiência integrada nestes 4 estágios, enseja-se a passagem para um novo estágio
(quinto estágio estruturante), composto pelo par Concentração - Vontade.

Os mecanismos da Concentração e da Vontade passarão a agir como os direcionadores dos registros até então obtidos por processos mentais predominantemente inconscientes, automatizados. Neste novo estágio, a intervenção consciente do medianeiro  deve passar a conduzir o todo processado até o momento, de maneira a produzir efeitos benéficos para as estruturas do psiquismo, bem como sustentá-lo por um espaço de tempo mais dilatado, escolhendo e extraindo do conjunto de percepções, aquelas que merecerão a importância adequada em vista do objetivo almejado.

Assim, a Concentração funcionará como recurso a comando do ser, no qual estarão contempladas a Percepção e Atenção, as quais passarão a ser coordenadas pela personalidade mediúnica, colocando no centro da atenção (dai o termo Concentração) os momentos próprios de cada parte do trabalho
espiritual que está sendo realizado, alternando a atenção para o que se passa em seu mundo íntimo e no ambiente, de forma a entender os instantes propícios para a sua manifestação, seja ela de qualquer ordem, distinguindo a hora certa de conversar, de se portar desta ou daquela maneira, de entregar-se ao transe, de manter uma conduta adequada, atenta, e inclusive de respeito pelo local onde se encontra e pelas pessoas que comungam do trabalho (demais médiuns e, principalmente, assistidos).

"[...] o sistema nervoso é capaz de manter um contato seletivo com as informações que chegam através dos órgãos sensoriais, dirigindo a atenção para aqueles que são comportamentalmente relevantes e garantindo uma interação eficaz com o meio". (Brandão apud Lima, 2005). Entretanto, sem o contributo da Concentração aliada a Vontade - conforme veremos adiante -, o processo automatizado de seleção de percepções, não produzirá por si mesmo um resultado comportamental satisfatório para a conduta adequada do ser onde quer que se encontre. A Postura do Medianeiro, condizente ao seu papel Ético-religioso, implica na aplicação de ordens Intelecto-Morais sobre a sua conduta. Em palavras simples e diretas: o cérebro por si só nunca será capaz de tornar alguém educado ou comportamentalmente adequado, a não ser por processos Educativos e Éticos que se receba (Educação) e que se proponha vivenciar (Ética).

Prosseguindo. Acompanhada da Concentração, a Vontade desempenhará um papel fundamental na
sustentação do estado mental e psíquico oportuno para a concretização de um determinado fim. A Vontade caracteriza-se como ato mental que, após o reconhecimento dos conteúdos derivados das instâncias relacionadas aos estágios estruturais anteriores, produtos variantes da ideação mnemônico-emocional (pensamento-imagem; memória-emoção),  identifica a necessidade de realização de um objetivo e conclui o processo mental em uma ação dirigida, intencionando a compensação felicitadora. A Vontade, portanto, é processo mental pró-ativo, a qual deve ser conquistada e desenvolvida mediante a construção do hábito de interessar-se por tudo aquilo quanto provoque mudanças (benéficas, obviamente) na existência do ser e estabelecer motivações para consegui-lo.

O exercício da Vontade é aplicado na troca de hábitos doentios e perturbadores para outros que produzam saúde e paz interior, na conquista de experiências que aprofundem o ser no encontro com ideais enobrecedores.

Quanto mais repete o exercício da Vontade, maiores se tornam as possibilidades de realização e mais ampla sua intensidade e predominância no comportamento.

Vale ressaltar que as funções mentais tratadas aqui implicam num aprendizado, o qual ao ser repetido e compartilhado com o outro, uma vez que depende totalmente da integração com o meio, forma um processo educativo. Vemos que estamos formando, dinamicamente, uma Educação (Educação Mediúnica) e estabelecendo uma Disciplina (Disciplina Mediúnica) em torno de nossas vivências psíquicas, conduzindo-nos a construção de um Saber, a ser integrado em nossas práticas e, consequentemente, em nossas vidas dentro e fora do intercâmbio espiritual.

Saravá a todos!



Bibliografia Consultada:
Lima, Ricardo Franco (2005). Compreendendo os mecanismos atencionais (artigo científico)
Morini, C.A.T. (2007). Ritual de Umbanda - A Influência dos Estímulos Somato-Sensoriais na indução do Transe Mediúnico (tese de mestrado)
Jung, C.G. (1970). A Natureza da Psiquê

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